quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O RCEP salta sobre as Novas Estradas da Seda

Por: Pepe Escobar

 

Ho Chi Minh, na sua morada eterna, estará a saborear isto com um sorriso celestial. O Vietname foi o hospedeiro – virtual – quando as 10 nações da ASEAN, mais a China, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, assinaram a Parceria Económica Regional Abrangente (Regional Comprehensive Economic Partnership, RCEP ) no último dia da 37ª Cimeira da ASEAN.

O RCEP, cuja preparação levou oito anos, reúne em conjunto 30% da economia global e 2,2 mil milhões de pessoas. É o primeiro marco auspicioso dos Devastadores Anos Vinte (Raging Twenties), os quais começaram com um assassinato (do Gen. Soleimani, do Irão) seguido por uma pandemia global e agora por intimidações agourentas de um suspeito Grande Reinício (Great Reset).

O RCEP define o Leste da Ásia como o eixo primário indisputado da geoeconomia. O Século Asiático de facto já estava em elaboração desde a década de 1990. Entre os asiáticos, e os ocidentais que o identificaram, está o meu livro 21st: The Asian Century publicado em 1997 (excertos 
aqui .)

O RCEP pode forçar o ocidente a fazer algum trabalho de casa e compreender que a narrativa principal não é que o RCEP "exclui os EUA" ou que é "concebido pela China". O RCEP é um acordo vasto de todo o Leste da Ásia, iniciado pela ASEAN e debatido entre iguais desde 2012, inclusive pelo Japão, o qual para todos os propósitos práticos se posiciona como parte do Norte Global industrializado. Este é o primeiro acordo comercial desde sempre que une as potências económicas asiáticas, China, Japão e Coreia do Sul.

Por agora está claro, finalmente em vastas faixas da Ásia do Leste, que 
os 20 capítulos do RCEP reduzirão tarifas de cabo a rabo; simplificarão alfândegas, com pelo menos 65% dos sectores de serviços abertos plenamente, com limites acrescidos de participação accionista estrangeira; solidificação de cadeias de abastecimento ao privilegiar regras comuns de origem; e codificação de novas regulações de comércio electrónico.

Quando se chega aos pormenores, as empresas estarão a poupar e serão capazes de exportar para qualquer lugar dentro do espectro das 15 nações sem se incomodarem com exigências extras e separadas de cada nação. Isto é acima de tudo um mercado integrado.

Quando o RCEP encontra-se com a BRI

O mesmo disco riscado estará a tocar sem parar que o RCEP facilitar as "ambições geopolíticas" da China. Esta não é a questão. A questão é que o RCEP evoluiu como um companheiro natural para o papel da China como o principal parceiro comercial de virtualmente todo actor do Leste Asiático.

O que nos traz para o ângulo geopolítico e geoeconómico chave: o RCEP é um companheiro natural para a Belt and Road Initiative (BRI), a qual como uma estratégia de desenvolvimento comercial sustentável estende-se não só ao Leste da Ásia mas aprofunda-se na Ásia Central e Ocidental.

análise do Global Times é correcta: o ocidente não cessou de distorcer a BRI, sem reconhecer como "a iniciativa que eles têm estado a difamar é realmente é realmente popular na vasta maioria de países ao longo da rota BRI".

O RCEP recentrará a BRI – cuja etapa de "implementação", de acordo com o calendário oficial, começa apenas em 2021. O baixo custo do financiamento e os empréstimos especiais em divisas oferecidos pelo Banco de Desenvolvimento da China tornar-se-ão muito mais selectivos.

Haverá um bocado de ênfase na Saúde da Estrada da Seda – especialmente através do Sudeste da Ásia. Projectos estratégicos serão a prioridade: eles giram em torno do desenvolvimento de uma rede de corredores económicos, zonas logísticas, centros financeiros, redes 5G, portos marítimos chave e, especialmente a curto e médio prazo, alta tecnologia relacionada com a saúde pública

As discussões que levaram ao texto final do RCEP foram centradas sobre um mecanismo de integração que possa facilmente contornar a OMC no caso de Washington persistir em sabotá-lo, como aconteceu durante a administração Trump.

O próximo passo poderia ser a constituição de um bloco económico ainda mais forte do que a UE – uma possibilidade não absurda quando temos a China, Japão, Coreia do Sul e 10 países da ASEAN a trabalharem em conjunto. Geopoliticamente, o incentivo principal, para além de um conjunto de compromissos financeiros imperativos, seria solidificar algo como Faça Comércio, Não Guerra (Make Trade, Not War).

O RCEP assinala o fracasso irremediável do TPP da era Obama, o qual era o braço da "NATO no comércio" do "eixo da Ásia" inventado no Departamento de Estado. Trump sucateou o TPP em 2017. O TPP não era acerca de um "contrapeso" para o primado comercial da China na Ásia: era acerca de uma liberdade para todas as super-abrangentes 600 companhias multinacionais que estiveram envolvidas na sua redacção. O Japão e a Malásia, especialmente, viram esta concepção desde o começo.

O RCEP inevitavelmente também assinala o fracasso irremediável da falácia da desconexão (decoupling), bem como de todas as tentativas para por uma pedra entre a China e seus parceiros do Leste Asiático. Todos estes actores asiáticos agora privilegiarão o comércio entre si mesmos. O comércio com nações não asiáticas será uma ideia posterior. E toda economia ASEAN dará total prioridade à China.

Ainda assim, as multinacionais americanas não serão isoladas pois elas serão capazes de lucrar com o RCEP através das suas subsidiárias dentro dos 15 países membros.

E a Grande Eurásia?

E depois há a proverbial confusão indiana. A interpretação oficial de Nova Delhi é que o RCEP "afectaria a subsistência" de indianos vulneráveis. Isso é código para uma invasão extra de produtos chineses baratos e eficientes.

A Índia fez parte das negociações do RCEP desde o início. Retirar-se – com a condição de que "podemos aderir mais tarde" – é mais uma vez um caso espectacular de esfaquearem-se nas costas. O facto é que os fanáticos da Hindutva por detrás do Modi-ismo apostaram no cavalo errado: a estratégia da parceria Quad promovida pelos EUA, juntamente com a estratégia Indo-Pacifico, a qual significa contenção da China e portanto impede o estreitamento de laços comerciais.

Nenhum "Make in India" irá compensar o erro geoeconómico e diplomático – o qual implica crucialmente que a Índia se distancie do Asean 10. A RCEP consolida a China, não a Índia, como o motor indiscutível do crescimento da Ásia Oriental em meio ao reposicionamento das cadeias de abastecimento pós-Covid.

Um seguimento geoeconómico muito interessante é o que fará a Rússia. De momento, a prioridade de Moscovo envolve uma luta de Sísifo: gerir o turbulento relacionamento com a Alemanha, o maior parceiro russo de importações.

Mas há a parceria estratégica Rússia-China – a qual deveria ser economicamente reforçada. O conceito de Moscovo de Grande Eurásia envolve um envolvimento mais profundo tanto do Leste como do Oeste, incluindo a expansão da União Económica Eurasiática (Eurasia Economic Union, EAEU), que tem, por exemplo, acordos de comércio livre com nações da ASEAN como o Vietname.

A Organização de Cooperação de Xangai (SCO) não é um mecanismo geoeconómico. Mas é intrigante ver o que o Presidente Xi Jinping disse no seu discurso de abertura no 
Conselho de Chefes de Estado da SCO , na semana passada.

Esta é a citação chave de Xi: "Devemos apoiar firmemente os países relevantes para avançarem suavemente as principais agendas políticas internas de acordo com a lei; manter a segurança política e a estabilidade social e oporem-se resolutamente à interferência de forças externas nos assuntos internos dos estados membros sob qualquer pretexto".

Aparentemente, isto nada tem a ver com a RCEP. Mas há alguns cruzamentos. Nenhuma interferência de "forças externas". Pequim a tomar em consideração as necessidades de vacina Covid-19 dos membros da SCO – e isto poderia ser estendido à RCEP. A SCO – assim como a RCEP – como uma plataforma multilateral para os estados membros mediarem as disputas.

Todos os pontos acima mencionados apontam para o entrecruzamento do BRI, EAEU, SCO, RCEP, BRICS+ e AIIB, o que se traduz como uma integração mais próxima da Ásia – e da Eurásia – geoeconomicamente e geopoliticamente. Enquanto os cães da distopia ladram, a caravana asiática – e euro-asiática – continua a avançar.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Donald Trump não joga apenas golfe, ele purga o Pentágono

Por: Thierry Meyssan

Em plena contestação dos resultados da eleição presidencial, o Presidente Donald Trump começou a purgar o Pentágono dos chefes da rebelião. Primeiro visado, o Secretário da Defesa, o qual não cessou de mentir a fim de esconder os reais objectivos dos oficiais generais.

Uma vez a eleição presidencial terminada, o locatário da Casa Branca apenas tem direito a gerir os assuntos correntes. Mas justamente antes da proclamação dos resultados do escrutínio pela Comissão Eleitoral federal, o Presidente Donald Trump começou uma operação de limpeza sem precedentes do Pentágono.

