segunda-feira, 30 de novembro de 2020

As subvenções do Estado ao grande capital que despede trabalhadores

– O escândalo do Capitalismo Monopolista de Estado na hora da "construção europeia"

                                                                   

Por: Georges Gastaud

 

Disse "liberalismo"?

Durante décadas, disseram-nos, do secundário à universidade, em quase todos os meios de comunicação, e em todos os tons, que vivemos numa sociedade "liberal" e que o "neoliberalismo" é nosso destino. Os que são politicamente um pouco mais críticos, mas que ainda assim se envolvem na ilusão ideológica, falarão, para condená-lo, de "ultraliberalismo" ou "turbo-capitalismo". Na verdade, o Tratado de Maastricht, difundido por todos os tratados europeus que o sucederam, define a União Europeia como uma "economia de mercado aberta ao mundo, onde a concorrência é livre e não falseada". Em nome deste artigo irremovível que constitui o coração da "construção europeia" e de construções político-económicas semelhantes noutros continentes (NAFTA, MERCOSUL, ASEAN ...), os Estados nacionais e seus dirigentes políticos abstêm-se de nacionalizar os grandes bancos e outras empresas de caráter estratégico para os seus países. Ao mesmo tempo, é proibido planear cientifica e democraticamente o desenvolvimento económico, a implantação do progresso social, a distribuição de "ganhos de produtividade", impedir devastadoras deslocalizações de industrias e serviços e, claro, banir os despedimentos coletivos em nome da "Lei do mercado".

Pior, na França desde pelo menos 1992 (quando o Tratado de Maastricht obteve 50,8% num referendo em que Chirac e Mitterrand pediram um voto Sim), sucessivos governos franceses privatizarem os chamados "monopólios públicos" (como EDF, Gaz de France, SNCF, France-Télécom, La Poste, Air France, Aeroespacial, autoestradas, etc.) ... para criar monopólios ou oligopólios capitalistas privados como SANOFI, Bolloré ou ENGIE, aliás Suez. E isso era ainda mais verdadeiro na época do governo Jospin, dito ser "da esquerda plural", flanqueado por ministros "comunistas" (Gayssot, Buffet, Demessine) e "verdes" (Voynet), que, entre 1997 e 2002, privatizaram ainda mais rápido do que os governos de direita anteriores o setor público francês, desde bancos de poupança à France-Télécom via Air-France e SNECMA. Além disto, foi o "socialista" Rocard, um grande "europeu" que deu início à privatização da Renault, aproveitando de passagem para decapitar a CGT da empresa e fechar a Renault-Billancourt, epicentro da greve de 1968…

Liberalismo para quem?

De facto, é verdade num certo sentido que esta política, totalitariamente imposta em toda a UE pela Comissão de Bruxelas com multas e "sanções", é "liberal"; mas para QUEM o é realmente, senão para os grandes grupos capitalistas de dimensão continental ou mundial que podem assim em completa "liberdade" demolir as conquistas sociais dos trabalhadores, praticar os mínimos em termos ambientais e sociais à escala transcontinental, multiplicar suculentas fusões capitalistas e, especialmente agora, assassinos de empregos continentais e transcontinentais (Renault-Nissan, PSA-Chrysler-FIAT, Alstom / Siemens ou Alstom-GE, etc.): em suma, atropelar "livremente" o mundo do trabalho e o verdadeiro interesse nacional, duas noções que se tornam uma só quando a expressão "interesse nacional" não é mal utilizada no sentido imperialista.

A UE não apenas permite aos monopolistas sobre-explorarem e desqualificarem milhões de trabalhadores considerados "muito caros" (deslocalização real ou chantagem para deslocalizar, são exatamente a mesma coisa), mas ainda ajuda a esmagar, de uma forma muito "liberal", as pequenas empresas: porque em cada momento paira sobre as cabeças dos artesãos, dos pequenos industriais, dos pequenos agricultores, e ainda mais, sobre a dos assalariados privados de direitos de muitas PME (sem falar nesse patronato fictício que são os trabalhadores uberizados e outros "empresários por conta própria"), uma "concorrência" de extensão planetária cuja escala e regras deliberadamente minuciosas favorecem as únicas empresas realmente capazes de se envolver numa competição "não falseada": os monopólios capitalistas vinculados aos bancos.

As pequenas e médias empresas são, portanto, solicitadas, com total "liberdade empresarial", a esmagar os seus preços e, com elas, os salários dos seus trabalhadores, a rastejar para chegar aos mercados, para competir com os gigantes internacionais pelo menor preço, para serem subcontratadas por tirânicos "dadores de encomendas", em particular da grande distribuição. Ou, mais simplesmente, como acontece com centenas de milhares de "patrões" de MPME ou "empresários por conta própria"... a "desaparecerem" pura e simplesmente (com centenas de suicídios cada ano no mundo camponês).

Não falemos do papel devolvido por este sistema "libertador" nos antigos países socialistas do Leste: a sua indústria socialista e os seus incomparáveis ganhos sociais foram liquidados por uma terrível "terapia de choque", anterior à sua anexação pela UE (e, no seguimento, pela NATO!). Nem do futuro dos países do Sul, quase proibidos de desenvolvimento industrial e agrícola, excepto do tipo neocolonial (fixado pelas necessidades das grandes empresas dos países ricos): é claro que uma jovem indústria nacional partindo do zero, ou tendo inicialmente pouco financiamento, tecnologia e poucos escoamentos próprios, não poderá competir seriamente, sem direitos aduaneiros nacionais, os mastodontes capitalistas dos países dominantes já instalados no mercado que se apropriam das matérias-primas, sementes agrícolas, etc.

Não foi por acaso que em França, para criar indústria, Colbert teve que montar uma indústria estatal, e regulamentar firmemente as importações: todos sabem que a França, nunca teria tido uma indústria sem a intervenção planificadora do Estado e que, como contraprova da mesma hipótese, a indústria francesa entrou literalmente em colapso, pois ao Estado, escravo voluntário da "construção europeia", lhe é vedado nacionalizar, proteger e planificar...

"Liberalismo" assimétrico internacional e blindado de cripto-proteccionismo

Notemos também que, mesmo neste nível continental e transcontinental, o pretenso "livre comércio mundial" é uma ficção: na realidade, os Estados capitalistas mais poderosos, e centralmente no que diz respeito à França, os EUA e a Alemanha capitalista unificada (verdadeira senhora da UE) dotaram-se de milhares de ferramentas cripto-proteccionistas ou abertamente proteccionistas: direitos aduaneiros anti-chineses de Trump, "sanções económicas" supostamente destinadas a defender os direitos dos homem com geometria variável que atinge os rivais actuais ou potenciais da grande capital norte-americano, em particular a China, vários embargos estrangulando a Rússia, China, Irão, Venezuela, Bielorrússia e, claro, a indomável "besta vermelha" cubana!

Poderemos também mencionar as inúmeras normas "sanitárias" (e cada vez mais "ambientais") impostas pelos EUA para fechar seu território às exportações dos países dominados. Trata-se, a todo custo, de filtrar a entrada de competidores reais ou potenciais no seu mercado interno e permitir assimetricamente ao grande capital dos países líderes invadir os mercados do Leste e do Sul sem que a recíproca seja possível.

O euro, uma moeda cripto-protetora; o acordo monetário inter-imperialista alemão-EUA e a crise actual deste acordo 
[1]

A principal destas ferramentas desleais que permitem a "concorrência livre" (para os Estados ricos) e sistematicamente falseada é o binário monetário conflitante, mas cúmplice (como duas máfias que podem ao mesmo tempo aliar-se para pilhar uma cidade enquanto periodicamente se combatem) que formam...

– por um lado, o dólar: uma estranha moeda mundial não convertível em ouro e garantida na realidade pelo poder das Forças Armadas dos Estados Unidos: (80% das armas do mundo são dos EUA! Quem irá assim exigir aos EUA que pague as suas enormes dívidas?); o que vale bem uma guerra por ano em média para sustentar o medo, não do polícia, mas do ladrão. Tanto mais que os projectos de moeda internacional para contornar o dólar estão em execução há anos (acordo entre a Rússia e a China para trocas sem passar pelo dólar, projecto da Líbia para uma moeda africana autónoma - o que sem dúvida provocou em grande parte o derrube e o linchamento "humanitário" de Khadaffi...) e

– por outro lado, a zona euro, coração da "construção europeia" centrada em Berlim, garantida pelo marco alemão. A moeda única europeia garantiu à Alemanha uma espécie de mercado europeu permanentemente cativo, embora deixando – por quanto tempo mais? – o dólar mais fraco dominar globalmente.

Assim, os respectivos "rebanhos" do Tio Sam e do amigo Fritz foram inicialmente bem guardados. Pois, desta forma, os imperialistas hegemónicos EUA e RFA podem "dividir" global e continentalmente áreas de influência e mercados. Desta forma, Berlim "tosquia" interminavelmente a Europa Oriental (um paraíso para as deslocalizações capitalistas, uma reserva de mão-de-obra bem treinada e barata para o Ocidente) e o Sul da Europa, transformado numa válvula de escape, amplamente passivo e impotente para penetrar seriamente no mercado industrial do norte da Europa (os chamados "estados frugais" ligados à Alemanha capitalista).

