terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Taxas de juros de banco central tão baixas não têm precedentes desde há dois séculos

 – Uma visão derrotista do porvir [NR]


Por: Alexis Toulet

O sistema financeiro global jamais ultrapassou realmente a crise de 2008 e a sua sobrevivência não está assegurada senão porque todo o conjunto das moedas fiduciárias foram comprometidas para assegurá-lo – basta uma olhadela na história longa das taxas de juros da banca central para verificar.

Este sistema revelar-se-á estável e o que dizer do futuro das moedas fiduciárias que o garantem? Só o futuro o dirá, pois a situação é verdadeiramente sem qualquer precedente histórico.

Neste gráfico que mostra a evolução da taxa de juro de base do Banco de Inglaterra , encontrei matéria de reflexão.

A vantagem do mesmo é situar as evoluções recentes, em particular a crise financeira iniciada em 2007-2008, no longo prazo.

Já se sabia que a política de "taxa de juro zero" (ZIRP em inglês) – como aliás a "flexibilidade quantitativa" (QE) – praticada pelos principais bancos centrais afastava-se muito fortemente da habitual e de tudo o que classicamente foi considerado como a "boa gestão" de uma moeda fiduciária.

Este gráfico mostra até que ponto esta política é sem precedentes.

Entre 1830 e 2008, a taxa básica de juros do Banco da Inglaterra nunca caiu abaixo de 2%. Desde 2008 ela nunca subiu acima de 2%, nem mesmo de 1%. Por quê:   porque se o Banco da Inglaterra, o BCE, o Federal Bank americano etc fizessem tal coisa, a bolha do endividamento mundial público e privado explodiria. Ora, uma tal coisa é politicamente impensável. Eis porque estas taxas jamais serão elevadas a níveis adequados a uma "boa gestão".

Das duas uma:

1. Ou entrámos numa "nova norma" sustentável, um novo sistema monetário e financeiro que é estável em si mesmo e pode-se demonstrar sustentável no sentido pleno do termo – seus únicos limites físicos sendo a limitação das reservas de energia fóssil e os crescentes desequilíbrios que estamos infligindo à biosfera. Neste novo regime, como 
Paul Jorion observou recentemente numa entrevista a Le Média , o endividamento importa pouco, uma vez que a taxa de juros paga por um título (público ou privado) pode ser mantida tão baixa quanto necessário, se preciso fazendo comprar estes títulos directamente pelo banco central (como o Federal Bank americano ) ou indirectamente (como o BCE europeu). A única coisa que importa, claro, é ter o apoio do Banco Central, que em última instância decide quem terá de pagar esta taxa de juros praticamente nula e quem deverá pagar uma taxa mais normal – que o sufocará.

2. Ou este novo padrão é, de facto, insustentável. Chegará ao fim num período de tempo diferente do "longo prazo", talvez muito antes do pico das energias fósseis ou dos piores colapsos ambientais e, uma vez que só pode terminar na sequência de acontecimentos catastróficos equivalentes a uma perda de confiança maciça nas próprias moedas, bem, é assim que acabará de facto. Se ele continua doze anos depois é sobretudo devido à enormidade do que foi penhorado para a sobrevivência e continuação "tal qual" do sistema financeiro global. Nada menos que a confiança nas principais moedas fiduciárias mundiais: dólar, euro, yuan, iene, libra, franco suíço, etc 
[1] !

No primeiro caso, estamos diante de um sistema de poder novo, que é tão centralizado quanto o defunto poder soviético, embora seja tão desigual quanto o mais cruel dos capitalismos. Os novos mestres do mundo, ou seja, os Estados (Estados Unidos, China, etc) e os sistemas de Estados (UE) que controlam uma das principais moedas, em simultâneo centralizam um poder sem precedentes sobre o conjunto do sistema económico e utilizam-no para manter ou mesmo reforçar desigualdades agudas e até crescentes entre os 1% – ou mesmo 0,1% – e os outros. Na medida em que eles não forem "demasiado longe", de que se lembrarem do ditado "há que tosquiar ovelhas e não esfolá-las ", seu poder permanecerá sem dúvida virtualmente inexpugnável 
[2]

No segundo caso, o sistema financeiro global é realmente tão estável quanto um balão que incha indefinidamente e a pergunta é o que pode adiantar ou retardar a sua explosão. Questão aberta. Uma parte desta questão poderia ser saber se o balão corre o risco de encontrar uma agulha pelo caminho, digamos por exemplo um substituto capaz de "substituir" as moedas fiduciárias aos olhos dos principais detentores de capital ?– porque, claro, é acima de tudo a opinião deles que conta, não a do homem da rua.

O ouro é a solução clássica, é uma agulha sólida e comprovada. Mas é relativamente imóvel, é igualmente um factor conhecido pois a sua interacção com moedas fiduciárias já ocorre há várias gerações. Moedas descentralizadas peer to peer – em primeiro lugar o bitcoin – é outra coisa: a agulha é muito mais pequena, a sua sobrevivência está longe de garantida numa tentativa tão inovadora. Mas ela move-se rapidamente e isto é um factor muito novo, cuja interacção com as moedas fiduciárias ainda é amplamente desconhecida e poderia potencialmente ser devastadora, especialmente quando o próprio sistema das moedas fiduciárias está fragilizado, tendo de perdurar por si só o fardo da continuação em termos idênticos de um sistema financeiro mundial profundamente distorcido e sobrecarregado de dívidas irrecuperáveis.

Na ausência de uma agulha, quer seja o ouro ou a criptomoeda, talvez seja preciso imaginar que o balão ainda pode inchar por muito tempo. Mesmo que acabe por explodir no final, talvez sem aviso prévio.

Em ambos os casos, a situação é verdadeiramente sem qualquer precedente histórico.

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