A imprensa dos EUA, sempre ocupada a apresentá-lo como um narcisista incompetente, não parece considerar isso como importante. Ela retrata-o, pois, como estando a jogar golfe.

Ora, ele demitiu :
- O Secretário da Defesa, Mark Esper (substituído por Christopher Miller) ;
- o seu Chefe de gabinete, Jen Stewart (substituído por Kash Patel) ;
- o Director da política da Defesa, James Anderson (substituído por Anthony Tata) ;
- o Sub-secretário da Defesa encarregado da Inteligência e da Segurança, Joseph Kernan (substituído por Ezra Cohen-Watnick)
- o agente de ligação com a OTAN, Michael Ryan (substituído por Andrew Winternitz)

Este movimento de pessoal é fácil de interpretar: desde o anuncio pelos grandes média (mídia-br) de uma vitória incontestável de Joe Biden, as confissões de altos funcionários relatando o modo como sabotaram durante anos seguidos a política dos jacksonianos, multiplicam-se [1]. Os funcionários afastados são suspeitos de os ter encoberto, ou até mesmo de ter conspirado para derrubar o Presidente Trump. Pelo contrário, os altos funcionários promovidos são fieis ao Presidente actual e partilham todos a convicção da existência de laços estreitos entre as presidências de Clinton e de Obama com a Confraria da Irmandade Muçulmana.

Pode parecer rebuscado estar a falar de uma sociedade secreta estrangeira a propósito da eleição presidencial dos EUA. No entanto, esse não é o caso.

Esta remodelação teria sido incentivada por Kash Patel. Antigo assistente do membro dos Representantes Devin Nunes na Comissão dos Serviços Secretos (ou Inteligência-ndT), ele jogou um papel na demonstração da vigilância de que Donald Trump fora alvo por parte da Administração Obama e na falsidade do Russiagate [2]. Então, ele foi nomeado Assistente adjunto do Presidente Trump e Director do anti-terrorismo no Conselho de Segurança Nacional. De origem indiana, conhece o papel dos Irmãos Muçulmanos na organização de atentados islamistas.

O novo Secretário da Defesa é o antigo director do Centro de luta anti-terrorista, o Coronel Christopher Miller. Portanto, pode-se supor que ele tem um conhecimento aprofundado sobre a nebulosa dos Irmãos Muçulmanos.

O novo Director da Política de Defesa é o Brigadeiro-General Anthony Tata. Antigo comentador da Fox News, ele acusou várias vezes o Presidente Obama e os Clinton de serem os terroristas-em-chefe das redes jiadistas. Levado pelo seu élan, acusou também o antigo Director da CIA, John O. Brennan, de ter urdido uma tentativa de assassínio do Presidente Trump, o que se mostrou difamatório (embora não sendo a primeira alegação). Ele terá a assistência de Thomas Williams, antigo membro do Conselho de Segurança Nacional que foi formado por Zbigniew Brzezinski.

O novo Sub-secretário da Defesa, encarregado da Inteligência e da Segurança, é Ezra Cohen-Watnick. Ele é um antigo membro da equipa do General Michael Flynn na Informação Militar, que se bateu contra os Irmãos Muçulmanos no terreno. É reputado por recusar os compromissos políticos.

O novo responsável pela Europa e pela OTAN é Andrew Winternitz. Este nipo-americano especialista em Ciências Políticas fora já o encarregado sobre a França no Pentágono durante vários anos. É o único membro da nova equipa que não teve que fazer frente à Confraria.

Esta reviravolta chega muito tarde: durante quatro anos, os responsáveis do Pentágono tudo fizeram para não aplicar as instruções do Presidente Trump e assim fazer persistir os conflitos. Ele tinha-lhes dado uma grande margem de manobra, o que lhe permitiu agir em outras domínios sem ter que temer um Golpe de Estado militar. No entanto, nos últimos meses, os oficiais generais manifestavam cada vez mais a sua vontade em utilizar a crise da sanitária para afastar da cena pública todos os políticos, entre os quais o próprio Presidente Trump ; uma atitude em total contradição com o apoio dos soldados ao presidente jacksoniano.

É claro, as posições de uns e de outros em relação à Confraria dos Irmãos Muçulmanos foram um critério para esta remodelação. Tendo em conta os laços estreitos das famílias Obama (o Presidente Barack e seu meio-irmão Abon’go Malik) e Clinton (o Presidente Bill e a Secretária de Estado Hillary) com a Irmandade [3], tudo leva a pensar que estes acontecimentos estão ligados à crise institucional que atravessa os Estados Unidos actualmente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O réquiem americano

Por: Chris Hedges


Bem, acabou. Não a eleição. A democracia capitalista. Por mais tendenciosa que fosse para os interesses dos ricos e mais hostil para os pobres e minorias, a democracia capitalista pelo menos oferecia a possibilidade de migalhas de reformas graduais. Agora é um cadáver. A iconografia e a retórica permanecem as mesmas. Mas é um elaborado e vazio reality show, financiado pelos oligarcas que controlam a sociedade – 1,51 mil milhões de dólares para a campanha de Biden, 1,57 mil milhões para a campanha de Trump – para nos fazerem pensar que há escolhas. Não há. O duelo entre o discurso palavroso e vazio de Trump e o de Biden com dificuldades de expressão foi concebido para mascarar a verdade. Os oligarcas ganham sempre. As pessoas perdem sempre. Não importa quem se senta na Casa Branca. Os EUA são um estado falido.

"O sonho americano ficou sem combustível", escreveu o romancista J.G. Ballard. "O carro parou. Já não abastece o mundo com suas imagens, seus sonhos, suas fantasias. Não mais. Acabou. Agora o que fornece ao mundo são os seus pesadelos".

Muitos dos seus participantes mataram a sociedade aberta da América. 
[NT] Foram os oligarcas que compraram o processo eleitoral, os tribunais e os media, os lobistas que redigem a legislação que nos empobrece e permite que se acumulem quantias obscenas de riqueza e poder irrestrito. Os militaristas e a indústria de guerra que drenaram o tesouro nacional para montar guerras inúteis e sem fim que esbanjaram cerca de 7 milhões de milhões de dólares e nos transformaram em párias internacionais.

Também os executivos que arrecadam em bónus e pacotes de compensação dezenas de milhões de dólares, que enviaram empregos para o exterior e deixaram nossas cidades em ruínas e nossos trabalhadores na miséria e desespero, sem um rendimento de subsistência e sem esperança no futuro. A indústria de combustíveis fósseis que fez guerra à ciência e optou por lucros em vez da iminente extinção da espécie humana. A imprensa que transformou as notícias em entretenimento acéfalo e de claques partidárias. Os intelectuais que se retiraram para as universidades para pregar o absolutismo moral da política de identidade e do multiculturalismo, enquanto viravam as costas à guerra económica que estava a ser travada contra a classe trabalhadora e ao ataque implacável às liberdades civis. E, claro, a classe liberal irresponsável e hipócrita que não faz nada além de falar, falar, falar. [NT: recordamos que "liberal" nos EUA, corresponde mutatis mutandis às várias tendências social-democratas na Europa]

Se há um grupo que merece o nosso mais profundo desprezo, são as elites liberais, aqueles que se colocam como árbitros morais da sociedade, mas abandonam todos os valores que supostamente possuem no momento em que se tornam inconvenientes. A classe liberal, mais uma vez, actuou como patéticos animadores e censores para um candidato e um partido político que na Europa seria considerado de extrema-direita. Mesmo quando os liberais eram ridicularizados e rejeitados por Biden e pela hierarquia do Partido Democrata, que com fanfarronice investia a sua energia política para apelar para os neocons republicanos, os liberais estavam ocupados a marginalizar jornalistas, incluindo Glenn Greenwald e Matt Taibbi, que interpelavam Biden e os democratas. Os liberais, seja em The Intercept ou em The New York Times, ignoraram ou desacreditaram informações que poderiam prejudicar o Partido Democrata, incluindo as revelações do computador de Hunter Biden. Foi uma demonstração impressionante de carreirismo cobarde e auto-exclusão.

Os democratas e seus apologistas liberais estão, a eleição ilustrou, alheios ao profundo desespero pessoal e económico que varre este país. Eles não representam nada. Eles lutam por nada. Mais uma vez esqueceram restaurar o Estado de Direito, a saúde universal, a proibição do fracturamento hidráulico, um New Deal Verde, a protecção das liberdades civis, a formação de sindicatos, a preservação e expansão de programas de bem-estar social, uma moratória sobre despejos e execuções hipotecárias, o perdão de dívidas estudantis, um controlo ambiental rígido, um programa governamental de emprego e rendimento garantido, a regulamentação financeira, a oposição à guerra sem fim e ao aventureirismo militar

Defender essas questões teria resultado num desmoronar de terras no Partido Democrata. Mas, como o Partido Democrata é um subsidiário integral de doadores corporativos, era impossível promover qualquer política que pudesse fomentar o bem comum, diminuir os lucros corporativos e restaurar a democracia, incluindo a imposição de leis sobre o financiamento das campanhas. A campanha de Biden foi totalmente desprovida de ideias e questões políticas, como se ele e os democratas pudessem vencer as eleições apenas prometendo salvar a alma da América. Pelo menos os neofascistas têm a coragem das suas convicções dementes.