Além disto, devido ao diferencial de moeda entre o euro forte e o dólar fraco, a Europa alemã prometeu inicialmente não invadir o mercado dos EUA. Claro, que este compromisso cripto-protecionista entre os dois tubarões imperialistas que estão em pé de igualdade Berlim e Washington (o PRCF é o único até agora a ter referenciado e denunciado este compromisso cripto-protecionista) é necessariamente frágil, o que explica as tensões entre Trump e Merkel: com um golpe de euro forte, a Alemanha capitalista matou ou submeteu as indústrias mais fracas dos países do Sul, incluindo a França, e transformou em neocolónias de mão-de-obra barata os ex-países socialistas do Leste, Polónia, Estados Bálticos, ex-Checoslováquia, ex-Jugoslávia.

Os países do sul da Europa não podiam, de facto, contra-atacar por meio de "desvalorizações competitivas", como faziam quando não havia moeda europeia fixada no marco. Mas este sistema está necessariamente fadado ao desequilíbrio e à sua autonegação dialéctica. Tendo acabado por arruinar os países do sul da Europa, os chamados "PIGS" (Portugal, Itália, Grécia, Espanha), a Alemanha mudou o rumo; o euro foi sistematicamente enfraquecido pelo BCE com a sua política de "fábrica de notas". De repente, a Mercedes invadiu... o mercado dos Estados Unidos, cuja reação anti-alemã e anti-UE, mas também anti-chinesa, se chama Donald Trump.

Claro, que aqueles dois megapredadores que se autodenominam "comunidade internacional" continuam como ladrões a entender-se às mil maravilhas para atacar os países do Sul, proteger o capitalismo mundial, evitar o retorno sempre possível de comunistas e revolucionários e até prepararem juntos uma boa guerra contra a China e/ou contra a Rússia.

Mas, o idílio EUA/Europa alemã sob domínio absoluto do primeiro – que perdurava desde o período entre guerras e ainda mais, desde 1945 e o financiamento americano da fortaleza Alemanha (contra a URSS, mas também contra a França, vejam-se os livros de 
Annie Lacroix-Riz ) está doravante terminado. Não concluamos que eles vão desentender-se e atacar-se, pelo menos imediatamente, eles têm muitos interesses em comum para isso e podem, mais uma vez, reconciliar-se para atacar a Rússia ou a China... enquanto continuam juntos a avançar se puderem na Ucrânia, Bielorrússia, Cáucaso, etc.

"Ajuda ao emprego = ajuda publica para despedimentos em massa: aberração ou efeito sistémico?

Devemos ver também e sobretudo o aspecto oculto desta política económica que revela cruamente a multiplicação de despedimentos nas empresas capitalistas a abarrotar de dinheiro por Macron e Cia. (e antes dele pela CICE 
[2] sarkozysta e pelo Pacto de Responsabilidade holandês), e isso sem qualquer contrapartida séria do lado patronal. Esta política de subsidiar massivamente o lucro privado com dinheiro público leva a uma contradição potencialmente revolucionária quando o dinheiro do contribuinte, distribuído às cegas para o emprego, é usado para... deslocalizar massivamente e eliminar os empregos industriais restantes. Devemos também falar sobre a maneira como em 2008 os Estados burgueses, e a França sarkozysta deram o exemplo, salvando os bancos privados da falência, endividando-se colossalmente... junto dos mesmos banqueiros, e fazendo em seguida os povos pagarem ("euro-austeridade") em nome do "reembolso da dívida".

A Air France-KLM, Renault, PSA, Auchan e agora Bridgestone-Béthune, todos eles obtiveram enormes verbas retiradas dos nossos impostos para, de facto, realizar planos de despedimentos em massa que já estavam em preparação nos conselhos de accionistas muito antes que alguém tivesse ouvido a palavra "Covid-19"…

O escândalo é enorme e a raiva cresce por todos os lados porque quem neste momento apenas vê o poder de Macron, mesmo olhado pela "esquerda" pelo vigarista político Xavier Bertrand, não sabe como justificar o enorme desperdício de dinheiro público que constituem estas "ajudas" ao grande patronato sem controle público ou "contrapartidas" em termos de emprego, meio ambiente e condições de trabalho. Todos vêem, pelo contrário, que se trata, do ponto de vista ético, de um grande desvio e que os cofres dos capitalistas parecem cada vez mais um novo "barril de Danaïdes" cuja particularidade seria de estar privado de fundo, à excepção de privatizar os fundos públicos!

Vemos, portanto, os mesmos economistas burgueses que protestam contra a "tributação confiscatória" (isto é, sobre os ricos, 
Le Point não tem nada contra o IVA pago pelos trabalhadores, mas muito contra o que é pago pelos capitalistas...) considerando funcionários públicos (bombeiros, funcionários de hospitais, professores, pesquisadores do CNRS, etc.) parasitas sugando o sangue da burguesia. Aceitam como é evidente que Estados e governos "liberais" paguem dezenas de milhares de milhões (e será ainda pior com o "empréstimo europeu") aos accionistas das empresas privadas que costumam "justificar" as suas enormes receitas pelos supostos "riscos" que correm. Mas quem tem mais "risco" de dormir debaixo de pontes, o accionista da Bridgestone ou o trabalhador químico?

Por trás do "neoliberalismo", as novas formas de capitalismo monopolista de Estado à escala (trans)continental

Simplesmente eis o "escândalo" que fingem denunciar Xavier Bertrand, dirigentes do PS, etc, que fizeram e que fariam como Macron se chegassem ao poder, e que não se deve à "ingenuidade" de Macron que teria, enfim, sido enganado pelos capitalistas ... dos quais ele próprio é uma emanação, como antes dele, Pompidou foi uma espécie de procurador de Rothschild antes de se tornar ministro e depois presidente).

Em suma, não se trata de um "erro" ou então seria diabólico, já que o PCF, então marxista, o denunciava nos anos 1970 ao publicar o livro Le Capitalisme Monopoliste d'État, demonstrando, na continuação dos estudos avançados por Marx, depois por Lenin, que na nossa época, o capitalismo competitivo e liberal mais ou menos "puro" do século XIX há muito tinha dado lugar:
a) ao imperialismo, onde dominam os monopólios capitalistas, onde domina o capital financeiro e onde a exportação massiva de capitais sobre-acumulados é a causa permanente de guerras pela partilha do mundo (tese clássica do leninismo);
b) e que, especialmente após a terrível crise de 1929 e da resposta keynesiana, colocou em seu lugar por toda a parte um "mecanismo único Estado burguês/monopólios capitalistas" no seio do qual predomina em última análise o grande capital privado.

Já sob De Gaulle e Pompidou, o Estado se desviou das nacionalizações democráticas levadas a cabo em 1945 pelos comunistas Marcel Paul, Billoux e Thorez, e alocou milhares de milhões de dinheiro público, direta ou indiretamente, ao grande capital privado que então procedia a fusões especialmente à escala nacional (base do gaulismo histórico para a alta burguesia).

Na época, o Capitalismo Monopolista de Estado (CME) era mais apelativo que hoje porque se escondia atrás do patriotismo nacional (como se os capitalistas tivessem uma pátria diferente daquela onde obtêm o máximo lucro!) e porque, a força do PCF e da CGT ajudando, o financiamento dos serviços públicos e o dinheiro destinado aos salários eram em proporção mais elevados que hoje.

Os livros de história e economia explicam-nos como o atual "liberalismo" destruiu o estado Providência: na realidade, serviram-se do fim do campo socialista mundial e do (auto-)enfraquecimento dos partidos e sindicatos comunistas (confundindo "modernidade" com abandono da luta de classes) para liquidar os serviços públicos destinados a todos e vampirizar o dinheiro dos cidadãos como nunca antes, colocando-o ao serviço dos grandes capitalistas em escala cada vez menos nacionais e cada vez mais transnacionais.

Em suma – e até o economista "liberal" mais estúpido é forçado a vê-lo hoje – o "neoliberalismo" atual é antes de mais a liquidação do "Estado Providência" para os assalariados ("providência", mas em resultado de grandes lutas como as da Frente Popular, da Libertação ou de maio de 68) enquanto desenvolvia como nunca o Estado providência para os capitalistas; o que nós, militantes francamente comunistas, sempre chamamos de Capitalismo Monopolista de Estado, em particular essa subvenção sistémica e potencialmente mortal do grande capital que é a corrida aos armamentos fautora de incessantes guerras imperialistas e enormes desperdícios em termos de recursos naturais, dinheiro subtraído a produções úteis e desvio para pesquisas científicas mortíferas.

