terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A Turquia passa a ser o centro do Novo Grande Jogo

 

Por: Pepe Escobar

Quando se trata de semear – e lucrar – com a divisão, a Turquia de Erdogan é a campeã.

Sob o nome delicioso Lei de combate aos adversários da América por meio de sanções (Countering America's Adversaries Through Sanctions Act, CAATSA), a administração Trump impôs sanções a Ancara por ousar comprar sistemas de defesa russos S-400 com mísseis terra-ar. As sanções se concentraram na agência de compras de defesa da Turquia, a SSB.

A resposta do ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, foi rápida: Ancara não recuará – e está, de facto, a considerar como responder.

Os caniches europeus inevitavelmente tiveram que acompanhar. Portanto, após o proverbial e interminável debate em Bruxelas, eles estabeleceram sanções "limitadas" – acrescentando uma lista adicional para uma cimeira em Março de 2021. Contudo, tais sanções na verdade centram-se em indivíduos ainda não identificados envolvidos em perfurações offshore em Chipre e na Grécia. Eles nada têm a ver com os S-400s.

Aquilo com que a UE se saiu é, na verdade, um regime de sanções de direitos humanos muito ambicioso e global, modelado de acordo com a Lei Magnitsky dos Estados Unidos. Isso implica a proibição de viagens e o congelamento de bens de pessoas consideradas unilateralmente como responsáveis por genocídio, tortura, execuções extrajudiciais e crimes contra a humanidade.

A Turquia, neste caso, é apenas uma cobaia. A UE sempre hesita fortemente quando se trata de sancionar um membro da NATO. O que os eurocratas em Bruxelas realmente querem é uma ferramenta extra poderosa para assediar sobretudo a China e a Rússia.

Nossos jihadistas, desculpe, "rebeldes moderados"

O fascinante é que Ancara, sob o comando de Erdogan, parece sempre ostentar uma espécie de atitude desenvolta.

Veja-se a situação aparentemente insolúvel no caldeirão Idlib, no noroeste da Síria. Os chefões da Jabhat al-Nusra – também conhecido coma al-Qaeda na Síria – estão agora envolvidos em negociações "secretas" com gangs armadas apoiadas pela Turquia, tais como a Ahrar al-Sharqiya, bem em frente das autoridades turcas. O objectivo: aumentar o número de jihadistas concentrados em certas áreas-chave. O resultado final: um grande número deles virá de Jabhat al-Nusra.

Portanto Ancara, para todos os efeitos práticos, permanece totalmente por trás dos jihadistas radicais no noroeste da Síria – disfarçados sob o nome "inocente" de Hayat Tahrir al-Sham. Ancara não tem absolutamente nenhum interesse em permitir que tais pessoas desaparecessem. Moscovo, é claro, está plenamente consciente destas travessuras, mas os astutos estrategas do Kremlin e do Ministério da Defesa por enquanto preferem deixar as coisas andarem, assumindo que o processo Astana compartilhado pela Rússia, Irão e Turquia possa ser algo frutífero.

Erdogan, ao mesmo tempo, com habilidade dá a impressão de que está totalmente empenhado em girar para Moscovo. Ele está entusiasmado pelo facto de o "seu colega russo Vladimir Putin" apoiar a ideia – inicialmente apresentada pelo Azerbaijão – de uma plataforma de segurança regional unindo Rússia, Turquia, Irão, Azerbaijão, Geórgia e Arménia. Erdogan disse mesmo que, se Yerevan fizer parte desse mecanismo, "uma nova página pode ser aberta" nas relações até agora intratáveis entre a Turquia e a Arménia.

É claro que ajudará o facto de que, mesmo sob a proeminência de Putin, Erdogan terá um assento importante na mesa desta suposta organização de segurança.

O Grande Quadro é ainda mais fascinante – porque esboça vários aspectos da estratégia de equilíbrio da Eurásia de Putin, a qual envolve como actores principais a Rússia, China, Irão, Turquia e Paquistão.

Às vésperas do primeiro aniversário do assassinato do General Soleimani, Teerão está longe de intimidado e "isolado". Para todos os efeitos práticos, está de modo lento mas seguro a forçar os EUA a abandonar o Iraque. As ligações diplomáticas e militares do Irão com o Iraque, Síria e Líbano permanecem sólidas.

E com menos tropas americanas no Afeganistão, o facto é que o Irão pela primeira vez desde a era "eixo do mal" estará menos cercado pelo Pentágono. Tanto a Rússia quanto a China – os principais nós da integração da Eurásia – apoiam o Irão totalmente.

É claro que o rial iraniano entrou em colapso em relação ao dólar americano e a receita do petróleo caiu de mais de US$100 mil milhões por ano para algo em torno dos US$7 mil milhões. Mas as exportações não petrolíferas estão bem acima dos US$30 mil milhões/ano.

Tudo está prestes a mudar para melhor. O Irão está a construir um oleoduto ultra-estratégico da parte oriental do Golfo Pérsico até o porto de Jask, no Golfo de Omã – contornando o Estreito de Ormuz e pronto para exportar até 1 milhão de barris de petróleo por dia. A China será o principal cliente.