A classe liberal funciona numa democracia tradicional como uma válvula de escape. Torna possível as migalhas de reformas graduais, que amenizam os piores excessos do capitalismo. Propõe passos graduais em direcção a uma maior igualdade. Pretendem dotar o Estado e os mecanismos de poder de supostas virtudes. Também servem como cão de fila para desacreditar os movimentos sociais radicais. A classe liberal é uma componente vital dentro da elite do poder. Em suma, oferece a esperança e a possibilidade, ou pelo menos a ilusão, de mudança.

A rendição da elite liberal ao despotismo cria um vácuo de poder preenchido por especuladores, exploradores de guerra, gangsters e assassinos, muitas vezes liderados por demagogos carismáticos. A elite liberal abre as portas aos movimentos fascistas que ganham proeminência ridicularizando e insultando os absurdos da classe liberal e os valores que pretendem defender. As promessas dos fascistas são fantásticas e irrealistas, mas suas críticas à classe liberal são baseadas na verdade. Uma vez que a classe liberal deixa de funcionar, abre uma caixa de Pandora de males impossíveis de conter.

A doença do trumpismo, com ou sem Trump, está, como a eleição ilustrou, profundamente enraizada no corpo político. Tem expressão em enormes segmentos da população, ridicularizados pelas elites liberais como "deploráveis", de uma alienação e raiva legítimas que republicanos e democratas orquestraram e agora se recusam a tratar. Porém, o trumpismo, como a eleição mostrou, não se limita aos homens brancos, cujo apoio a Trump na verdade diminuiu.

Dostoievski viu o comportamento da inútil classe liberal da Rússia, que satirizou e criticou no final do século XIX, como presságio de um período de sangue e terror. O fracasso dos liberais em defender os ideais que professavam levou inevitavelmente, escreveu ele, a uma era de niilismo moral. Em 
Cadernos do Subterrâneo , retratou os sonhadores estéreis e derrotados da classe liberal, aqueles que sustentavam ideais elevados, mas nada faziam para defendê-los. A personagem principal leva as ideias falidas do liberalismo ao seu extremo lógico. Ele foge da paixão e do propósito moral. É racional. Acomoda-se a uma estrutura de poder corrupta e moribunda em nome de ideais liberais. A sua hipocrisia condenou a Rússia como agora condena os Estados Unidos. É a desconexão fatal entre convicções e acção.

"Eu nunca consegui tornar-me coisa alguma: nem mau nem bom, nem um canalha nem um homem honesto, nem um herói nem um insecto", escreveu o Homem do Subterrâneo. "E agora estou a viver a minha vida no meu canto, zombando de mim mesmo, com o consolo rancoroso e totalmente fútil de que é impossível um homem inteligente tornar-se seriamente alguma coisa, e apenas os tolos se tornam alguma coisa. Sim, senhor, um homem inteligente do século XIX deve ser, e moralmente é obrigado a ser, principalmente um ser sem carácter; e um homem de carácter, uma figura activa – é fundamentalmente um ser limitado."

A recusa da classe liberal em reconhecer que o poder foi arrancado das mãos dos cidadãos por empresas, que a Constituição e suas garantias de liberdade pessoal foram revogadas por decreto judicial, que as eleições nada mais são do que espectáculos vazios encenados pelas elites governantes, que estamos no lado perdedor da guerra de classes, deixou-os falando e agindo de maneiras que não correspondem mais à realidade.

A "ideia da vocação intelectual", como Irving Howe salientou no seu ensaio "This Age of Conformity" de 1954, "a ideia de uma vida dedicada a valores que não podem ser realizados por uma civilização comercial – gradualmente perdeu seu fascínio. E é isso, ao invés do abandono de um determinado programa, que constitui a nossa rota. "A crença de que o capitalismo é o motor inexpugnável do progresso humano, escreveu Howe, "é alardeada por todos os meios de comunicação: propaganda oficial, publicidade institucional e escritos académicos de pessoas que, até há alguns anos, eram os seus principais oponentes."

"As pessoas verdadeiramente sem poder são aqueles intelectuais – os novos do realismo político – que se prenderam aos assentos do poder, onde renunciam à liberdade de expressão sem ganhar qualquer significado como figuras políticas", escreveu Howe. "Pois é crucial para a história dos intelectuais americanos nas últimas décadas – bem como para a relação entre "riqueza' e 'intelecto" – que sempre que são absorvidos pelas instituições credenciadas da sociedade, não apenas perdem as suas tradições rebeldia, mas de uma forma ou de outra, deixam de funcionar como intelectuais".

As populações podem suportar a repressão dos tiranos, enquanto esses governantes continuarem a administrar e exercer o poder com eficácia. Mas a história humana demonstrou amplamente que, uma vez que aqueles em posições de poder se tornam redundantes e impotentes, mas ainda assim mantêm as armadilhas e privilégios do poder, são brutalmente descartados. Isso foi verdade em Weimar, Alemanha. Foi verdade na ex-Jugoslávia, um conflito que cobri para o New York Times.

O historiador 
Fritz Stern em "The Politics of Cultural Despair", um livro sobre a ascensão do fascismo na Alemanha, escreveu sobre as consequências do colapso do liberalismo. Stern argumentou que os alienados espiritual e politicamente, aqueles deixados de lado pela sociedade, são os principais recrutas para uma política centrada na violência, ódios culturais e ressentimentos pessoais. Muito dessa raiva, com razão, é dirigida a uma elite liberal que, embora fale a linguagem "Eu sinto a vossa dor" do liberalismo tradicional, os vende.

"Eles atacaram o liberalismo", escreve Stern sobre os fascistas emergentes à época na Alemanha, "porque lhes parecia a premissa principal da sociedade moderna; tudo o que eles temiam parecia brotar daí; a vida burguesa, o 
manchesterismo , o materialismo, o parlamento e os partidos, a falta de liderança política. Eles sentiam no liberalismo a fonte de todos os seus sofrimentos. Era um ressentimento de solidão; o seu único desejo era por uma nova fé, uma nova comunidade de crentes, um mundo com padrões fixos e sem dúvidas, uma nova religião nacional que unisse todos os alemães. Tudo isso, o liberalismo negou. Consequentemente, odiavam o liberalismo, culpando-o por torná-los párias, por desenraizá-los de seu passado imaginário e de sua fé".

Nós estamos prontos para isso. O sistema de saúde com fins lucrativos, projectado para ganhar dinheiro – e não para cuidar dos doentes – não está equipado para lidar com uma crise nacional de saúde. As corporações de saúde passaram as últimas décadas fazendo fusões e fechando hospitais, cortando o acesso a cuidados de saúde em comunidades por todo o país para aumentar a receita – isto, tal como quase metade de todos os trabalhadores permanecem inelegíveis para auxílio durante uma doença e cerca de 43 milhões perderam o seu seguro saúde patrocinado pela empresa. A pandemia, sem assistência médica universal, que Biden e os democratas não têm intenção de estabelecer, continuará a fazer estragos fora de controlo. Trezentas mil mortes previstas para Dezembro. Quatrocentas mil em Janeiro. E quando a pandemia acabar ou uma vacina estiver disponível com segurança, centenas de milhares, talvez milhões, terão morrido.

As consequências económicas da pandemia, o subemprego crónico e o desemprego – perto dos 20% quando os que pararam de procurar trabalho, os que foram licenciados sem perspectiva de recontratação e os que trabalham a tempo parcial abaixo da linha da pobreza forem incluídos nas estatísticas oficiais, significará uma depressão diferente de tudo que vimos desde os anos 1930. A fome nas famílias dos EUA já triplicou desde o ano passado. A proporção de crianças americanas que não recebem o suficiente para comer é 14 vezes maior do que no ano passado. Os bancos alimentares estão saturados. A moratória sobre execuções hipotecárias e despejos foi suspensa, enquanto mais de 30 milhões de americanos pobres enfrentam a perspectiva de serem postos na rua.

Não há mais controlo sobre o poder corporativo. A inevitável agitação social fará com que o Estado, não importa quem esteja na Casa Branca, use os seus três principais instrumentos de controlo social – extensa vigilância, prisões e polícia militarizada – apoiada por um sistema legal que rotineiramente revoga o habeas corpus e o devido processo legal, para esmagar implacavelmente a dissidência.

Pessoas de cor, imigrantes e muçulmanos serão responsabilizados pelo declínio da nação e visados pelos fascistas. Os poucos que continuarem a desafiar o Partido Democrata denunciando os crimes do Estado corporativo e do império serão silenciados. A esterilidade da classe liberal, servindo os interesses de um Partido Democrata que os ignora e despreza, alimenta os sentimentos generalizados de traição que viram quase metade dos eleitores apoiar um dos presidentes mais vulgares, racistas, ineptos e corruptos da história americana. Uma tirania americana, com o verniz ideológico de um fascismo cristianizado, irá, segundo parece, definir a descida histórica do império à irrelevância.