Dialética da forma e da essência

O CME não "desapareceu", "desloca-se" e continentaliza-se de maneira ainda mais perigosa! Mas as aparências iludem apenas aqueles que são incapazes de distinguir as formas desatualizadas de CME, que na década de 1960 eram principalmente internas aos Estados nacionais e as formas atuais, cada vez mais euro-regionalizadas, continenalizadas e transcontinentalizadas; "Estado" não é sinónimo de "Estado-nação", e do império continental germano-europeu, se possível aninhado numa futura "União Transatlântica" (é o vocabulário do 
MEDEF que fala de "precisar de ar" - no passado já se disse, em alemão, "Lebensraum" ) que mostra a sua vontade de poder. Tanto Dominique Stauss-Kahn, do PS, como Bruno Le Maire, exaltam um e outro aberta e publicamente o "Império Europeu" em construção (tendo por base jurídico-económica presente ou futura, a CETA , o TAFTA , etc, coroado pela OMC e protegido por uma NATO globalizada).

Mas o que seria a "Europa federal" desejada por Macron e flanqueada por um "exército europeu" encostado à NATO e uma "diplomacia europeia", senão um novo estado supranacional expansivo (depois da Ucrânia e se possível da Bielorrússia, o que se passará?). Que abaixamento do QI político médio significa encontrar ainda no nosso tempo "marxistas internacionalistas" que sufocam de raiva contra qualquer ideia de patriotismo francês, como se Robespierre, Jaurès ou Politzer não tivessem escrito nada sobre isso, mas quem, como 
Arlette Laguiller , que tolamente gaba-se de ser "mais europeia do que francesa": como se o supranacionalismo euro-atlântico não fosse ainda mais perigoso que o nacionalismo burguês do avô! Como se a frase devastadora de Mitterrand exclamando "França é nossa pátria, Europa é nosso futuro" (quase um elogio fúnebre da República Francesa!) não parecia estar a mil milhas desta reconfiguração europeia e "transatlântica" do imperialismo que o filósofo ultra-reacionário (pelo menos na política) Nietzsche já clamava no final do século XIX, sob o nome de "grande política" devolvida à elite mundial.

Como Losurdo estabeleceu, este filósofo da hiperpredação feliz opondo-se ao nacionalismo abertamente "plebeu", "cristão", "nacional" e "socializante" de um Bismarck! Lembremos a estes falsos marxistas as palavras de Lenine criticando as reflexões pseudo-internacionalistas europeias de Kautsky ou Trotsky: "em regime capitalista, os Estados Unidos da Europa não podem ser senão utópicos ou reacionários"…

Quem poderia dizer fria, empírica, pragmaticamente, olhando de perto o que a "Europa" trouxe aos trabalhadores em termos de destruição social e degradação massiva, que Lenine estava errado no seu diagnóstico? Em todo caso, os trabalhadores não se enganam: em 1992, quase 60% votaram NÃO na bacia mineira de Lens e, em 2005, quase 80% dos trabalhadores franceses disseram NÃO à constituição europeia. Vamos lá então, senhores burgueses e pequeno-burgueses com a vossa propaganda euro-adocicada, nunca convencerão alguém que é cuspido a exclamar: "eis o orvalho da manhã"!

O Estado não desaparece, redimensiona-se à escala continental

O CME "moderno", não é "menos Estado", mas mais Estado burguês, polícia, exército, deduções fiscais (de preferência através de impostos indiretos que atingem principalmente os "pequenos"), indo dialeticamente a par com menos serviços públicos e proteção social, para poder financiar a acumulação de capital. De facto, vivemos numa época em que a inevitável tendência da queda da taxa média de lucro exige que à exploração clássica seja adicionada uma pilhagem excessiva dos países pobres e um subsídio massivo ao capital, vindo de todos os escalões territoriais do poder público: Estado-nação ainda e sempre, enquanto permanecer nas mãos da grande burguesia, mas também "Europa" - o que é o "grande empréstimo europeu" senão CME praticado à escala continental?

"Grandes regiões", "Metrópoles" e outras "comunidades aglomeradas" sufocando as comunas e os departamentos republicanos. Mais uma vez, o poder do Estado não desaparece: move-se, transforma-se da escala nacional para as escalas infra e supranacionais. E é triste que ainda haja tantos "marxistas" para aplaudir com as duas mãos o estabelecimento desses monstros político-militares que carregam a guerra mundial dentro de si como a nuvem carrega o raio!

Conclusão

Para acabar com o escândalo permanente que são as ininterruptas subvenções ao capital privado por parte do poder público, não basta protestar contra Macron, nem mesmo exigir a sua demissão, por muito necessário que seja, porque todos os partidos ligados à UE e à "economia de mercado aberta ao mundo", o dito neoliberalismo, fazem, fizeram ou farão o que Macron está a fazer, seja o LAREM, o LR, o RN (que pretende ser "patriota", mas aceita oficialmente o capitalismo, o euro, a NATO e a UE) ou o PS ladeado pelos seus eternos satélites "euro-ecológicos", "euro-comunistas", "euro-trotskistas" e outros vendedores ambulantes da "Europa Social".

Para se livrar do escândalo permanente que a construção europeia constitui em termos de milhões de operários, empregados e engenheiros postos na rua, de camponeses levados ao suicídio, mas também de funcionários públicos precários, pressionados em serviços públicos exangues, é necessário uma saída pela via revolucionária, a das nacionalizações-expropriações, da democracia popular, da saída da UE e do euro, essa austeridade continental feita dinheiro. Sair do perigoso império capitalista em gestação, a NATO – máquina de globalizar as guerras americanas e da corrida armamentista – e do próprio capitalismo, de que o neoliberalismo e a "construção euro-atlântica" são apenas as máscaras atuais.

Porque, por muito que desagrade aos soberanistas de direita, aos nostálgicos de um bom e velho liberalismo idealizado e aos "eurocomunistas" malabaristas da Europa social, a evolução do modo de produção capitalista é irreversível: não é possível voltar duradouramente ao capitalismo de Estado "nacional" da era gaulista, nem restabelecer o "capitalismo competitivo e liberal" do século XIX, nem reconstituir suavemente ganhos sociais, poupando-se a dura tarefa da revolução.

Uma nação verdadeiramente emancipada, igualitária e fraternal só pode ter um conteúdo socialista, a marcha para o socialismo precisa de uma emancipação completa das nações europeias da camisa de força da UE, e não de 100 mil sofismas pseudomarxistas contra um "Frexit" progressista. O "soberanismo" burguês e a "euro-esquerda plural" são dois impasses simétricos: há que sair pela esquerda, rumo à democracia popular, rumo ao socialismo, sem hesitar em expropriar pura e simplesmente o grande capital, o euro mortífero da UE pré-totalitária, da NATO belicista e do capitalismo monopolista e imperialista!

 

A guerra de classe às crianças da Grã-Bretanha

 

Por: John Pilger

 

Na minha primeira reportagem sobre a pobreza infantil na Grã-Bretanha [1] fiquei impressionado pelas faces das crianças com quem falei, especialmente os olhos. Eles eram diferentes: precavidos, temerosos.

Em Hackney, em 1975, filmei a família de Irene Brunsden. Irene contou-me que deu ao seu filho de dois anos um prato de flocos de milho. "Ela não me disse que tinha fome, ela só gemia. Quando ela geme, sei que algo está errado".

"Quanto dinheiro tem você na casa?", perguntei.

"Cinco centavos", respondeu ela.

Irene disse que podia ter de ir para a prostituição, "para o bem do bebé". Seu marido, Jim, um condutor de camiões que não conseguia trabalho devido a doença, estava junto a ela. Era como se partilhassem uma aflição privada.

Isto é o que faz a pobreza. Na minha experiência, seu dano é como o dano de guerra; pode perdurar uma vida inteira, propagar-se aos seres amados e contaminar a geração seguinte. Ela atrofia crianças, provoca um conjunto de doenças e, como o desempregado Harry Hopwood me disse em Liverpool, "é como estar na prisão".

Esta prisão tem paredes invisíveis. Quando perguntei à jovem filha de Harry se pensava que algum dia viveria uma vida como crianças em melhor situação, ela disse sem hesitação: "Não".

O que é que mudou 45 anos depois? Pelo menos um membro de uma família empobrecida é provável ter um emprego – um emprego que lhes nega um salário digno. Incrivelmente, embora a pobreza esteja mais disfarçada, incontáveis crianças britânicas ainda vão para a cama com fome e brutalmente lhes são negadas oportunidades.

O que não mudou é que pobreza é o resultado de uma doença que ainda é virulenta mas de que raramente se fala – classe.

Estudo após estudo mostra que as pessoas que sofrem e morrem prematuramente das doenças da pobreza provocadas por uma dieta pobre, habitação degradada e pelas prioridades da elite política e dos seus responsáveis hostis pelo "bem-estar social" – são trabalhadores. Em 2020, uma em cada três crianças pré-escolares britânicas sofrem com isto.

Ao fazer o meu filme recente, The Dirty War on the NHS (A guerra suja ao SNS), ficou claro para mim que os cortes selvagens no SNS e sua privatização pelos governos Blair, Cameron, May e Johnson devastaram os vulneráveis, incluindo muitos trabalhadores do SNS e suas famílias. Entrevistei um trabalhador do SNS de baixa remuneração que não podia pagar a sua renda e foi forçado a dormir em igrejas ou nas ruas.

