Crise do coronavírus poupou os grandes bancos e corporações. Para socorrê-las, Estados criaram, do nada, avalanche de dinheiro. Mas deixaram de fora populações e pequenas empresas. Ambas podem ser o novo espantalho do capitalismo.
Por: Michael Roberts
A crise gerada globalmente
pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A
mudança da expansão para a recessão no ciclo capitalista e os impactos
recessivos na produção e no investimento são frequentemente desencadeados por
um crash financeiro, seja no sistema bancário (como na Grande
Recessão de 2008-9) seja na esfera do capital fictício, isto é, no mundo das
ações e dos títulos (como em 1929 ou 2001).
Claro, a causa subjacente de tais quedas regulares e recorrentes reside nos movimentos
na lucratividade do capital, tal como foi discutido ad nauseam neste blog . Esta é a causa "última". Mas as
causas "próximas" podem ser diferentes. E nem sempre são de origem
"financeira". A primeira queda global simultânea no pós-guerra,
ocorrida em 1974-5, foi desencadeada por um forte aumento nos preços do
petróleo, após a guerra árabe-israelense; a recessão de duplo mergulho de
1980-2 teve origens semelhantes. A recessão de 1991-2, igualmente, seguiu-se à
Guerra do Golfo de 1990.
A crise produzida pela pandemia do coronavírus também tem uma causa
"próxima" distinta. Em certo sentido, essa queda global sem
precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um "evento
exógeno", ou seja, a propagação de um vírus mortal. Mas, como tem sido
argumentado por ecologistas, mas também neste blog, a busca voraz por lucros
por parte de empresas capitalistas na exploração de combustíveis fósseis,
extração de madeira, mineração e expansão urbana, sem consideração pela
natureza, criou as condições para o surgimento de uma sucessão de doenças
mortais; ligadas a patógenos para os quais o corpo humano não tinha resistência
e imunidade. Nesse sentido, a crise não foi "exógena".
Mas, as quedas na produção, no comércio, no investimento e no emprego mundiais
que se seguiram à difusão do vírus não começaram com um colapso financeiro ou
com uma queda abrupta no mercado de ações. Não foram eles, portanto, que
levaram ao colapso do investimento, da produção e do emprego. Aconteceu o
contrário. Houve um colapso na produção e no comércio, forçado ou imposto por
bloqueios provocados pela pandemia, que então levaram a uma enorme queda nas
receitas, gastos e comércio. Assim, a queda começou com um "choque
exógeno" aparente; ela ocorreu, depois, porque os bloqueios geraram um
"choque de oferta" seguindo de um "choque de demanda".
Até agora, porém, não ocorreu um "choque financeiro". Pelo contrário,
os mercados de ações e títulos dos principais países estão em níveis recordes.
O motivo é claro. A resposta das principais instituições monetárias nacionais e
governos foi injetar milhões de milhões de massa monetária, ou seja, crédito,
em suas economias para fortalecer os bancos, as grandes e as pequenas empresas;
bem como pagar cheques para milhões de trabalhadores desempregados e/ou
despedidos. O tamanho dessa "generosidade", financiada pela
"criação" de dinheiro pelos bancos centrais, não tem precedentes na
história do capitalismo moderno.
Isso significa que, ao contrário da situação no início da Grande Recessão, os
bancos e as principais instituições financeiras estão longe de entrar em
colapso. Os balanços dos bancos estão mais fortes do que antes da pandemia. Os
lucros financeiros aumentaram. Os depósitos bancários dispararam à medida que
os bancos centrais aumentam as reservas dos bancos comerciais e as empresas e
famílias acumulam dinheiro na forma da poupança; dado que o investimento se
reduziu e as famílias passaram a gastar menos.
De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),
as taxas de poupança das famílias aumentaram entre 10 e 20 pontos percentuais
durante a pandemia. Os depósitos das famílias nos bancos dispararam. Da mesma
forma, as reservas de caixa das empresas não financeiras aumentaram à medida
que as empresas tomam empréstimos – baratos ou sem juros – garantidos pelo
governo, ou que as empresas maiores emitiram ainda mais títulos, todos
incentivados e financiados por programas patrocinados pelo Estado. Os impostos
também foram diferidos conforme as empresas foram sendo bloqueadas e se adotou
uma espécie de purdah [NT] , novamente acumulando ainda mais caixa. Os diferimentos de impostos
equivalem a 13% do PIB na Itália e 5% do PIB no Japão, de acordo com a OCDE.