 [NT] Cumpre recordar que esta "sociedade aberta" vivia a discriminação racial e era doentiamente anticomunista quer internamente quer pelos horrores das guerras e outras intervenções imperialistas – o que aliás se depreende do que Chris Hedges faz notar no seu texto.

O descalabro fraudulento da democracia burguesa

Softwares Hammer e Scorecard: o impulso da Big Tech para liquidar a democracia


Por: Matthew Ehret

 

Na noite de 5 de Novembro, o presidente dos Estados Unidos fez comentários da Casa Branca transmitindo a evidência de uma fraude maciça de votos conduzida pela mesma aliança da comunidade de inteligência Wall Street-Big Tech que durante quatro anos esteve activamente a organizar-se para a sua derrubada.

Apesar da veracidade das suas observações, que as crescentes evidências de fraudes no software de contagem de votos apenas validaram, os grande media da NBC, CNN, NPR e MSNBC fizeram o movimento sem precedentes de censurar o presidente a meio do discurso a fim de proteger as mentes dos telespectadores.

Entre suas muitos críticas ao sentido de dever da imprensa, o presidente declarou: "Se você contar os votos legais, venço facilmente. Se contar os votos ilegais, eles podem tentar nos roubar a eleição". ( O discurso censurado pode ser lido aqui na íntegra ).

Mas o que significa isso? O que são votos ilegais?

Como expõe o presidente naquele discurso censurado e em outros locais durante a semana passada, votos ilegais significam exactamente isso: votos obtidos para um candidato ou subtraídos de outro candidato através de meios ilegais. As formas típicas que esses votos ilegais tendem a assumir podem ser: 1) votos pelo correio que chegaram além dos prazos legais e no entanto foram contados de qualquer maneira ou tiveram seus carimbos de data / hora 
alterados pelos trabalhadores postais ; 2) votos de pessoas mortas; 3) votos de pessoas ausentes que se haviam mudado dos estados em que registaram seus votos. Existem outros, é claro.

A técnica mais importante utilizada em todo este assunto da fraude eleitoral veio à tona na forma de máquinas de votação controladas pelo big tech e software associado de contagem de votos associado que passaram a dominar a maior parte das eleições por todo o mundo nos últimos 20 anos, as quais foram reveladas já há 14 anos atrás no documentário de 2006 
Hacking Democracy .

Este é o sistema de fraude revelado pelo advogado do general Flynn, Sidney Powell, na entrevista de 6 de Novembro , quando afirmou:

"Eles executaram um algoritmo para calcular os votos que podem precisar em áreas específicas. Penso que isso explica o que aconteceu em Michigan, onde uma falha no computador resultou numa mudança de votos de cerca de 5.500 a favor do presidente Trump apenas num dos 47 distritos. Todos esses distritos precisam ser verificados para a mesma "falha de software" que mudou o resultado em Michigan dramaticamente".

Powell prosseguiu descrevendo as centenas de milhares de boletins de voto que aparecem misteriosamente no meio da noite, todas a favor de Biden e descreveu o software que fora desenvolvido há uma década atrás pelo empreiteiro da CIA e agora denunciante Dennis Montgomery chamado Hammer and Scorecard: "Eles foram usados pelas forças e pelos operacionais do Partido Democrata que tiveram acesso a estes programas através dos pontos de acesso do governo que eles têm e usaram-nos ilegalmente para mudar votos neste país. Deve ser investigado provavelmente pelos responsáveis da inteligência militar da maior confiança do presidente, os quais podem entrar no sistema e verificar o que foi feito. Mas temos algumas evidências de que foi exactamente isso o que aconteceu".

Esta mensagem 
foi ampliada pelo ex-analista sénior / denunciante da NSA, Kirk Wiebe , em 7 de Novembro, quando descreveu como estes aplicativos irmãos funcionam em conjunto para mapear os diferenciais de votação num sistema e, em seguida, aplicar mudanças subtis de votos de acordo com códigos de software inteligentes (smartcodes) que invertem os votos de um candidato para outro em microsegundos de acordo com os objectivos do programador.

Se alguém estiver à procura de evidências de isso realmente ter acontecido, então basta examinar o caso do governador republicano Matt Bevin, cujo oponente democrático Andy Beshear recebeu os mesmos 560 votos que foram removidos da contagem de Bevin durante uma última actualização ao vivo da CNN no ano passado.

"Falhas" semelhantes surgiram por todo o país nas eleições de 2020 e ocorreram muito antes de 2019. Na verdade, 
gravações de denúncias divulgadas em 2015 pelo juiz federal Murray Snow revelaram que estes programas foram utilizados para mudar votos a favor de Obama na Flórida em 2012 e as 600 milhões de páginas divulgadas por Montgomery implicam Brennan e Clapper na administração do uso do Hammer desde que este foi confiscado em 2009 pelo estado profundo de Obama.

O caso revelador da Dominion Systems

O melhor ponto de entrada para o mundo corrupto das eleições falsificadas conduzidas pelo estado profundo de hoje pode ser encontrado no estudo de caso da 
Dominion Vote Systems , uma empresa canadiana com sede no Colorado que domina o cenário eleitoral americano. Actualmente, o software da Dominion é usado em 30 estados e jacta-se de ter atendido 71 milhões de eleitores em 1.635 jurisdições nos EUA em 2016.

Entre os estados onde este software executa a leitura e contagem de votos, estão incluídos todos os estados indefinidos (swing states) agora sujeitos a recontagens e investigações judiciais, tais como Nevada, Arizona, Minnesota, Michigan, Wisconsin, Geórgia e Pensilvânia.

Em 9 de Novembro, Bethany Blankley, do Examiner de Washington, 
relatou que "The Dominion Voting Systems, que tem sido usado em vários estados onde foi alegada fraude na eleição de 2020 nos Estados Unidos, foi rejeitado três vezes por especialistas em comunicação de dados do secretário de Estado do Texas e Gabinete do Procurador-Geral por não cumprir os padrões básicos de segurança". Blankley citou a secretária de Estado do Texas, Ruth Hughs, que em 2019 rejeitou os esforços da Dominion para entrar no seu estado , uma vez que os sistemas não estavam "protegidos contra manipulação fraudulenta ou não autorizada".

Indo além para demonstrar seu preconceito partidário como uma arma do estado profundo concebida para derrubar Trump, a Dominion está directamente conectada à Fundação Clinton através do Projeto Delian da Iniciativa Global Clinton. Este projecto foi criado em 2014 e 
no seu sítio web diz:

"Em 2014, a Dominion Voting comprometeu-se a fornecer às democracias emergentes e pós-conflito acesso à tecnologia de votação por meio do seu apoio filantrópico ao Projeto DELIAN, pois muitas democracias emergentes sofrem com a violência pós-eleitoral devido ao atraso na publicação dos resultados de eleições. Nos próximos três anos, a Dominion Voting apoiará [testes] piloto de tecnologia eleitoral com máquinas de votação automatizadas (Automated Voting Machines, AVM) doadas, proporcionando um processo eleitoral aprimorado e, portanto, eleições mais seguras".

Quando a Fundação Clinton descreve as "democracias emergentes" que se irão beneficiar da generosidade do Dominion, eles estão na verdade a referir-se a nações que foram alvejadas por destruições e reconstruções promovidas por revoluções coloridas sob a imagem da ideia distópica de Soros de uma ordem mundial tecnocrática. Na última década, a Dominion doou mais de US$50 mil directamente à Fundação Clinton para este projecto e seu antigo proprietário William Kennard foi nomeado por Obama como embaixador junto à União Europeia (2009-2013) e antes fora nomeado por Clinton quando chefiou o Comissão Federal de Comunicações de 1997-2001.

Além disso, quando comprou um lobista do Distrito de Columbia, a Dominion não teve senão de olhar o gabinete de Pelosi 
quando contratou Nadeam Elshami (ex-chefe de gabinete de Pelosi) em 2019.

Antes de saltar para o "é a vingança divina para os republicanos que em 2000 e 2004 usaram as mesmas tácticas para colocar Bush e Cheney no poder", é importante recordar que isto vai muito além da política partidária e atinge o cerne do sistema supranacional do fascismo, o qual opera acima das políticas nacionais. Trata-se de um sistema supranacional ao qual Trump tem resistido desde que assumiu o cargo quando declarou que "o futuro pertence aos patriotas, não aos globalistas" e este é o sistema que no século passado espalhou seus tentáculos por toda a parte do mundo. Sidney Powell acertou em cheio ao dizer: "eles usaram-no contra outras entidades em outros países. Recentemente, aqui, isto voltou-se contra os nossos próprios cidadãos a fim de mudar resultados eleitorais".

O caso das Filipinas

Como foi dito anteriormente, o Projeto Delian do Dominion é uma lembrança das operações de "construção da democracia" de Soros-Clinton que penetraram profundamente nas antigas nações soviéticas e causaram uma confusão embaraçosa nas Filipinas, onde a sua subsidiária Smartmatic (administrada por arqui globalista Lord Mark Malloch Brown) revelou-se estar no centro de uma vasta fraude eleitoral nas eleições de 2010, 2013 e 2016.