Num banco alimentar no centro de Londres, observei jovens mães a olharem em torno nervosamente quando corriam para longe com velhos sacos da Tesco 
[2] com comida, sabão em pó e tampões que não podiam pagar, com os seus filhos pequenos agarrando-se a elas. Não é exagero que por vezes sentia estar a caminhar nas pegadas de Dickens.

Boris Johnson afirmou que há menos 400 mil crianças a viver na pobreza desde 2010, quando os Conservadores chegaram ao poder. Isto é uma mentira, como confirmou o Comissário para as Crianças. De facto, mais de 600 mil crianças caíram dentro da pobreza desde 2012; espera-se que o total exceda os 5 milhões. Isto, poucos ousam dizer, é uma guerra de classe contra as crianças.

Johnson, um velho Etoniano 
[3] , é talvez uma caricatura da classe nascida para governar; mas a sua "elite" não é a única. Todos os partidos no Parlamento, notavelmente se não especialmente os Trabalhistas – como grande parte da burocracia e a maior parte dos media – têm pouca ou nenhuma ligação com as "ruas": com o mundo dos pobres, da "gig economia" [4] , da luta contra um sistema de Crédito Universal que pode deixá-lo sem um cêntimo e em desespero.

Na semana passada, o primeiro-ministro e a sua "elite" mostraram onde estavam as suas prioridades. Perante a maior crise sanitária de que há memória, quando a Grã-Bretanha tem o maior número de mortes de Covid-19 na Europa e a pobreza está a acelerar como resultado de uma política de "austeridade" punitiva, anunciou 16,5 mil milhões de libras para "defesa". Isto torna a Grã-Bretanha, cujas bases militares cobrem o mundo, o maior gastador militar da Europa.
E o inimigo? O verdadeiro é a pobreza e aqueles que a impõem e a perpetuam.

 

 [1] O filme Smashing Kids, de 1975, pode ser visionado em johnpilger.com/videos/smashing-kids
[2] Tesco: cadeia de supermercados na Grã-Bretanha.
[3] Etoniano: proveniente de Eton, uma escola da elite britânica.
[4] 
Gig economy : nela se incluem os que trabalham como fornecedores independentes em plataformas online; empresas de aluguer de mão-de-obra; trabalhadores que se comprometem a estar disponíveis para quando for necessário (on call) e trabalhadores temporários. Os Gig trabalhadores entram em acordos formais com companhias que atendem pedidos (on demand) a fim de fornecer serviços aos clientes das mesmas.


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

HERDEIROS DA GLADIO/NATO ANDAM À SOLTA NA EUROPA

 

Por: Louise Nyman


A imprensa dinamarquesa tem dado destaque às provas de que o Estado dinamarquês autoriza a espionagem da sua própria administração pública e das empresas privadas do sector militar pelos Estados Unidos da América. O fenómeno não é recente e tem a sua origem nas redes clandestinas (Stay behind, Gladio) instauradas pela NATO nos países da aliança.

De acordo com a generalidade das informações vindas agora a público, o processo de espionagem em funcionamento na sua forma actual tem origem em 1992, quando a administração de Bill Clinton pediu ao primeiro-ministro dinamarquês de então, Poul Nyrup Rasmussen, o acesso dos serviços de espionagem dos Estados Unidos ao núcleo da rede de internet no seu país. Estávamos em plena década de afirmação do poder unilateral norte-americano coincidente com o desaparecimento da União Soviética; era também a década do avanço para a destruição da Jugoslávia através de guerras sucessivas na qual a NATO teve papel determinante. O desenvolvimento da exigência de Clinton, tudo leva a crer, apoiou-se nas estruturas da rede Stay-behind da aliança, os mecanismos clandestinos de combate às organizações comunistas de cada país.

Rasmussen, um fundamentalista atlantista, deu andamento às exigências de Clinton e a operação de espionagem tornou-se realidade através de um acordo escrito entre a NSA (Agência de Segurança Nacional) dos Estados Unidos e os serviços dinamarqueses de espionagem e intercepção de comunicações, Forsvarets Efterretningstjeneste (FE).

Nos termos do acordo, os Estados Unidos podem interceptar qualquer actividade na internet de todos os cidadãos e entidades da Dinamarca, além de actividades estrangeiras que passem por este país.

O polvo continua activo

Durante o mandato de Barack Obama, mesmo depois de Edward Snowden, ex-agente da NSA, ter revelado os mecanismos de espionagem dos Estados Unidos em todo o mundo, inclusivamente contra os aliados, Washington utilizou o acordo proporcionado pelo governo dinamarquês para viciar o concurso público lançado por Copenhaga para comprar aviões de combate. Na sequência da manobra, o “concurso” ditou que a escolha tenha recaído sobre os problemáticos F-35 norte-americanos. Os principais prejudicados foram as indústrias europeias e dinamarquesa.

O acordo estabelecido na sequência das exigências de Bill Clinton criou uma situação segundo a qual os serviços dinamarqueses de informações militares e electromagnéticas, na sequência de autorização dada pelo primeiro-ministro de Copenhaga, espiam os seus próprios cidadãos, administração pública e empresas por conta dos Estados Unidos da América. A revelação desta situação teve agora um impacto de escândalo na opinião pública dinamarquesa, mas não é de crer que vá além disso.

Trata-se, no fundo, de um prolongamento das actividades de dispositivos clandestinos montados a seguir à Segunda Guerra Mundial pela CIA e depois pela NATO, conhecidos sob a designação de Stay-behind ou Gladio. Num quadro original de combate à União Soviética e os seus supostos “braços” em cada país – partidos comunistas e organizações de esquerda e progressistas em geral – os Estados Unidos e a NATO assumiram o direito de interferir nos assuntos internos dos países aliados, chegando ao ponto de assassinar um primeiro-ministro, Aldo Moro em Itália (permanecendo no escuro o que aconteceu com Olof Palm na Suécia), patrocinar grupos terroristas “negros” ou “vermelhos” e golpes de Estado.

Na Dinamarca, o ramo secreto começou por se designar Absalon e teria sido extinto em 1989, tal como alegadamente sucedeu noutros países da NATO; a realidade é que o Absalon foi reconvertido e transitou para os serviços de espionagem FE.

De onde seja muito provável que as redes Gladio tenham seguido caminhos idênticos nos países da NATO e continuem activas, neste caso não apenas contra organizações progressistas e de esquerda mas também contra correntes que se opõem ao regime globalizante neoliberal e a mecanismos de degradação ambiental que se disfarçam sob uma suposta luta “contra as alterações climáticas” conduzida pelos grandes poderes financeiros e industriais mundiais.

Situações bem actuais e que testemunham as acções clandestinas dos herdeiros da Gladio em países da NATO são a proliferação de grupos neonazis “institucionais” bem financiados e contando com apoio da comunicação social oficial e as acções coordenadas dos pontos de vista político e mediático contra as actividades de partidos progressistas, como por exemplo as campanhas que atingem as principais iniciativas do PCP em Portugal.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A democracia e os seus inimigos

 

Por: Daniel Vaz de Carvalho

            

A mão invisível do mercado nunca funcionaria sem ter por detrás um punho escondido.   A McDonald's não poderia prosperar sem a McDonnell Douglas, fabricante do F15.

Thomas L. Friedman, A Manifesto for a fast World

New York Times Magazine , 28/Mar/1999

                                                                  

1 – Os ataques à democracia

A extrema-direita que agora toma abertamente posição política é mais uma consequência da persistente crise capitalista e do agudizar das suas contradições. É o resultado em termos ideológicos de anos de calúnias contra tudo o que mesmo com leves traços progressistas pusesse em causa privilégios do grande capital e de paranoia anticomunista. Os que puseram em prática políticas de direita e neoliberais, contra os interesses populares e a soberania nacional, andaram chocar o "ovo da serpente" fascista.

Em nome da "economia de mercado" ou da "democracia liberal" foi dada liberdade praticamente total ao grande capital, reprimindo os trabalhadores, atacando o sindicalismo das formas mais soezes, promovendo o corporativismo da "concertação social" que se pretende colocar acima do parlamento. Tudo isto evidencia a tendência do neoliberalismo se encaminhar para formas fascizantes.

A linguagem do ódio, da intolerância, do racismo visando outros povos e emigrantes – proletariado fugindo à miséria e ao caos provocados por ações diretas ou apoiadas por países da NATO – sugestionam camadas populares despolitizadas e frustradas devido às políticas a favor da oligarquia.

Os pruridos democráticos do chamado centro caem pelo apoio ou silenciamento perante os neofascismos que se desenvolvem na UE e na Ucrânia, com glorificação de ex-nazistas e colaboracionistas, a supressão de elementares regras democráticas, disseminação do racismo e xenofobia. Caem com o reconhecimento de Guaidó e de outros golpistas na América Latina, caem enfim com o alinhamento com a agenda conspirativa e belicista do imperialismo.