O presidente Rouhani disse que o oleoduto estará pronto no Verão de 2021, acrescentando que o Irão planeia vender mais de 2,3 milhões de barris de petróleo por dia no ano que vem – com ou sem as sanções dos EUA aliviadas por Biden-Harris.

Observe o Anel de Ouro

O Irão está bem ligado à Turquia a oeste e à Ásia Central a leste. Um elemento extra importante no tabuleiro de xadrez é a entrada de comboios de carga ligando directamente a Turquia à China através da Ásia Central – contornando a Rússia.

No início deste mês, o primeiro comboio de carga deixou Istambul para uma viagem de 12 dias de 8.693 km, atravessando o Bósforo por baixo através do novíssimo 
túnel Marmaray , inaugurado há um ano, depois ao longo do Corredor Médio Oriente-Oeste via ferrovia Baku-Tbilisi-Kars (BTK), através da Geórgia, Azerbaijão e Cazaquistão.

Na Turquia, isso é conhecido como Ferrovia da Seda. Foi o BTK que reduziu o transporte de carga da Turquia para a China de um mês para apenas 12 dias. Toda a rota do Leste Asiático à Europa Ocidental agora pode ser percorrida em apenas 18 dias. O BTK é o nó principal do chamado Corredor Central de Pequim a Londres e da Rota da Seda de Ferro do Cazaquistão à Turquia.

Tudo o que foi dito acima se encaixa perfeitamente na agenda da UE –especialmente da Alemanha: implementar um corredor comercial estratégico ligando a UE à China, contornando a Rússia.

Isto finalmente levaria a uma das alianças chave a serem consolidadas nos anos intensos anos 20: Berlim-Pequim.

Para acelerar esta possível aliança, o que se fala em Bruxelas é que os eurocratas lucrariam com o nacionalismo turcomano, o pan-turquismo e a recente entente cordiale entre Erdogan e Xi no que diz respeito aos uigures. Mas há um problema: muitas tribos turcófonas preferem uma aliança com a Rússia.

Além disso, a Rússia é incontornável quando se trata de outros corredores. Tomemos, por exemplo, um fluxo de mercadorias japonesas indo para Vladivostok e então, via Transiberiano, para Moscovo e daí para a UE.

A estratégia da UE de contornar a Rússia não foi exactamente um êxito na Arménia-Azerbaijão: o que se verificou foi um recuo relativo da Turquia e uma vitória russa de facto, com Moscovo a reforçar sua posição militar no Cáucaso.

E mesmo um gambito ainda mais interessante: a parceria estratégica Azerbaijão-Paquistão, agora em franca expansão no comércio, defesa, energia, ciência e tecnologia e agricultura. Islamabad, aliás, apoiou Baku em Nagorno-Karabakh.

Tanto o Azerbaijão quanto o Paquistão têm relações muito boas com a Turquia: o que tem a ver com herança cultural turco-persa, muito entrelaçada.

E elas podem ficar ainda mais próximas, com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INTSC) conectando cada vez mais não só Islamabad a Baku como também a Moscovo.

Daí a dimensão extra do novo mecanismo de segurança proposto por Baku unindo Rússia, Turquia, Irão, Azerbaijão, Geórgia e Arménia: todos os quatro primeiros aqui querem laços mais estreitos com o Paquistão.

O analista Andrew Korybko baptizou-o primorosamente como "Anel de Ouro" – uma nova dimensão para a integração da Eurásia Central, destacando a Rússia, China, Irão, Paquistão, Turquia, Azerbaijão e os "istões" da Ásia Central. Portanto, tudo isto vai muito além de uma possível Tríplice Entente: Berlim-Ancara-Pequim.

O que é certo, tal como estão as coisas, é que a importante relação Berlim-Moscovo permanecerá fria como gelo. O analista norueguês Glenn Diesen 
resumiu tudo isto : "A parceria germano-russa para a Grande Europa foi substituída pela parceria sino-russa para a Grande Eurásia".

O que também é certo é que Erdogan, um mestre do manobrismo, encontrará maneiras de lucrar simultaneamente com a Alemanha e com a Rússia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Por uma solução revolucionária para a crise venezuelana

 

Por Carolus Wimmer

entrevistado por Melina Deymann, do Unsere Zeit


Em 6 de Dezembro de 2020 realizaram-se as eleições legislativas na Venezuela. O PSUV, partido do presidente Maduro, venceu amplamente com 68,5% dos votos. Mas a participação atingiu apenas 30,5% dos eleitores inscritos. Apesar de marginalizado dos media, o Partido Comunista da Venezuela, na Alternativa Popular Revolucionária, obteve 169 mil votos e conservou uma cadeira no Parlamento, a de Oscar Figuera, seu secretário-geral. O secretário do PCV para questões internacionais, Carolus Wimmer, fez uma análise deste resultado numa entrevista ao jornal Unsere Zeit, do Partido Comunista Alemão.