Quando o peão de Soros, Benigno Aquino III, foi declarado vitorioso nas eleições de 2010, apesar da falta de popularidade entre o povo e de uma série de falhas de votação, a análise forense das máquinas de votação da Smartmatic foi conduzida por uma equipe liderada pelo especialista em computação Al Vitangcol III e 
descobriu que todos os sistemas eram facilmente hackeáveis através de diversas maneiras : 1) hackear o cartão de memória para injectar votos negativos num candidato ou votos positivos em outro, 2) utilizar as portas de console e as portas USB na parte de trás das máquinas de contagem que a Smartmatic afirma existir apenas para fins de diagnóstico, mas que o Vitangcol provou que podiam permitir que um laptop comum se conectasse e influenciasse os votos e o software com um cabo serial comum, sem exigir palavras-passe ou nomes de utilizador. Por fim, o hackeamento dos próprios servidores contendo a transmissão de informações eleitorais, como foi o caso nas eleições de 2020 nos EUA, revelou-se extremamente fácil para hackers habilidosos da equipe de Vitangcol.

Os resultados destes e de outros estudos efectuados aos sistemas da Smartmatic irritaram o presidente Duterte o suficiente 
para exigir , em Maio de 2019, que o governo filipino "se desfizesse desses Smartmatics e procurasse um sistema novo que fosse livre de fraudes", dando-lhes três anos para cumprirem a tarefa.

Até agora, estabelecemos os fundamentos do lado técnico da fraude eleitoral que ocorreu tanto nos EUA quanto internacionalmente, e revimos alguns dos agentes e operacionais superiores que comandam o jogo a partir do topo ... no entanto, ainda não começámos realmente a olhar para a própria besta em toda a sua fealdade.

Este é um exercício que faremos em pormenor na próxima edição, a qual introduzirá a figura de Lord Mark Malloch Brown como uma mão de ferro por detrás do esforço britânico não só para desfazer a Presidência de Donald Trump como também a própria república e o sistema de Estados-nação soberanos por toda a parte.

 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A que ruptura nos convoca a crise actual do capitalismo?


Por: Rémy Herrera


As três questões inicialmente colocadas foram:
- Porquê uma ruptura com o capitalismo?
- Porquê a escolha de uma alternativa socialista?
- Que lições podem ser aprendidas da China, Vietname, Cuba?


Quero agradecer aos organizadores desta iniciativa pelo seu convite para falar, para falar outra vez de socialismo. Trata-se de algo feliz, pois fazem lustros que o PCF renunciou a falar e, na realidade, renunciou de todo ao socialismo. E, pessoalmente, penso que é nomeadamente por causa desta renúncia que o Partido está onde está, ou seja, no ponto mais baixo.

O problema é que, ao abandonar o socialismo – que é uma via, que é uma transição –, o Partido abandonou também a busca do ideal comunista. Daí este estado actual de deriva, ou esta impressão de perdição.

Portanto, confesso que – estou certamente muito satisfeito com esta iniciativa, mas que – me sinto um pouco como padre operário convidado a um concílio do Vaticano, ou um membros dos alcoólicos anónimos convidado a um salão de vinhos e bebidas espirituosas para dizer: "é preciso parar de beber!". Permitam-me dizer isto a brincar para não ser demasiado desagradável.

Aceitei estar aqui e participar deste debate, não para dividir, mas para contribuir, modestamente, para a unidade daquelas e daqueles que querem falar de socialismo para iniciar uma transição socialista, em ruptura com o sistema no qual vivemos, e no qual vivemos cada vez mais mal.

Este sistema está em crise. Esta crise não data de ontem, ela remonta a pelo menos um meio século, ela é estrutural, grave, mesmo gravíssima, ela é multidimensional. Ela é sistémica, o que quer dizer que o sistema não encontrará solução por si mesmo. O capitalismo declina, o capitalismo degenera e se não se afunda rapidamente é porque o seu Estado o sustém com grande esforço; como foi o caso em 2008 quando a vertente financeira do sistema entrou em colapso, e como ainda hoje acontece com a chamada crise dita "sanitária" e uma economia que vive sob perfusão.

O que estou a dizer é que não haverá saída para o problema sanitário com pessoas que destroem o hospital público; nem saída para o problema financeiro com bancos que continuam a especular. Não haverá solução para o problema ambiental com ecologistas uns mais neoliberais do que outros, tal como não houve solução para os problemas sociais com os social-liberais do PS. E acrescentarei que tão pouco haverá saída para o terrorismo religioso com os mercadores do templo que enfraqueceram a educação nacional e a laicidade, vendendo-a ao sector privado, que além disso é confessional.

O capital jamais encontrará uma solução através da sua lógica interna do lucro, por razões profundas e múltiplas, nomeadamente porque as suas novas tecnologias tendem a poupar muito trabalho humano e a minar a criação de valor, porque o trabalho improdutivo está a ganhar terreno ao trabalho produtivo, porque as contradições do capital exigem uma intervenção estatal que custa cada vez mais caro, mas também porque a acumulação excessiva provém agora sobretudo do capital fictício e porque as finanças encerram todo o sistema numa espiral de destruições, conflitos e guerras que acabam por nos ameaçar a todos com a morte.

É por isso que querer embarcar numa transição socialista não é apenas responder a um espírito de justiça, é responder ao apelo da razão, é mesmo uma questão de sobrevivência para a humanidade, para a ida. E é aí que estamos, camaradas

O socialismo não é apenas uma palavra, é uma luta. Não é um fim, mas um processo de transição, longo, difícil, que pode tomar mil formas no caminho da emancipação, no caminho da libertação do trabalho da dominação do capital. Porque isso é que é o capitalismo, a dominação do capital sobre o trabalho.

Sei que dirão: já se tentou e correu mal. Mas quando exactamente foi tentado o socialismo neste país? Em 1981? Em 1981, o que tivemos foi o mitterrandismo e "a invenção do neoliberalismo de estado", mas não o socialismo. É o que explico no meu último livro, En Lutte !

E a URSS e a Europa de Leste, não será isso um fracasso? O que vos direi acerca deste assunto é que o capitalismo levou séculos a emergir e a libertar-se do feudalismo, então porque não deveria o socialismo, com uma ambição muito mais bela e muito mais justa, ter direito a um tempo longo? E além disso, será o socialismo o mesmo por toda a parte? Se assim fosse, então teria falhado por toda a parte. Ora, isto não é o caso, não é de todo o caso. Faz-se crer que o socialismo por toda a parte para que os trabalhadores abandonem a luta e se submetam, para que os povos do Norte e do Sul acreditem que não há mais alternativa.

É aqui que as experiências da China, Vietname e Cuba são interessantes para as nossas lutas.

A China é a maior história de êxito económico do mundo e mesmo da história mundial. Nossos inimigos dizem: China? É o capitalismo! Então deveríamos acreditar neles, repetir isso e atribuir o êxito chinês ao capitalismo? Mas o capitalismo não merece tal elogio! Não, este êxito chinês deve-se principalmente, essencialmente, ao socialismo. Nenhum dos recentes êxitos chineses teria sido possível sem uma luta encarniçada contra o capitalismo, sem um controlo rigoroso por parte dos capitalistas, sem a revolução socialista que começou em 1949, que tirou o povo chinês da miséria e da guerra e que lhe trouxe o progresso social, a educação, a saúde, as infra-estruturas públicas, a independência, a dignidade.

Portanto, permaneçamos modestos – mas não submissos. Os chineses dizem: explora-se uma transição longa ao socialismo. Procuremos compreender, aprendamos, sejamos respeitosos.

Que não haja aqui mal-entendido: a China está longe, muito longe, do ideal comunista; há demasiada desigualdade, demasiados defeitos nesta etapa da transição, que é uma etapa inicial do socialismo. Mas o que é certo é que o povo chinês e seus dirigentes estão lançados na batalha da transição socialista. Como isso acabará? Não sei. Mas é impossível negar sua vontade. A história não está acabada.

Além disso, camaradas, imaginem por um momento a França com propriedade colectiva do solo e subsolo; com a maior parte das grandes empresas industriais como sociedades de estado; com todas as infra-estruturas nacionalizadas; com moeda, bancos, finanças controladas pelo Estado; controlando também o comportamento das transnacionais estrangeiras no território nacional; mais a planificação e, no topo do poder, para supervisionar um Estado super-poderoso, quem? Um Partido Comunista! Imaginem o nosso país organizado dessa forma, ou seja, como a China está agora. Então, o que é que se diria? Que é capitalismo? Estão a brincar! Dir-se-ia: é o socialismo. Nossos inimigos capitalistas diriam mesmo: é o comunismo! Digamos antes que é uma forma de socialismo de mercado, com capitalistas, claro, mas capitalistas estritamente controlados pelo poder político de um Partido Comunista.