Na ONU, os EUA e a Ucrânia são os únicos a oporem-se a uma resolução da Assembleia Geral, adotada anualmente para "Combater a glorificação do nazismo, neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada".

Determinadas ONG, não passam de extensões de serviços secretos, assumindo formas legais, alegadamente defensoras da democracia e direitos humanos. O seu objetivo é a desestabilização social e a fabricação de bem pagos "democratas" ao seu serviço, dramatizando quaisquer problemas existentes ou ficcionados, fazendo campanha contra despesas sociais do Estado, anunciando cataclismos que resultariam de medidas socializantes ou consideradas como tal.

Uma das ONG mais relevantes nestes processos de colocar o poder ao serviço da oligarquia e do imperialismo é a NED (National Endowment for Democracy). Esta Fundação subsidia organizações que distribuem dinheiro no exterior, disponível para associações e membros da classe dominante, partidos da direita, social-democratas e mesmo formações que se pretendem de esquerda.

As consequências destas atividades, são visíveis nos dramas das "revoluções coloridas" colocando no poder verdadeiros ditadores mascarados de democratas, alinhados com à extrema-direita, como no golpe fascista da Ucrânia. As intervenções militares, no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Somália, Iémen, alegadamente para impor a democracia provocaram milhões de vítimas, permitiram a consolidação de organizações terroristas e o drama dos refugiados.

O controlo da opinião pública para apoiar ou não reagir perante estas situações é garantido pelos principais media, veiculando falsas notícias e calúnias com que o império procura diabolizar os que não se lhe submetem como se fosse verdade absoluta e comprovada, abdicando de confirmar factos ou veicular o contraditório, tornando-se assim agentes da conspiração e da subversão. Além disto, nas redes sociais proliferam pro-fascistas difundindo o ódio, deturpando, mentindo sem escrúpulos, atacando a democracia e os democratas.

A CIA controla os principais media dos EUA desde 1950. Os media não fornecem notícias, fornecem explicações de acordo com a oligarquia, garantindo que notícias reais não interferem nos seus objetivos. O livro Jornalistas comprados: Como os políticos, os serviços secretos e a alta finança dirigem os meios de comunicação social alemães 
Gekaufte Journalisten ) do jornalista alemão Udo Ulfkotte mostra que a CIA também controla a imprensa europeia. [1]

O financiamento de candidatos favoráveis aos interesses da oligarquia constitui também um grave ataque à democracia. As eleições nos EUA são disto um gritante exemplo: em 2016 os bancos despenderam 2 mil milhões de dólares a favor dos "seus" candidatos. Em 2020 mais de 3 mil milhões. 
[2]

2 – A "democracia" oligárquica

Sob o domínio da oligarquia a democracia assemelha-se a 
O retrato de Dorian Gray . Tal como a oligarquia, Dorian persegue objetivos amorais, egoístas, porém a sua imagem regista todo mal que pratica. Também a degradação ética e a corrupção das práticas oligárquicas agravam as suas contradições e crises.

Sem qualquer espécie de escrúpulos as elites do dinheiro não hesitam em atacar pela calúnia e pela perseguição quem possa por em perigo os seus privilégios. No Reino Unido foi levado a cabo durante anos uma campanha para destruir o ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn que se propunha reverter o neoliberalismo propondo algumas nacionalizações e fazer regressar o partido à sua matriz tradicional sindicalista.

A universidade de 
Princeton publicou um estudo , evidenciando que os Estados Unidos funcionam muito mais como uma oligarquia do que como uma democracia. Um sistema que, como as recentes eleições comprovam, de tão corrupto apodreceu.

Para ser considerado democrático pela chamada "comunidade internacional" (EUA, UE e aliados) basta que um povo "pratique a democracia à maneira dos EUA e não tenha nada melhor para fazer do que aceitar a liderança de Washington". (de Gaulle, Memoires de Guerre III, Livre de Poche, p. 245). A democracia obtida desta forma é definida pelos interesses imperialistas e oligárquicos, fundamentalmente dos EUA, fazendo uso dos instrumentos ao seu serviço como o FMI, BM, NATO. O resultado são obscenas desigualdades e clara disfuncionalidade social.

Nos EUA 
apenas três homens (B. Gates, J. Bezos, W. Buffet) possuem tanto como metade da população. A camada oligárquica detém 79% da riqueza do país . A nível mundial os 26 mais ricos supostamente valem tanto quanto a metade de todas as outras, ou 3,8 mil milhões de pessoas. E isto num mundo em que o rendimento da metade mais pobre da humanidade continua diminuindo.

A outra face desta moeda é a pobreza, no país dito "mais rico do mundo": em 2020, estima-se que 11,9 milhões de crianças, 16,2% do total, vivam abaixo da linha oficial de pobreza; 36% de todas as crianças vivem em famílias pobres ou "quase pobres", com rendimentos inferiores a 150% da linha de pobreza. 
[3]

Existem 2,3 milhões de presos nos EUA 
[4] , taxa de encarceramento de longe a mais alta do mundo. Segundo o Washington Post, 1 004 pessoas foram mortas a tiro pela polícia em 2019, o grupo Mapping Police Violence registou 1 099. Um total de 10 310 960 prisões foram feitas nos EUA em 2018. [5] Sessenta por cento dos presos pertencem a minorias (negros e hispânicos) [6]

O grande capital controla as relações de produção, define e impõe a ideologia que justifica o seu domínio sobre o Estado, sobre a economia, sobre toda a sociedade, sendo os seus desmandos justificados em nome da "economia". Na UE o lóbi Business Europe, que reúne Bayer, BMW, Google, Microsoft, Shell, Total, entre outras, realizou 170 reuniões em três anos com a elite da Comissão Europeia. 
[7] Os Estados colocam-se de joelhos perante o grande capital, alavancado pelas privatizações, PPP, subsídios e isenções, obtendo lucros de monopólio.

3 - A "democracia" contra a soberania popular

A democracia é – ou deveria ser – o governo do povo, pelo povo, para o povo. A ideia contida nesta frase sofre de uma dificuldade, uma contradição, é que o "povo", o conjunto dos cidadãos, é uma entidade dividida em classes sociais com interesses e poderes distintos, mesmo antagónicos, para além do que os possa unir numa mesma nação.

Os mecanismos da alienação potenciados pelos media, incluindo a propaganda do consumismo, são um meio do povo perder o controlo sobre as instituições democráticas e seus representantes. Isto explica por que camadas sujeitas à exploração, pobreza e perda de direitos, votem em forças que promoveram e promovem aquelas situações. Essas forças alinhadas à extrema direita conseguem chegar ao poder mentindo, escondendo suas reais intenções ou com golpes de Estado militares ou jurídicos (Brasil, Paraguai, Honduras).

A democracia parlamentar formal tem a sua expressão no rotativismo político de partidos que defendem os mesmos modelos económicos e sociais, equivalentes a um partido único com várias facções (o "centro"). É este o sentido do pluralismo político dependente dos interesses da oligarquia.

Este modelo de democracia é o limite superior considerado aceitável pelo grande capital. Tudo que vá para além disto ao nível da democracia social é combatido. Nestas circunstâncias, se os resultados eleitorais não servirem os seus interesses, isto é, falhando a "cenoura" da sua democracia, usa o "pau" do fascismo, de que as "revoluções coloridas" são uma variante. E se estes processos não se concretizarem, o "mundo livre" aplica sanções, financia conspirações e intervenções armadas. Aliás, mais de 70% das ditaduras existentes no mundo recebem ajuda dos Estados Unidos. Um recorde estranho para uma nação que justifica as suas intervenções no estrangeiro visando 
"promover a democracia e os direitos humanos" .

Marx referiu-se ao "cretinismo parlamentar, a forma não de dar expressão à vontade do povo, mas de bloquear essa vontade". O parlamentarismo reduzindo a democracia a uma retórica de que o povo é alheado por representantes que renegam praticamente tudo o que prometeram antes de eleitos. As formalidades democráticas, não impediram que os detentores da riqueza se transformassem em novos senhores feudais aos quais quase tudo é permitido em nome dos "mercados", de "dar confiança aos investidores" ou dos "riscos sistémicos".

A UE é um exemplo de como a democracia formal se opõe à soberania popular. O sistema está montado para que eleições não possam em alterar o status quo oligárquico e imperialista ou opor-se aos tratados existentes. Os exemplos sobram nos referendos (Grécia, Irlanda, França) e ameaças de sanções a Portugal se uma efetiva política de esquerda fosse levada a cabo. No PE, 751 deputados – sem real poder – e 10 mil funcionários, ignoram e são ignorados pelos cidadãos. Uma imensa burocracia que vive da propaganda, da chantagem sobre os povos e dos impostos dos cidadãos. Uma democracia submetida a burocratas que se sobrepõem às políticas dos governos e se orgulham de não estarem sujeitos a escrutínio popular.

4 – A democracia, uma conquista sempre precária

A democracia não é uma conquista definitiva, muito menos uma dádiva, mas uma condição que há que permanentemente vigiar e mesmo lutar pela sua preservação, tantos são os seus inimigos e os desvios a que está sujeita. A social-democracia, tarde e a más horas, por vezes acaba por descobri-lo.