De fato, os últimos dados
das corporações (terceiro quarto de 2020) nos EUA mostraram um aumento
acentuado dos lucros, quase inteiramente devido a empréstimos e subsídios do
governo. Estes impulsionaram o fluxo de caixa junto com uma queda nos impostos
sobre vendas e produção conforme as empresas pararam os seus negócios. Os
lucros corporativos aumentaram US$495 mil milhões no terceiro trimestre, em
contraste com uma redução de US$209 mil milhões no segundo trimestre.
O órgão que publica as estatísticas do governo norte-americano explica: "os
lucros corporativos e a renda dos proprietários foram em parte reforçados por
provisões de programas criados pelo governo federal em resposta à pandemia, tal
como o programa de proteção aos salários, o diferimento dos pagamentos de
impostos, os créditos fiscais para retenção de funcionários, as licenças
médicas pagas etc., que forneceram apoio financeiro às empresas e pessoas
afetadas pela pandemia no segundo e terceiro trimestres."
Assim, cerca de US$1,5 milhão de milhões de subsídios e empréstimos do governo
dos Estados Unidos foram usados para subsidiar empresas americanas durante a
pandemia. Portanto, os lucros corporativos têm sido sustentados pela
intervenção do governo – ao custo de níveis sem precedentes de déficits
orçamentários do governo e de enormes aumentos na dívida do setor público.
A esperança agora é que, à medida que as vacinas fiquem prontas e sejam
distribuídas durante 2021, e que o isolamento social termine, a economia
mundial se recupere, de tal modo que o aumento da poupança familiar e dos
lucros corporativos sejam disponibilizados para atender a uma demanda
"reprimida". Assim, a locomotiva da economia capitalista voltaria a
andar celeremente. Os gastos do consumidor voltariam, as pessoas retomariam as
viagens, o turismo internacional se expandiria, inclusive com a volta dos
eventos de massa. Diante desse quadro, as empresas se lançariam numa espiral de
investimentos.
A OCDE é menos otimista em relação a esse cenário. Ela está preocupada com o
fato de que grande parte do aumento na poupança pessoal veio dos ricos, ao
quais tendem a gastar menos como porcentagem de sua renda (porque eles
simplesmente têm muito!). O conjunto das famílias médias não acumulou poupanças
seja nas principais economias seja nas economias capitalistas menos
desenvolvidas. Pelo contrário, aumentaram os seus níveis de endividamento
durante a pandemia. Além disso, com o provável fim, em 2021 dos cheques de
pagamento do Estado e de outros apoios, a situação da família média pode muito
bem se deteriorar. Essas desigualdades também se aplicam ao setor corporativo.
A OCDE avalia que a maior parte do apoio governamental na forma de empréstimos
e de doações foi canalizado para as empresas maiores, especialmente no setor de
tecnologia – um setor, aliás, menos atingido pela crise.
Portanto, encontra-se aqui o elo mais fraco da matriz de inter-relações
capitalistas. Eis o lugar provável em que emergirá o terceiro elemento da crise
pandêmica – uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida em que
as empresas, especialmente as pequenas e médias empresas começarem a quebrar.
Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas
receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários
aumentam.
O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) relatou recentemente que a
proporção da dívida global em relação ao produto interno bruto aumentará de
320%, em 2019, para um recorde de 365%, em 2020. O IIF conclui o seu relatório
com um forte alerta: "mais dívidas, mais problemas". Como disse
Martin Wolf no Financial Times: "Os mercados financeiros
estão ignorando esses avisos. As ações globais alcançaram novos máximos e
os spreads de crédito têm diminuído, quase como se a dívida
extrema fosse algo virtuoso e não um péssimo rumo do processo econômico."
Como já foi relatado, mesmo antes dessa pandemia, a dívida corporativa atingira
níveis recordes, medida em relação ao PIB anual. Medida em relação ao
patrimônio líquido dos ativos da empresa, essa situação apareceria de forma
ainda mais dramática já ficaria mais claro o potencial de uma avalanche de
falências associadas a ela.
A OCDE estima que, se os
lucros corporativos caírem drasticamente em 2021, à medida que os governos
retirem o apoio financeiro, muitas empresas podem ficar "em
dificuldades".
O número das "empresas zumbis" tem aumentado significativamente. São
aquelas que não estão obtendo lucros suficientes para cobrir os juros de suas
dívidas pendentes. A OCDE observa que um quinto das empresas na Bélgica, por
exemplo, não poderia honrar seus passivos financeiros por mais de três meses
sem contrair mais dívidas ou obter uma injeção de capital. Essa proporção é
muito maior em alguns setores como hospedagem, eventos e lazer.