A China certamente não é comunista, mas ela está em luta com o capitalismo para tentar dominá-lo. É preciso tentar compreender tudo isso, pensar por nós mesmos e, em primeiro lugar, libertar-se da ideologia dominante, da opressão dos media dominantes, que se tornaram entre nós o primeiro obstáculo à liberdade de expressão.

No Vietname é aproximadamente a mesma coisa que na China desde o "Doi Moi", ou seja a renovação do socialismo, um processo de economia de mercado socialista, principiado após os anos muito difíceis do pós-guerra, depois de o exército dos Estados Unidos ter despejado sobre o Vietname três vezes mais bombas do que todos os beligerantes da Segundo Guerra Mundial somados. E muito recentemente, a maneira notável como o Vietname soube enfrentar a pandemia do Covid-19 foi aqui, em França, completamente silenciada, com o pretexto de que não era possível, com o pretexto de que os vietnamitas mentem. Mas é o nosso governo que, submetido à finança e em guerra contra todo um povo, que nos mente!

Destas três experiências socialistas actuais, é Cuba que está mais afastada do capitalismo.
É lógico portanto que seja contra Cuba que o imperialismo mais se encarniça – impondo-lhe o bloqueio. Sem o socialismo, Cuba jamais teria podido manter-se após a queda da União Soviética. Mas sem a resistência de Cuba, hoje não se falaria mais em socialismo na América Latina. Ora, por toda a parte neste continente latino-americano os povos estão de pé e lutam pelo socialismo. Olhem a Bolívia e a recente vitória do seu povo, magnífica! Dir-se-á: há penúria em Cuba. Mas é o bloqueio imperialista que cria a penúria em Cuba, não o socialismo. Havia de tudo em Cuba antes da queda da URSS. Agora, faltam muitas coisas em Cuba, materialmente, mas a ela não lhe falta certamente espírito de solidariedade. Os italianos sabem-no bem, todos os países africanos e quase todos os países do Sul também o sabem, os que recebem desde há muito tempo os cuidados das missões internacionalistas cubanas. Caros camaradas, Cuba é absolutamente fundamental para nós porque os cubanos provam que é possível resistir.

O que nos ensinam estes três países é portanto:

  • primeiro, que é preciso resistir, mesmo se o imperialismo impõe um bloqueio, mesmo se o imperialismo arrasou o vosso país;
  • a seguir, que há uma alternativa, que esta alternativa chama-se socialismo, que cabe aos Partidos Comunistas assumirem suas responsabilidades;
  • e finalmente que o socialismo permanece actual, que ele deve, que pode mesmo ultrapassar o capitalismo, que não é sinónimo de ineficácia e de penúria, mas de partilha, mesmo de opulência (uma certa opulência, como o desejava Marx, como o desejava Lenine).

Aquilo que é preciso compreender é que o capitalismo está a acabar, que o capitalismo agoniza, que ele vai desencadear uma violência extraordinária contra todos os povos antes de desaparecer e que é o socialismo, a solidariedade, que marcham com a história.

Mas além destas lições importantes, o que é que podemos extrair mais concretamente de tudo isto? As experiências socialistas cubana, vietnamita e chinesa são evidentemente inexportáveis, além de serem imensamente aperfeiçoáveis, em todos os domínios, mas elas nos interessam porque fundem três dimensões chave: a dimensão da emancipação social (anti-capitalista), a dimensão da independência nacional (anti-imperialista) e a dimensão do humanismo igualitário (anti-racista). É a articulação destas três dimensões que define sua respectiva transição socialista, que define seu "projecto comunista". E mesmo se estas três revoluções, que estão sempre de pé neste momento, têm cada uma dela condições históricas, sócio-económicas e culturais singulares – o que significa que será preciso encontrar, nós, em França, nossas próprias formas de luta, renovadas, adaptadas para serem mais eficazes frente aos desafios actuais –, a análise das motivações profundas destas três revoluções é, a meu ver, útil para nós. As três são, como disse: 1. anti-racistas; 2. anti-imperialistas; 3. anti-capitalistas. O que é que isso significa para nós?

1. O anti-racismo, naturalmente, porque combater o racismo da extrema-direita e do sistema tornou-se uma prioridade absoluta. Mas não ao modo da direita, que ergue comunitarismo hostis entre si; nem como o faz a "nova direita" social-liberal do PS, anti-racista em palavras, mas cuja acções visam neutralizar as lutas populares, sobretudo na cidades, nos bairros. Não, nosso combate contra o racismo não é societal, ele é político, é socio-económico. E passa-se o mesmo com outros combates fundamentais e conexos, o combate pela democracia, pela igualdade homens-mulheres, pela protecção ambiental, que também devem ser colocados no cerne das nossas lutas comuns pelo socialismo. A este respeito, o Islão político, como todos os outros fascismos, não quer de modo algum romper com o capitalismo; pelo contrário, é um aliado e cúmplice do imperialismo. Por isso, também aqui, a escolha do socialismo será para nós o baluarte mais seguro contra todos os fascismos, inclusive o fascismo do islamismo político.

2. O anti-imperialismo, o que quer dizer não só pôr fim à lógica das guerras da NATO sob a hegemonia dos EUA, mas também libertar-se do jugo europeu. Desejo de todo o coração boa sorte a Fabien Roussel no PCF se ele quiser falar de socialismo permanecendo na zona euro. A União Europeia foi construída precisamente para impedir o socialismo, este era mesmo o seu objectivo primordial. Boa sorte também para Laurent Brun na CGT se ele quiser permanecer na Confederação Europeia de Sindicatos, que é euro-liberal, social-liberal, inteiramente submissa ao capital. Realmente muito boa sorte para ambos se quiserem reformar o irreformável. Enquanto se espera por Godot – esta Europa social que nunca irá acontecer, pela razão de que o quadro europeu tal como existe o proíbe – é a direita e a extrema-direita que ocupam o terreno da contestação que nós decidimos desertar. Pois recordo-vos que o conceito de soberania nacional nasceu nas nossas fileiras (em Valmy). Na verdade, a censura do debate sobre o euro não é apenas antidemocrática, ela é simplesmente suicida. Não reconstruiremos uma perspectiva socialista, ou mesmo moderadamente socialista, sem radicalmente por o euro em causa.

3. O anti-capitalismo. Isso significa a necessidade de romper com o sistema de dominação do capital em última análise, ultrapassada, tornada quase unicamente destrutiva, assassina, mesmo criminosa. A alternativa anti-capitalista é a transição socialista. É a única alternativa razoável. O que quer dizer isto, para nós? Isso quer dizer, mais concretamente:

  • serviços públicos fortes, concebidos como condições de cidadania;
  • a planificação, pela aplicação de uma estratégia de desenvolvimento, socialista;
  • o controle da moeda, da banca e dos sectores estratégicos da economia, o que implica portanto nacionalizações, a repensar totalmente em relação às experiências passadas;
  • uma propriedade dos recursos naturais colectiva e a urgência de uma protecção da natureza;
  • formas de propriedade certamente diversas, mas orientadas para a socialização das forças produtivas;
  • uma elevação muito forte dos rendimentos do trabalho, muito mais rápida, com um objectivo de justiça social, uma óptica igualitária;
  • relações exteriores garantindo a troca ganhador-ganhador e fundamentadas sobre a paz;
  • e, naturalmente, uma forma de democracia política ampliada, não fictícia como hoje, mas autêntica, amplamente participativa, tornando possíveis e concretizando as escolhas colectivas estratégicas.

Portanto, juntos, vamos deslegitimar o capitalismo, que promete abundância, mas generaliza a penúria (vê-se o que isso provoca em plena pandemia!). Vamos descredibilizar este sistema capitalista que nos vende felicidade na publicidade, mas que nos empurra para a pior crise desde 1945; que sacraliza a liberdade individual, mas desmantela os nossos direitos, destrói os nossos serviços públicos, empobrece cada vez mais os seres humanos. Desmascaremos este sistema arcaico que fala de democracia mas impõe a ditadura da finança. Camaradas, não se adapta a uma ditadura, combate-se contra ela. A ordem que nos impõe o capital financeiro é, hoje em dia, uma ditadura. Nosso dever imediato de toda e de todos é unirmo-nos para lhe pôr fim.

 

Eleição presidencial dos EUA : abri os olhos!

 Por: Thierry Meyssan


O resultado da eleição presidencial norte-americana marca o triunfo, não dos Democratas e de um Senador senil, mas da corrente puritana face aos Jacksonianos. Ele não reflecte em nada as opiniões políticas dos cidadãos norte-americanos e esconde a crise civilizacional em que o país mergulha.

Aeleição presidencial dos EUA de 2020 confirma a tendência geral desde a dissolução da União Soviética : a população norte-americana atravessa uma crise civilizacional e dirige-se inexoravelmente para uma nova guerra civil, a qual deverá desembocar logicamente numa partição do país. Esta instabilidade deverá saldar-se pelo fim do Ocidente enquanto hiper-potência.

Para compreender o que se passa, convêm passar por cima do pavor das elites europeias em relação ao desaparecimento próximo da potência que os protege desde há três quartos de século ; e analisar com seriedade a história mundial dos trinta últimos anos. É preciso voltar a mergulhar na história dos EUA e reler a sua Constituição.