Será preferível falar em democratização, a democracia como processo, cidadãos participando não apenas em eleições, mas na gestão da vida coletiva abarcando os diversos aspetos da vida política, económica e social.

Não há democracias perfeitas, são realizadas por seres humanos imperfeitos, existem em sociedades imperfeitas, com interesses contraditórios e têm de se defender dos ataques dos seus inimigos.

Pode dizer-se que os inimigos da democracia são a corrupção, a indiferença e a estupidez, em tudo o que tem a ver com o social, fontes da calúnia, do ódio racista e anticomunista. Tudo isto são consequências de uma democracia falseada ou inexistente dominada pela burocracia e pelo grande capital.

A democracia também 
é profundamente destruída pela concentração da riqueza , por desigualdades alheias à contribuição de cada um para a sociedade. Acresce ainda um dos principais inimigos da democracia: o imperialismo. Governos democráticos respeitando a vontade popular são submetidos a formas de ingerência e agressão, no sentido de serem revertidos esses processos.

O imperialismo aprofunda as crises que os povos vão suportando, impede saídas realmente democráticas, promove a intimidação, convulsões sociais e insatisfação generalizada, desagregação social, empobrecimento e submissão das camadas trabalhadoras. Perante o poder imperial os cidadãos têm cada vez menos direitos cívicos (designadamente sindicais) e sociais. O pensamento livre é reprimido. Recrudescem as crendices, a superstição e as seitas fundamentalistas. A cultura reflete um profundo declínio, com obras superficiais que renunciam à crítica social centrando-se no psicologismo e no drama individual, basicamente cópia de modelos e êxitos comerciais anteriores.

Tão importante como analisar a forma de governo existente, há que verificar como são respeitados os desejos, as aspirações das camadas mais vastas da população. A democracia envolve subordinar a dinâmica financeira às necessidades do desenvolvimento, económico e social penalizando o rendimento rentista, estruturando no domínio público os sectores básicos e estratégicos.

A democracia tem de se alargar a todos os domínios possíveis da sociedade: nas funções sociais, direitos laborais nas empresas, democracia económica. As privatizações opõem-se a tudo isto. Quem dirige a sociedade são os "interesses económicos" - a oligarquia e os credores financeiros. A dita "democracia liberal", eufemismo para oligárquica, é refém destes agentes.

Uma medida tão evidente como taxar as transações financeiras e controlar os paraísos fiscais, mesmo não pondo em causa o sistema capitalista é combatida tenazmente como "radical", ao mesmo tempo que os países são atacados pelos défices públicos, precisamente pelos que se aproveitam deste sistema iníquo.

Em resumo, tudo isto mostra como a via reformista já não pode ser seriamente considerada – se é que alguma vez o foi. Ao proletariado, para a superação destas contradições, resta a via das transformações tal como o marxismo definiu e preconiza.

O socialismo tem de ser considerado uma livre opção democrática, concretizada na soberania do Estado e no aprofundamento da democracia e em todas as suas vertentes: política, económica, social e cultural. Sem a participação consciente e ativa dos cidadãos neste sentido, a democracia corre o risco de se tornar uma ficção política e as diatribes parlamentares não irem além de uma competição por lugares ao serviço da oligarquia.

1 - Paul Craig Roberts www.informationclearinghouse.info/55571.htm
2 - Cris Hedges, resistir.info/eua/requiem_americano.html
3 - The Shame of Child Poverty in the Age of Trump By Rajan Menon
5 - www.informationclearinghouse.info/55196.htm
4 - The US Spends More Than $80 Billion a Year Incarcerating 2.3 Million People
6 - johnjay.jjay.cuny.edu/nrc/NAS_report_on_incarceration.pdf
7 - Liliane Held-Khawam. Coup d'État planétaire, Bernard Gensane, www.legrandsoir.info/liliane-held-khawam-coup-d-etat-planetaire.htm

terça-feira, 24 de novembro de 2020

A pauperização por trás da recuperação

 

Por: Prabhat Patnaik

 

Apesar de se referir especificamente à realidade indiana este artigo pode ter uma leitura mais geral.   A argumentação apresentada pelo governo do sr. Modi é igual ou semelhante à de muitos outros governos reaccionários do mundo todo.   Quando eles dizem haver alguma recuperação económica – após uma queda vertiginosa – esta é acompanhada por uma pauperização dos povos.   Não há um retorno à situação anterior e sim um agravamento das condições dos trabalhadores.   Assim, esta análise lúcida e rigorosa de Patnaik é válida também para outros países.   

Ministros que vão desde Narendra Modi até Nirmala Sitaraman estão a falar acerca da recuperação da economia indiana da crise induzida pela pandemia. Mesmo o banco central da Índia (RBI), o qual estimou que no segundo trimestre o crescimento do PIB foi de -8,6 por cento, viu sinais de recuperação no mês de Outubro.

Naturalmente tinha de haver uma recuperação do abismo profundo para o qual o confinamento havia empurrado a economia, pois algum grau de normalidade retornou. Isto não é reflexo de qualquer virtude do governo. Mesmo a queda de 8,6 por cento no PIB do segundo trimestre (em comparação com o período homólogo do ano anterior), representa um retorno em direcção à normalidade à luz da queda de 23,9 por cento no PIB do primeiro trimestre, em comparação mais uma vez com o período homólogo do ano anterior.

Mas apesar de a economia, não surpreendentemente, estar a ascender para fora do abismo, quão longe subirá depende da natureza da própria ascensão. E aqui a conclusão inescapável é que como a recuperação é acompanhada por remoção significativa do trabalho e por um esmagamento da taxa salarial por hora de trabalho, levando a uma ascensão na taxa de mais-valia, ela será abortada em breve.

O número do RBI de uma queda de 8,6 por cento no PIB no segundo trimestre de 2020 é uma estimativa econométrica, não estatística, da espécie que o Gabinete Nacional de Estatística (NSO) do governo apresenta normalmente. A primeira, ao contrário da segunda, depende de um exercício de modelização no qual foram alimentados alguns dados limitados. Ainda assim, é pouco provável que as estimativas do NSO fiquem demasiado longe das que o RBI forneceu. Mas as estimativas da Organização Internacional do Trabalho para o mesmo trimestre Julho-Setembro de 2020 mostram que no Sul da Ásia, onde a Índia tem um peso esmagador, houve uma queda de 18,2% nas horas trabalhadas em comparação com o trimestre de Outubro-Dezembro de 2019; pelo que podemos esperar que tenha ocorrido uma queda aproximadamente semelhante em comparação com o trimestre de Julho-Setembro de 2019. A queda do PIB entre Julho-Setembro de 2019 e Julho-Setembro de 2020 pode portanto ser considerada certamente muito inferior à queda das horas trabalhadas para produzir este PIB. Ou, apresentando as coisas de forma diferente, a recuperação do abismo para o qual o confinamento havia empurrado a economia foi acompanhada por uma redução considerável do volume de mão-de-obra por unidade de PIB.

Esta redução obviamente não foi causada por qualquer progresso tecnológico da espécie que poupa mão-de-obra, uma vez que estamos aqui a falar de um período demasiado curto para o progresso tecnológico. Assim, só pode haver duas explicações possíveis para este fenómeno de a recuperação do PIB do abismo em que caíra ser maior do que a recuperação das horas de trabalho prestadas.

A primeira é através de uma redução do trabalho da categoria "despesas gerais" que anteriormente não era redutível. Qualquer redução observada no input mão-de-obra pode ter sido conseguida economizando estas despesas gerais as quais consistem acima de tudo de mão-de-obra assalariada. Os trabalhadores assalariados, e mesmo um segmento dos trabalhadores com remuneração horária, cujos pagamentos não costumam variar de acordo com a quantidade de produção, mas constituem uma componente das despesas gerais, são agora tratados em pé de igualdade com os trabalhadores contratados: são reduzidos quando a produção é reduzida devido ao confinamento.

O segundo meio pelo qual uma recuperação na produção pode ser acompanhada pela redução do input de trabalho por unidade de produção é se se verificar uma mudança na composição sectorial desta produção, isto é, se a recuperação for concentrada em sectores com mais baixos inputs de trabalho, ao passo que aqueles sectores que são mais trabalho-intensivos continuam a arrastar-se. Há boas razões para acreditar que isto deve ter desempenhado um papel importante uma vez que o sector informal fora da agricultura, o qual é altamente trabalho-intensivo e foi atingido duramente pelo confinamento, ainda está por recuperar, enquanto qualquer recuperação que tenha ocorrido está confinada principalmente ao sector corporativo da economia, tanto público como privado, que é menos trabalho-intensivo.

