– Uma visão derrotista do porvir [NR]
Por: Alexis Toulet
O sistema financeiro global jamais ultrapassou
realmente a crise de 2008 e a sua sobrevivência não está assegurada senão
porque todo o conjunto das moedas fiduciárias foram comprometidas para
assegurá-lo – basta uma olhadela na história longa das taxas de juros da banca
central para verificar.
Este sistema revelar-se-á estável e o que dizer do futuro das moedas
fiduciárias que o garantem? Só o futuro o dirá, pois a situação é
verdadeiramente sem qualquer precedente histórico.
Neste gráfico que mostra a evolução da taxa de juro de base do Banco de
Inglaterra , encontrei matéria de reflexão.
A vantagem do mesmo é situar as evoluções recentes, em
particular a crise financeira iniciada em 2007-2008, no longo prazo.
Já se sabia que a política de "taxa de juro zero" (ZIRP
em inglês) – como aliás a "flexibilidade quantitativa" (QE)
– praticada pelos principais bancos centrais afastava-se muito fortemente da
habitual e de tudo o que classicamente foi considerado como a "boa
gestão" de uma moeda fiduciária.
Este gráfico mostra até que ponto esta política é sem precedentes.
Entre 1830 e 2008, a taxa básica de juros do Banco da Inglaterra nunca caiu
abaixo de 2%. Desde 2008 ela nunca subiu acima de 2%, nem mesmo de 1%. Por quê:
porque se o Banco da Inglaterra, o BCE, o Federal Bank americano
etc fizessem tal coisa, a bolha do endividamento mundial público e privado
explodiria. Ora, uma tal coisa é politicamente impensável. Eis porque estas
taxas jamais serão elevadas a níveis adequados a uma "boa gestão".
Das duas uma:
1. Ou entrámos numa "nova norma" sustentável, um novo sistema
monetário e financeiro que é estável em si mesmo e pode-se demonstrar
sustentável no sentido pleno do termo – seus únicos limites físicos sendo a
limitação das reservas de energia fóssil e os crescentes desequilíbrios que
estamos infligindo à biosfera. Neste novo regime, como Paul Jorion
observou recentemente numa entrevista a Le Média ,
o endividamento importa pouco, uma vez que a taxa de juros paga por um título
(público ou privado) pode ser mantida tão baixa quanto necessário, se preciso
fazendo comprar estes títulos directamente pelo banco central (como o Federal
Bank americano ) ou indirectamente (como o BCE europeu). A única coisa
que importa, claro, é ter o apoio do Banco Central, que em última instância
decide quem terá de pagar esta taxa de juros praticamente nula e quem deverá
pagar uma taxa mais normal – que o sufocará.
2. Ou este novo padrão é, de facto, insustentável. Chegará ao fim num período
de tempo diferente do "longo prazo", talvez muito antes do pico das
energias fósseis ou dos piores colapsos ambientais e, uma vez que só pode
terminar na sequência de acontecimentos catastróficos equivalentes a uma perda
de confiança maciça nas próprias moedas, bem, é assim que acabará de facto. Se
ele continua doze anos depois é sobretudo devido à enormidade do que foi
penhorado para a sobrevivência e continuação "tal qual" do sistema
financeiro global. Nada menos que a confiança nas principais moedas fiduciárias
mundiais: dólar, euro, yuan, iene, libra, franco suíço, etc [1] !
No primeiro caso, estamos diante de um sistema de poder novo, que é tão
centralizado quanto o defunto poder soviético, embora seja tão desigual quanto
o mais cruel dos capitalismos. Os novos mestres do mundo, ou seja, os Estados
(Estados Unidos, China, etc) e os sistemas de Estados (UE) que controlam uma
das principais moedas, em simultâneo centralizam um poder sem precedentes sobre
o conjunto do sistema económico e utilizam-no para manter ou mesmo reforçar
desigualdades agudas e até crescentes entre os 1% – ou mesmo 0,1% – e os
outros. Na medida em que eles não forem "demasiado longe", de que se
lembrarem do ditado "há que tosquiar ovelhas e não
esfolá-las ", seu poder permanecerá sem dúvida virtualmente
inexpugnável [2]
No segundo caso, o sistema financeiro global é realmente tão estável quanto um
balão que incha indefinidamente e a pergunta é o que pode adiantar ou retardar
a sua explosão. Questão aberta. Uma parte desta questão poderia ser saber se o
balão corre o risco de encontrar uma agulha pelo caminho, digamos por exemplo
um substituto capaz de "substituir" as moedas fiduciárias aos olhos
dos principais detentores de capital ?– porque, claro, é acima de tudo a
opinião deles que conta, não a do homem da rua.
O ouro é a solução clássica, é uma agulha sólida e comprovada. Mas é
relativamente imóvel, é igualmente um factor conhecido pois a sua interacção
com moedas fiduciárias já ocorre há várias gerações. Moedas
descentralizadas peer to peer – em primeiro lugar o bitcoin –
é outra coisa: a agulha é muito mais pequena, a sua sobrevivência está longe de
garantida numa tentativa tão inovadora. Mas ela move-se rapidamente e isto é um
factor muito novo, cuja interacção com as moedas fiduciárias ainda é amplamente
desconhecida e poderia potencialmente ser devastadora, especialmente quando o
próprio sistema das moedas fiduciárias está fragilizado, tendo de perdurar por
si só o fardo da continuação em termos idênticos de um sistema financeiro
mundial profundamente distorcido e sobrecarregado de dívidas irrecuperáveis.
Na ausência de uma agulha, quer seja o ouro ou a criptomoeda, talvez seja
preciso imaginar que o balão ainda pode inchar por muito tempo. Mesmo que acabe
por explodir no final, talvez sem aviso prévio.
Em ambos os casos, a situação é verdadeiramente sem qualquer precedente
histórico.
Nenhum comentário:
Postar um comentário