A hipótese de dissolução da OTAN e dos Estados Unidos da América

Quando, após três quartos de século de uma ditadura sem discussão, a União Soviética se afundou, todos os que desejavam o seu desaparecimento foram apanhados de surpresa. Durante anos, a CIA organizara a sabotagem sistemática da sua economia e denegrira todas as suas realizações, mas jamais havia previsto que seriam os povos soviéticos quem derrubaria esse regime em nome dos seus ideais.

Tudo começou com uma catástrofe ao qual o Estado não soube responder (Chernobyl, 1986). Uma população de um quarto de milhão de pessoas teve que abandonar definitivamente a sua terra. Essa incompetência marcou o fim da legitimidade da ditadura. Nos cinco anos que se seguiram, os aliados do Pacto de Varsóvia recuperaram a sua independência e a URSS dissolveu-se. Este processo foi, de uma ponta à outra, levado a cabo pelas Juventudes Comunistas, mas foi à última hora capturado pelo Presidente da Câmara (Prefeito-br) de Moscovo, Boris Ielstin, e a sua equipa formada em Washington. A pilhagem de bens públicos que se seguiu e o colapso económico que ele provocou fizeram a nova Rússia regredir um século.

Esta é a maneira como os Estados Unidos, por sua vez, deverão desaparecer. Vão perder a sua força centrípeta e ser abandonados pelos seus vassalos, antes de se afundarem. Aqueles que tiverem deixado o barco antes de ele se afundar terão mais hipóteses de se safar bem. A OTAN deverá morrer antes dos EUA tal como o Pacto de Varsóvia morreu antes da URSS.

A força centrífuga dos Estados Unidos

Os Estados Unidos são um país muito jovem, têm apenas duzentos anos de história própria. A sua população não para de se formar, com sucessivas levas de imigrantes vindos das mais diversas regiões do mundo. Segundo o modelo britânico, cada um conserva a sua própria cultura e não se mistura com os outros. O conceito de «caldeirão» (melting pot) só existiu com o retorno dos soldados negros da Segunda Guerra Mundial e a abolição da segregação racial que suscitou, sob Eisenhower e Kennedy, para depois desaparecer.

A população norte-americana desloca-se muito de um Estado para outro. Desde a Primeira Guerra Mundial até ao fim da do Vietname (Vietnã-br), ela tentava coabitar em certos bairros. Durante uma vintena de anos, ela fixou-se. E a partir do desmembramento da URSS até aos dias de hoje, ela guetiza-se novamente, não mais segundo clivagens «raciais», mas culturais. Na prática, o país está já dividido.

O conflito interno da cultura anglo-saxónica

A mitologia norte-americana liga a existência do país à dos 67 «Pais Peregrinos», os imigrantes do Mayflower. Tratou-se de um grupo de cristãos ingleses fanáticos que viviam em «comunidade» nos Países Baixos. Eles obtiveram da Coroa a missão de se instalar no «Novo Mundo» a fim de aí combater o Império Espanhol. Um dos seus grupos desembarcou em Massachusetts e lá edificou uma sociedade sectária, a colónia de Plymouth (1620). Eles velavam as suas mulheres e puniam com severos castigos corporais os que haviam cometido pecado e se haviam desviado da «Via da Pureza», daí o seu nome de «Puritanos».

Os Norte-Americanos ignoram, ao mesmo tempo, tanto a missão política dos Pais Peregrinos como o seu sectarismo. No entanto, eles celebram-nos durante a festa de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças-ndT). Esses 67 fanáticos têm tido uma enorme influência sobre um país que hoje tem 328 milhões de habitantes. De 46 presidentes 8 são seus descendentes directos, entre os quais o Presidente Franklin Roosevelt ou os Presidentes Bush.

Os Puritanos fizeram uma revolução em Inglaterra com Lord Oliver Cromwell. Eles decapitaram o Rei, fundaram uma República intolerante, a Commonwealth, e massacraram os Irlandeses «heréticos» (papistas). Estes acontecimentos são designados pelos historiadores britânicos como sendo a «Primeira Guerra Civil» (1642-51).

Mais de um século depois, os colonos do Novo Mundo revoltaram-se face ao peso sufocante dos impostos da monarquia britânica (1775-83). Esses eventos são designados pelos historiadores norte-americanos como a «Guerra da Independência», mas os historiadores britânicos vêem aí, pelo contrário, a «Segunda Guerra Civil». Com efeito, se os colonos que combateram nessa guerra eram pobres que trabalhavam no duro, aqueles que os organizaram eram descendentes dos Pais Peregrinos que desejavam afirmar o seu ideal sectário face à restaurada monarquia britânica.

Oitenta anos mais tarde, os Estados Unidos dilaceraram-se com a Guerra da Secessão (1861-65), que certos historiadores norte-americanos designam como a «Terceira Guerra Civil» anglo-saxónica. Ela opôs os Estados que, fiéis à Constituição original, entendiam manter os direitos aduaneiros entre si, contra outros Estados que queriam, pelo contrário, fazer passar os direitos alfandegários para a esfera federal e criar assim um grande mercado interno. No entanto, ela opôs também as elites puritanas do Norte às elites católicas do Sul, de tal modo que podíamos aqui encontrar as clivagens das duas guerras precedentes.

A «Quarta Guerra Civil» anglo-saxónica, que se esboça hoje em dia, continua a ser urdida pelas elites puritanas. O que disfarça essa continuidade é a transformação dessas elites que agora já não acreditam em Deus, mas conservam o mesmo fanatismo. São elas que se consagram hoje em dia à reescrita da história do país. Segundo elas, os EUA são um projecto racista de Europeus que os «Pais Peregrinos» não foram capazes de corrigir. Elas estão persuadidas que é preciso restabelecer a «Via da Pureza» destruindo, para isso, todos os símbolos do Mal, tal como as estátuas de Monarcas, de Ingleses e de Confederados. Elas pronunciam-se com o «politicamente correcto», asseguram que existem várias «raças» humanas, escrevem «Negro» com maiúscula e «branco» em minúsculas, e precipitam-se para os suplementos obscuros do New York Times.

A história recente dos Estados Unidos

Cada país tem seus demónios. O Presidente Richard Nixon estava convencido que o primeiro perigo do qual os Estados Unidos se deviam prevenir não era uma guerra nuclear com a URSS, mas esta possível «Quarta Guerra Civil» anglo-saxónica. Ele chamou a si o especialista na matéria, o historiador Kevin Phillips, que foi seu conselheiro eleitoral e lhe permitiu aceder duas vezes à presidência dos EUA. No entanto, os herdeiros dos Pais Peregrinos não aceitaram a sua luta e fizeram-no afundar no escândalo do Watergate (1972), urdido pelo adjunto e sucessor de J. Edgar Hoover no dia seguinte à sua reeleição.

Quando o poderio dos EUA começou a vacilar, o lóbi imperialista, dominado pelos Puritanos, colocou no Poder um dos descendentes directos dos 67 Pais Peregrinos, o republicano George Bush Filho. Ele encenou um choque emocional (os atentados do 11 de Setembro de 2001) e adaptou os exércitos ao novo capitalismo financeiro, perante o olhar paralisado dos seus concidadãos. O seu sucessor, o democrata Barack Obama, prosseguiu a sua obra adaptando a economia. Para isso, ele escolheu o essencial da equipa do seu primeiro mandato entre os membros da Pilgrim’s Society (a Associação dos Peregrinos).

Em 2016, um acontecimento disruptivo sobrevêm. Um apresentador de televisão que contestara a transformação do capitalismo e os atentados do 11-de-Setembro, Donald Trump, concorre à presidência. Ele conquistou primeiro o Partido Republicano, depois a Casa Branca. Todos aqueles que haviam feito cair Richard Nixon tomaram-no logo como alvo antes mesmo de ele assumir o cargo. Conseguiram evitar a sua reeleição falsificando desajeitadamente as urnas. O que importa é que, durante o seu mandato, séculos de coisas abafadas vieram à tona. A população dos EUA dividiu-se de novo à volta dos Puritanos.

É por isso que, se é evidente que a maioria de Norte-Americanos não votou com entusiasmo por um Senador senil, me parece errado dizer que esta eleição de 2020 era um referendo a favor ou contra Trump. Na realidade, tratou-se de um referendo a favor ou contra os Puritanos.

Um resultado conforme ao projecto dos Pais Peregrinos

Assim que a Guerra da Independência ou Segunda Guerra Civil Anglo-Saxónica terminou, os sucessores dos Pais Peregrinos redigiram a Constituição. Eles não fizeram segredo, nem da sua vontade de criar um sistema aristocrático baseado no modelo inglês, nem do seu desprezo pelo povo. É por isso que a Constituição dos Estados Unidos não reconhece a soberania popular, mas, sim a dos governadores.