A OCDE conclui que "as preocupações com a estabilidade financeira
provavelmente ressurgirão" , já que o rápido aumento da dívida do
setor público e do setor corporativo pode em breve levar a "preocupações
com a solvência em um grande número de empresas". A inadimplência
corporativa no que se refere aos títulos de empresas mais fracas pode dobrar em
2021, diz a OCDE, especialmente em "setores duramente atingidos
como companhias aéreas, hotéis e indústria automobilística". As
falências em pequenas e médias empresas nos setores de varejo, lazer e imóveis
comerciais são particularmente prováveis.
Esse cenário é ainda mais evidente nas chamadas economias emergentes. Mesmo na
China, onde a economia em geral está se recuperando de modo mais rápido, uma
série de empresas com pesadas dívidas estão começando a deixar de pagar os seus
empréstimos, colocando, assim, o governo em um dilema. Tem que decidir se salva
essas empresas (algumas das quais são estatais locais) ou as deixa quebrar, a
fim de reduzir o peso da dívida geral sobre a economia. Isso não levará a um
grande colapso financeiro ou a uma forte ruptura na recuperação chinesa, porque
o governo tem reservas enormes e pode tirar proveito das enormes poupanças
familiares do povo chinês, principalmente depositadas em bancos estatais – ao
contrário do que ocorre em outras grandes economias. Mas os problemas de uma
série de empresas chinesas superendividadas são um prenúncio do que poderia
haver um "tsunami de dívida" em muitos setores corporativos – e não
só na economia chinesa, mas também na economia de outros países durante o
próximo ano.
Muito depende de saber se o setor corporativo conseguirá ou não se sustentar em
2021, à medida que os subsídios dos Estados forem sendo cortados. Mesmo que os
custos de juros sobre a dívida existente permaneçam baixos, se os lucros
corporativos não aumentarem, mas, em vez disso, caírem em 2021, a OCDE estima
que mais de 30% das empresas em todo o mundo podem ficar "em
dificuldades", podendo enfrentar a falência. No mínimo, em consequências,
as empresas não vão aumentar os seus investimentos, mas, ao contrário, ficarão
"quietas". A OCDE avalia que existe o risco de uma "dívida pendente".
E isto reduziria o crescimento do investimento empresarial em 2 pontos
percentuais em comparação com a média de longo prazo, antes da pandemia.
Portanto, mesmo que não haja o tal "tsunami de dívidas" e um crash financeiro
causado por uma onda de falências de empresas, a recuperação na maioria das
economias capitalistas provavelmente será muito fraca. A OCDE em sua última
previsão para a economia mundial fala sobre um "futuro mais
brilhante ", em 2021, quando as vacinas contra a Covid passarem a
serem distribuídas. Mas essa previsão ainda espera que a maioria das economias
do mundo não recupere as perdas de produção sofridas em 2020. No final de 2021,
apenas algumas economias terão experimentado algum crescimento real do PIB em
comparação como o nível do final de 2019.
A economia líder na recuperação será a China – quase 10% a mais de PIB;
seguem-se as economias da Coreia do Sul e da Indonésia. Os aumentos do PIB
nesses países resultará em um aumento médio do PIB mundial
nesses dois anos, isto é 2020 2021. Mas a China contribuirá com um terço desse
crescimento real do PIB até o final desse período. As economias capitalistas
avançadas do G7 não terão nenhum crescimento real do PIB (é o caso dos EUA), ou
terão recuado algo entre 3 e 5% até o final de 2021 (os casos da Europa e do
Japão); nesse quadro, o Reino Unido terá o pior desempenho com uma contração de
6,4%. As outras grandes economias do G20, como Índia e Brasil, terão declínios
significativos.
A OCDE espera uma
"recuperação gradual, mas desigual". E isso pressupõe que ocorram as
melhores expectativas possíveis sobre o impacto das vacinas contra a Covid.
Mesmo assim, embora se espere que o PIB da economia mundial retorne ao seu
nível anterior à pandemia no final de 2021, ele ainda não alcançará o PIB
mundial que teria atingido sem a queda produzida pela difusão do coronavírus. A
perda representará cerca de 6% do PIB, conforme mostra o gráfico acima. A
trajetória da "raiz quadrada reversa" da Longa Depressão parece que
vai continuar.
[NT] Consiste na prática entre os persas de impedir as mulheres de serem
vistas pelos homens que não sejam seus parentes diretos.
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