Além do aparentemente reduzido input de trabalho por unidade de PIB, há também uma redução nas taxas salariais. O próprio relatório do banco central declara que o sector corporativo tem estado a cortar custos. Um elemento muito importante de tais cortes de custos é a redução no custo do salário horário (wage-cost), o qual ascende por causa da redução nas horas trabalhadas por unidade de produto e também nos ganhos por hora trabalhada. É por causa de tais cortes de custos que há, pela primeira vez após vários meses, um lucro líquido positivo neste sector. Este decorreu do facto de as vendas terem-se recuperado ao passo que os custos não aumentaram de modo correspondente.

Agora, se o sector informal continuar a mofar, então isto significa considerável perda de empregos. De igual modo, se houver redução de trabalhadores assalariados, ou um corte salarial imposto sobre a massa de trabalhadores, sejam eles de colarinho azul ou branco, então isto significa perda de rendimento por hora de trabalho. Estes dois caminhos implicam uma redução no rendimento do trabalho por unidade de PIB, isto é, uma pauperização (immiserisation) absoluta dos trabalhadores no processo da recuperação do PIB do abismo induzido pelo confinamento. Mesmo quando a recuperação do PIB ainda se mantém abaixo do nível pré-pandemia, a média das condições de vida do povo trabalhador permanece numa ainda maior extensão abaixo do nível pré pandemia. Isto implica um aumento da taxa de mais-valia no próprio processo de recuperação.

Duas pequenas evidências confirmam este quadro. Uma, já mencionada, é a ascensão drástica dos lucros operacionais do sector corporativo, como se revela no desempenho das 887 companhias não-financeiras listadas em bolsa que representam quatro quintos da capitalização total de todas as companhias não-financeiras listadas. Comparando um trimestre com o trimestre homólogo do ano anterior, o Boletim mensal do banco central diz: "As despesas destas companhias... caem mais rapidamente do que as vendas no trimestre terminado em Setembro de 2020, o que resulta numa ascensão drástica dos lucros operacionais após dois trimestres consecutivos de contracção".

A outra evidência é o aumento drástico do número de pedidos de emprego sob o 
MGNREGS . Este número aumentou em 91,3 por cento em Outubro, o que é uma indicação da inacessibilidade de empregos alhures. Tem havido uma migração reversa da cidade para o campo durante o confinamento e qualquer que seja a reanimação que esteja a ocorrer na economia ela não melhorou a super-saturação de empregos em mercados rurais decorrente desta migração reversa. Isto também dá crédito à sugestão feita acima de que o sector informal urbano do qual veio a maior parte destes migrantes ainda não está a testemunhar qualquer recuperação significativa.

Se no entanto estiver a ocorrer alguma recuperação apesar da pioria absoluta das condições dos trabalhadores em relação ao PIB, a razão para isto deve ser que a procura por bens de consumo é sustentada pela tomada de empréstimos ou pela utilização de reservas de cash. Mas isto não pode perdurar por muito tempo. O agravamento absoluto da condição dos trabalhadores devido ao desemprego e rendimentos reduzidos em breve deve afectar a procura por bens de consumo e, portanto, a procura agregada. Neste ponto a recuperação chegará a um fim.

Apesar de repetidas alegações de economistas e grupos da sociedade civil, e de vários partidos políticos, incluindo acima de tudo a esquerda, o governo Modi nada faz para colocar poder de compra nas mãos do povo. A advertência de que não fazer isso põe a pique a recuperação tem caído em ouvidos moucos. A maior parte das medidas anunciadas nos pacotes de estímulo apregoados pelo governo de tempos em tempos, incluindo o mais recente, além de serem absolutamente reles, tratam primariamente da tarefa de tornar a vida mais fácil para os capitalistas. Mas não importa quão fácil a vida seja feita para eles, não importa quão grande se verifique uma medida no índice da "facilidade-de-fazer-negócios" da Índia, os capitalistas não vão investir neste país a menos que haja um aumento na procura agregada.

O vigor com que o coronavírus tem feito um reaparecimento em lugares de onde aparentemente havia desaparecido, e o facto de nem mesmo temporariamente ter desaparecido em muitos países inclusive notavelmente os Estados Unidos, sugere que a recuperação através de um aumento nas exportações líquidas simplesmente não é possível.

Portanto, a única possibilidade de reanimar a economia é através de um aumento da procura, especialmente a procura do consumidor, internamente. Isto é importante tanto para o bem-estar do povo apanhado nas garras de uma pandemia como para a reanimação da economia. Mas o governo não tem feito virtualmente nada para reanimar tal procura. Ao contrário, verificamos um aumento da mais-valia a acompanhar mesmo a limitada recuperação que tem ocorrido, a qual está destinada a travar esta recuperação.

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O réquiem americano

Por: Chris Hedges

 

Bem, acabou. Não a eleição. A democracia capitalista. Por mais tendenciosa que fosse para os interesses dos ricos e mais hostil para os pobres e minorias, a democracia capitalista pelo menos oferecia a possibilidade de migalhas de reformas graduais. Agora é um cadáver. A iconografia e a retórica permanecem as mesmas. Mas é um elaborado e vazio reality show, financiado pelos oligarcas que controlam a sociedade – 1,51 mil milhões de dólares para a campanha de Biden, 1,57 mil milhões para a campanha de Trump – para nos fazerem pensar que há escolhas. Não há. O duelo entre o discurso palavroso e vazio de Trump e o de Biden com dificuldades de expressão foi concebido para mascarar a verdade. Os oligarcas ganham sempre. As pessoas perdem sempre. Não importa quem se senta na Casa Branca. Os EUA são um estado falido.

"O sonho americano ficou sem combustível", escreveu o romancista J.G. Ballard. "O carro parou. Já não abastece o mundo com suas imagens, seus sonhos, suas fantasias. Não mais. Acabou. Agora o que fornece ao mundo são os seus pesadelos".

Muitos dos seus participantes mataram a sociedade aberta da América. 
[NT] Foram os oligarcas que compraram o processo eleitoral, os tribunais e os media, os lobistas que redigem a legislação que nos empobrece e permite que se acumulem quantias obscenas de riqueza e poder irrestrito. Os militaristas e a indústria de guerra que drenaram o tesouro nacional para montar guerras inúteis e sem fim que esbanjaram cerca de 7 milhões de milhões de dólares e nos transformaram em párias internacionais.

Também os executivos que arrecadam em bónus e pacotes de compensação dezenas de milhões de dólares, que enviaram empregos para o exterior e deixaram nossas cidades em ruínas e nossos trabalhadores na miséria e desespero, sem um rendimento de subsistência e sem esperança no futuro. A indústria de combustíveis fósseis que fez guerra à ciência e optou por lucros em vez da iminente extinção da espécie humana. A imprensa que transformou as notícias em entretenimento acéfalo e de claques partidárias. Os intelectuais que se retiraram para as universidades para pregar o absolutismo moral da política de identidade e do multiculturalismo, enquanto viravam as costas à guerra económica que estava a ser travada contra a classe trabalhadora e ao ataque implacável às liberdades civis. E, claro, a classe liberal irresponsável e hipócrita que não faz nada além de falar, falar, falar. [NT: recordamos que "liberal" nos EUA, corresponde mutatis mutandis às várias tendências social-democratas na Europa]

Se há um grupo que merece o nosso mais profundo desprezo, são as elites liberais, aqueles que se colocam como árbitros morais da sociedade, mas abandonam todos os valores que supostamente possuem no momento em que se tornam inconvenientes. A classe liberal, mais uma vez, actuou como patéticos animadores e censores para um candidato e um partido político que na Europa seria considerado de extrema-direita. Mesmo quando os liberais eram ridicularizados e rejeitados por Biden e pela hierarquia do Partido Democrata, que com fanfarronice investia a sua energia política para apelar para os neocons republicanos, os liberais estavam ocupados a marginalizar jornalistas, incluindo Glenn Greenwald e Matt Taibbi, que interpelavam Biden e os democratas. Os liberais, seja em The Intercept ou em The New York Times, ignoraram ou desacreditaram informações que poderiam prejudicar o Partido Democrata, incluindo as revelações do computador de Hunter Biden. Foi uma demonstração impressionante de carreirismo cobarde e auto-exclusão.

Os democratas e seus apologistas liberais estão, a eleição ilustrou, alheios ao profundo desespero pessoal e económico que varre este país. Eles não representam nada. Eles lutam por nada. Mais uma vez esqueceram restaurar o Estado de Direito, a saúde universal, a proibição do fracturamento hidráulico, um New Deal Verde, a protecção das liberdades civis, a formação de sindicatos, a preservação e expansão de programas de bem-estar social, uma moratória sobre despejos e execuções hipotecárias, o perdão de dívidas estudantis, um controlo ambiental rígido, um programa governamental de emprego e rendimento garantido, a regulamentação financeira, a oposição à guerra sem fim e ao aventureirismo militar

Defender essas questões teria resultado num desmoronar de terras no Partido Democrata. Mas, como o Partido Democrata é um subsidiário integral de doadores corporativos, era impossível promover qualquer política que pudesse fomentar o bem comum, diminuir os lucros corporativos e restaurar a democracia, incluindo a imposição de leis sobre o financiamento das campanhas. A campanha de Biden foi totalmente desprovida de ideias e questões políticas, como se ele e os democratas pudessem vencer as eleições apenas prometendo salvar a alma da América. Pelo menos os neofascistas têm a coragem das suas convicções dementes.