O povo, que lutara e ganhou a guerra, aceitou esse estado de coisas, mas impôs dez Emendas, a Declaração de Direitos (Bill of Rights), segundo os quais a classe dirigente não poderá, em caso algum, violar os direitos dos cidadãos em nome de uma pretensa «Razão de Estado». A Constituição assim emendada continua a vigorar.

Se se quiser considerar que, constitucionalmente, os Estados Unidos não são e jamais foram uma Democracia, não há razão alguma para se ficar indignado com o resultado das eleições. Muito embora não esteja previsto na Constituição, o escrutínio popular para a eleição presidencial impôs-se progressivamente ao longo de dois séculos em todos os Estados federados. Os Governadores deviam assim seguir as suas indicações ao designar os seus 538 delegados ao Colégio Eleitoral presidencial. Ora, certos Governadores atulharam, pois, as urnas de falsificações de forma desajeitada: em mais de um em cada dez condados, o número de votantes é superior ao de residentes adultos. Sem desconsideração pelos comentadores, é, pois, perfeitamente impossível dizer quantos eleitores realmente votaram e quem é que eles terão escolhido para presidente.

Um futuro sombrio

Nestas condições, o presidente eleito, Joe Biden, não poderá superar a fúria justificada dos partidários do rival. Ele não será capaz de unir o seu povo. Há quatro anos, eu escrevera que Trump seria o Gorbachev dos Estados Unidos, mas estava errado, ele soube dar um novo fôlego ao seu país. Em última análise, será em Joe Biden que recairá a culpa de não conseguir manter a unidade territorial do seu país.

Os Aliados que não conseguem ver a catástrofe que se anuncia, pagarão por isso um alto preço.

Primeiro vem uma guerra civil


Por: Pepe Escobar

A enorme operação psicológica está em andamento. Todos os familiarizados com o Projecto Integridade de Transição ( Transition Integrity Project , TIP) sabiam como isso terminaria imperativamente. Optei por enquadrá-la como um exercício de jogo de reflexão no meu artigo Banana Follies . Este é um exercício ao vivo. Mas ninguém sabe exactamente como vai terminar.

A inteligência dos EUA está bem consciente de casos bem documentados de fraude eleitoral. Entre eles: software da NSA que se infiltra em qualquer rede, conforme detalhado anteriormente por Edward Snowden, e capaz de alterar a contagem de votos; o supercomputador Hammer e seu aplicativo Scorecard , que hackeia computadores nos pontos de transferência dos sistemas de computação das eleições estaduais e fora dos cofres de dados eleitorais de terceiros; o sistema de software Dominion , conhecido desde 2000 por ter sérios problemas de segurança, mas ainda usado em 30 estados, incluindo todos os estados decisivos (swing states); aqueles agora famosos saltos verticais para Biden tanto no Michigan como em Wisconsin às 4h da manhã do dia 4 de novembro (a Agência France Presse não convincentemente tentou desmascarar Wisconsin e nem mesmo fez a tentativa com Michigan); vários exemplos de Homens Mortos que Votam.

O actor chave é o Deep State, o qual decide o que acontece a seguir. Eles pesaram os prós e os contras de colocar como candidato um homem senil, demência em estágio 2, belicista neoconservador e possível extorsionista (juntamente com o filho) como "líder do mundo livre", fazendo campanha a partir de um porão, incapaz de encher um parque de estacionamento nos seus comícios e secundado por alguém com tão pouco apoio nas primárias do Partido Democrata que foi a primeira a desistir.

A óptica, especialmente vista das vastas faixas do Sul Global com interferência imperial, pode ser um tanto terrível. Eleições duvidosas são uma prerrogativa da Bolívia e da Bielorússia. Mas só o Império é capaz de legitimar uma eleição duvidosa – especialmente no seu próprio quintal.

Bem-vindo à Nova Resistência

O Partido Republicano está numa posição muito confortável. Eles ocupam o Senado e podem acabar por conseguir até 12 cadeiras na Câmara. Eles também sabem que qualquer tentativa de Biden-Harris de legislar através de Ordens Executivas terá... consequências.

Do ângulo da Fox News / New York Post a situação é particularmente atraente. Por que de repente eles estão a apoiar Biden? Muito além das familiares querelas internas, dignas da saga da Succession , Rupert Murdoch deixou bem claro, por meio do infernal laptop da fraude , que tem todos os tipos de kompromat sobre a família Biden. Assim, eles farão o que ele quiser. Murdoch não precisa mais de Trump.

Nem, em teoria, o Partido Republicano. Gente próxima da CIA garante que sérias travessuras de bastidores estão a acontecer entre chefões do Partido Republicano e a gang Biden-Harris. Compromissos que contornam Trump – o qual é odiado pela maioria do Partido Republicano. O homem mais importante em Washington será na verdade o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell.

Ainda assim, para esclarecer quaisquer dúvidas remanescentes, uma recontagem de votos seria absolutamente necessária em todos os seis estados contestados – WI, MI, PA, GA, NV e AZ. Através da contagem manual. Um por um. O Departamento da Justiça precisaria actuar imediatamente. Mas isso não vai acontecer. As recontagens custam muito dinheiro. Não há nenhuma evidência de que a equipe Trump – além disso, com falta de fundos e de mão-de-obra – será capaz de convencer o activo de Daddy Bush, William Barr, a avançar.

Enquanto implacavelmente demonizava Trump por espalhar "uma torrente de desinformação" e "tentar minar a legitimidade da eleição nos EUA", os media de referência e a Big Tech declaravam um vencedor – um caso clássico de pré-programar as multidões de ovelhas.

No entanto, o que realmente importa é a letra da lei. Os legislativos estaduais decidem quais eleitores vão ao Colégio Eleitoral para nomear o Presidente.

Aqui está – Artigo II, Secção 1, Cláusula 2: Cada estado deverá nomear eleitores "de tal maneira como o Legislativo puder determinar".

Então isto nada tem a ver com governadores, nem tão pouco os media. Cabe às legislaturas estaduais do Partido Republicano agir em conformidade. O drama pode perdurar semanas. O primeiro passo do procedimento do Colégio Eleitoral acontece no dia 14 de Dezembro. A determinação final só acontecerá no início de Janeiro.

Enquanto isso, a conversa sobre uma Nova Resistência está a espalhar-se como um incêndio na pradaria.

O trumpismo, com mais de 71 milhões de votos, está firmemente estabelecido como um movimento de massas. Ninguém no Partido Republicano comanda esta espécie de apelo popular. Ao deixar de lado o trumpismo, o Partido Republicano pode estar a cometer seppuku (suicídio).

Então, o que farão os deploráveis?

O sempre indispensável Alastair Crooke acerta em cheio com um poderoso ensaio : Trump é o presidente da América Vermelha. E dependendo de como se desenvolve a seguir o roteiro da tragicomédia eleitoral, os Deploráveis estão prestes a tornarem-se Os Ingovernáveis.

Crooke faz referência a um paralelo crucial evocado pelo historiador Mike Vlahos, o qual mostra como a actual saga americana espelha a Roma Antiga no último século da República, colocando a elite romana contra os Populares – que hoje são representados pela América (Trumpista) Vermelha:

"Este era um novo mundo, no qual os grandes proprietários de terras, com seus latifúndios [a fonte de riqueza era a terra trabalhada por escravos], que haviam sido os 'Grandes Homens' liderando as várias facções nas guerras civis, tornaram-se os arcontes (magistrados) senatoriais que dominaram a vida romana durante cinco séculos – enquanto o Povo, os Populares, foram transformados num elemento passivo – não inerme – mas geralmente dependente e não participante do governo romano: Isto minou a vida criativa de Roma e, finalmente, levou ao seu desmoronamento".

Por mais que a máquina Democrata o quisesse, Trump ainda não é o Imperador César Augusto, a quem os gregos chamavam Autokrator (autocrata), mas era um monarca de facto. O Augusto americano, Tibério e sobretudo Calígula ainda estão mais distantes. Ele definitivamente será um imperialista benigno e humanitário.

Nesse meio tempo, o que fará o Grande Capital imperial?

O Ocidente, e especialmente a Roma americana, está à beira de um precipício duplo: a pior depressão económica de todos os tempos, juntamente com explosões iminentes de fúria social, em grande número e incontroláveis.

De modo que o Estado Profundo está a considerar que com Biden – ou, mais cedo ou mais tarde, a Shakti Suprema e Comandante-em-Chefe Maa Durga Kamala – o caminho fica mais suave rumo ao Grande Reinício de Davos. Afinal de contas, para reiniciar as peças de xadrez, primeiro o tabuleiro deve ser deitado abaixo. Isto será um passo além do Dark Winter ?– que não acidentalmente foi evocado pela leitura do teleprompter do próprio Biden no debate presidencial final. O roteiro fica muito mais próximo do Lock Step de 2010 da Fundação Rockefelller.

Entretanto, o Plano B é mantido em modo pronto, estável, em marcha: os contornos de um tumulto global, centrado na esfera de influência "maligna" da Rússia a fim de satisfazer uma NATO "ressuscitada" e o complexo militar-industrial, o qual agora seleccionou os media para nomear o Presidente eleito pois ele não é senão uma figura de papelão flexível.


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