A classe liberal funciona numa democracia tradicional como uma válvula de escape. Torna possível as migalhas de reformas graduais, que amenizam os piores excessos do capitalismo. Propõe passos graduais em direcção a uma maior igualdade. Pretendem dotar o Estado e os mecanismos de poder de supostas virtudes. Também servem como cão de fila para desacreditar os movimentos sociais radicais. A classe liberal é uma componente vital dentro da elite do poder. Em suma, oferece a esperança e a possibilidade, ou pelo menos a ilusão, de mudança.

A rendição da elite liberal ao despotismo cria um vácuo de poder preenchido por especuladores, exploradores de guerra, gangsters e assassinos, muitas vezes liderados por demagogos carismáticos. A elite liberal abre as portas aos movimentos fascistas que ganham proeminência ridicularizando e insultando os absurdos da classe liberal e os valores que pretendem defender. As promessas dos fascistas são fantásticas e irrealistas, mas suas críticas à classe liberal são baseadas na verdade. Uma vez que a classe liberal deixa de funcionar, abre uma caixa de Pandora de males impossíveis de conter.

A doença do trumpismo, com ou sem Trump, está, como a eleição ilustrou, profundamente enraizada no corpo político. Tem expressão em enormes segmentos da população, ridicularizados pelas elites liberais como "deploráveis", de uma alienação e raiva legítimas que republicanos e democratas orquestraram e agora se recusam a tratar. Porém, o trumpismo, como a eleição mostrou, não se limita aos homens brancos, cujo apoio a Trump na verdade diminuiu.

Dostoievski viu o comportamento da inútil classe liberal da Rússia, que satirizou e criticou no final do século XIX, como presságio de um período de sangue e terror. O fracasso dos liberais em defender os ideais que professavam levou inevitavelmente, escreveu ele, a uma era de niilismo moral. Em 
Cadernos do Subterrâneo , retratou os sonhadores estéreis e derrotados da classe liberal, aqueles que sustentavam ideais elevados, mas nada faziam para defendê-los. A personagem principal leva as ideias falidas do liberalismo ao seu extremo lógico. Ele foge da paixão e do propósito moral. É racional. Acomoda-se a uma estrutura de poder corrupta e moribunda em nome de ideais liberais. A sua hipocrisia condenou a Rússia como agora condena os Estados Unidos. É a desconexão fatal entre convicções e acção.

"Eu nunca consegui tornar-me coisa alguma: nem mau nem bom, nem um canalha nem um homem honesto, nem um herói nem um insecto", escreveu o Homem do Subterrâneo. "E agora estou a viver a minha vida no meu canto, zombando de mim mesmo, com o consolo rancoroso e totalmente fútil de que é impossível um homem inteligente tornar-se seriamente alguma coisa, e apenas os tolos se tornam alguma coisa. Sim, senhor, um homem inteligente do século XIX deve ser, e moralmente é obrigado a ser, principalmente um ser sem carácter; e um homem de carácter, uma figura activa – é fundamentalmente um ser limitado."

A recusa da classe liberal em reconhecer que o poder foi arrancado das mãos dos cidadãos por empresas, que a Constituição e suas garantias de liberdade pessoal foram revogadas por decreto judicial, que as eleições nada mais são do que espectáculos vazios encenados pelas elites governantes, que estamos no lado perdedor da guerra de classes, deixou-os falando e agindo de maneiras que não correspondem mais à realidade.

A "ideia da vocação intelectual", como Irving Howe salientou no seu ensaio "This Age of Conformity" de 1954, "a ideia de uma vida dedicada a valores que não podem ser realizados por uma civilização comercial – gradualmente perdeu seu fascínio. E é isso, ao invés do abandono de um determinado programa, que constitui a nossa rota. "A crença de que o capitalismo é o motor inexpugnável do progresso humano, escreveu Howe, "é alardeada por todos os meios de comunicação: propaganda oficial, publicidade institucional e escritos académicos de pessoas que, até há alguns anos, eram os seus principais oponentes."

"As pessoas verdadeiramente sem poder são aqueles intelectuais – os novos do realismo político – que se prenderam aos assentos do poder, onde renunciam à liberdade de expressão sem ganhar qualquer significado como figuras políticas", escreveu Howe. "Pois é crucial para a história dos intelectuais americanos nas últimas décadas – bem como para a relação entre "riqueza' e 'intelecto" – que sempre que são absorvidos pelas instituições credenciadas da sociedade, não apenas perdem as suas tradições rebeldia, mas de uma forma ou de outra, deixam de funcionar como intelectuais".

As populações podem suportar a repressão dos tiranos, enquanto esses governantes continuarem a administrar e exercer o poder com eficácia. Mas a história humana demonstrou amplamente que, uma vez que aqueles em posições de poder se tornam redundantes e impotentes, mas ainda assim mantêm as armadilhas e privilégios do poder, são brutalmente descartados. Isso foi verdade em Weimar, Alemanha. Foi verdade na ex-Jugoslávia, um conflito que cobri para o New York Times.

O historiador 
Fritz Stern em "The Politics of Cultural Despair", um livro sobre a ascensão do fascismo na Alemanha, escreveu sobre as consequências do colapso do liberalismo. Stern argumentou que os alienados espiritual e politicamente, aqueles deixados de lado pela sociedade, são os principais recrutas para uma política centrada na violência, ódios culturais e ressentimentos pessoais. Muito dessa raiva, com razão, é dirigida a uma elite liberal que, embora fale a linguagem "Eu sinto a vossa dor" do liberalismo tradicional, os vende.

"Eles atacaram o liberalismo", escreve Stern sobre os fascistas emergentes à época na Alemanha, "porque lhes parecia a premissa principal da sociedade moderna; tudo o que eles temiam parecia brotar daí; a vida burguesa, o 
manchesterismo , o materialismo, o parlamento e os partidos, a falta de liderança política. Eles sentiam no liberalismo a fonte de todos os seus sofrimentos. Era um ressentimento de solidão; o seu único desejo era por uma nova fé, uma nova comunidade de crentes, um mundo com padrões fixos e sem dúvidas, uma nova religião nacional que unisse todos os alemães. Tudo isso, o liberalismo negou. Consequentemente, odiavam o liberalismo, culpando-o por torná-los párias, por desenraizá-los de seu passado imaginário e de sua fé".

Nós estamos prontos para isso. O sistema de saúde com fins lucrativos, projectado para ganhar dinheiro – e não para cuidar dos doentes – não está equipado para lidar com uma crise nacional de saúde. As corporações de saúde passaram as últimas décadas fazendo fusões e fechando hospitais, cortando o acesso a cuidados de saúde em comunidades por todo o país para aumentar a receita – isto, tal como quase metade de todos os trabalhadores permanecem inelegíveis para auxílio durante uma doença e cerca de 43 milhões perderam o seu seguro saúde patrocinado pela empresa. A pandemia, sem assistência médica universal, que Biden e os democratas não têm intenção de estabelecer, continuará a fazer estragos fora de controlo. Trezentas mil mortes previstas para Dezembro. Quatrocentas mil em Janeiro. E quando a pandemia acabar ou uma vacina estiver disponível com segurança, centenas de milhares, talvez milhões, terão morrido.

As consequências económicas da pandemia, o subemprego crónico e o desemprego – perto dos 20% quando os que pararam de procurar trabalho, os que foram licenciados sem perspectiva de recontratação e os que trabalham a tempo parcial abaixo da linha da pobreza forem incluídos nas estatísticas oficiais, significará uma depressão diferente de tudo que vimos desde os anos 1930. A fome nas famílias dos EUA já triplicou desde o ano passado. A proporção de crianças americanas que não recebem o suficiente para comer é 14 vezes maior do que no ano passado. Os bancos alimentares estão saturados. A moratória sobre execuções hipotecárias e despejos foi suspensa, enquanto mais de 30 milhões de americanos pobres enfrentam a perspectiva de serem postos na rua.

Não há mais controlo sobre o poder corporativo. A inevitável agitação social fará com que o Estado, não importa quem esteja na Casa Branca, use os seus três principais instrumentos de controlo social – extensa vigilância, prisões e polícia militarizada – apoiada por um sistema legal que rotineiramente revoga o habeas corpus e o devido processo legal, para esmagar implacavelmente a dissidência.

Pessoas de cor, imigrantes e muçulmanos serão responsabilizados pelo declínio da nação e visados pelos fascistas. Os poucos que continuarem a desafiar o Partido Democrata denunciando os crimes do Estado corporativo e do império serão silenciados. A esterilidade da classe liberal, servindo os interesses de um Partido Democrata que os ignora e despreza, alimenta os sentimentos generalizados de traição que viram quase metade dos eleitores apoiar um dos presidentes mais vulgares, racistas, ineptos e corruptos da história americana. Uma tirania americana, com o verniz ideológico de um fascismo cristianizado, irá, segundo parece, definir a descida histórica do império à irrelevância.

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