UZ: Quais são os efeitos da guerra económica efectuada pelos EUA e a UE contra a Venezuela, especialmente nestes tempos de pandemia?

CW: As sanções americanas levaram a uma perda de receitas da ordem dos 31 mil milhões de dólares para o Estado venezuelano. O anterior conselheiro de segurança da administração americana, John Bolton, explicava, ainda em 2019, que as sanções americanas causariam um prejuízo de mais de 11 mil milhões de dólares por ano.

Os mais afectados pertencem às camadas mais frágeis da população: as crianças e os jovens, as pessoas doentes e idosas. Há poucos meios para importar víveres e medicamentos, porque o capitalismo rentista venezuelano depende quase exclusivamente das receitas petrolíferas em termos de entrada de divisas. As sanções dos Estados Unidos contribuíram para a queda brutal das importações essenciais. No sector público, elas afundaram 50% em 2019 (500 milhões de dólares) e depois ainda 50% em 2020 (250 milhões de dólares).

As sanções dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus, visando bloquear as importações essenciais e as exportações de petróleo, tiveram o efeito esperado. Aprofundaram a crise social e económica pré-existente do capitalismo na Venezuela, que resultou dos erros políticos do governo. As sanções são a desculpa perfeita para mascarar a sua incompetência estrutural. Com a pandemia, o país está a cair numa verdadeira tragédia cuja primeira vítima é o povo, porque nem o partido social-democrata no poder nem a oposição contra-revolucionária enfrentam os problemas diários agravados pela crise.

UZ: Será que o governo Maduro teria podido tomar medidas para precaver melhor a Venezuela destes ataques do imperialismo?

CW: Com certeza. Nas nossas expressões, que já transmitimos muitas vezes ao governo, nós, o Partido Comunista da Venezuela, falamos de uma saída revolucionária para a crise. Isso significa uma reversão política total. Em vez de prosseguir uma política governamental reformista, social-democrata e favorável ao capital, precisamos de um governo revolucionário de operários e camponeses. O poder nas fábricas deve ser transferido à classe operária; os camponeses devem tornar-se proprietários da terra; é o que declara a constituição. O controlo da produção deve ser confiado aos trabalhadores. A actual estrutura de classes do governo está em contradição com isto. Desde a morte de Hugo Chavez, estão ali sobretudo representantes da burguesia ou da pequena burguesia.

Tivemos exemplos comprovativos. Quando em 2002, após o putsch contra o Presidente Chavez, a indústria petrolífera foi sabotada, os trabalhadores conseguiram salvá-la, chegando ao ponto de descodificar o software das companhias petrolíferas americanas.

O PCV promove constantemente o apoio à produção industrial nacional e à agricultura contra a actual política de importações generalizadas. Um dos pontos-chave para o progresso a longo prazo é a nacionalização dos bancos. Eles estão no centro da sabotagem contra-revolucionária. Eles opõem-se a uma moeda nacional estável. Põem em perigo a estabilidade política e económica do país através da especulação monetária.

O governo actual trai mais uma vez, em contradição com o do presidente Chavez, os trabalhadores, o que levou à mudança de posição táctica do PCV.

UZ: O PCV critica em primeiro lugar a nova "lei anti-bloqueio" pois ela prevê privatizações ao invés de medidas eficazes contra os efeitos do bloqueio. Pode nos dizer mais, resumidamente?

CW: A lei anti-bloqueio está em contradição com a constituição. O presidente está a ignorá-lo. Ela que dá um poder não controlável. Por este meio, desde a sua adopção em 9 de Outubro, iniciou-se uma vaga de reprivatizações de empresas estatais no sector agrícola, sem informação prévia aos trabalhadores e aos sindicatos. Há despedimentos e violações do direito do trabalho todos os dias. Os media nada dizem de tudo isto.

O PCV mobiliza os trabalhadores. Ele é o porta-voz decisivo do protesto e das reivindicações da classe operária, apesar, repitamos, de uma censura total implementada pelo governo contra os comunistas. Continuaremos o combate contra o imperialismo e o capital, mas também contra a política dos traidores, anti-operária, da social-democracia.

A "lei anti-bloqueio" serve a oligarquia económica e prejudica a maioria. Nestas circunstâncias, o PCV e a Alternativa Popular Revolucionária (APR) vão desempenhar um papel importante no novo parlamento. Vamos já apelar a um referendo contra a "lei anti-bloqueio".

UZ: Quais os pontos principais sobre os quais o PCV conduziu a sua campanha eleitoral?

O PCV e a APR pedem, entre outras coisas, um salário mínimo e uma pensão mínima que garantam as necessidades básicas das famílias. As pessoas não devem mais ser constrangidas a emigrar para sobreviver, a vender os seus bens, a depender de transferências dos seus parentes no estrangeiro, a trabalhar clandestinamente. Nossa proposta de lutar por um salário decente foi bem acolhida.

Exigimos um rendimento suficiente para viver dignamente, o estabelecimento de uma escala móvel dos salários, indexada à inflação, segurança de emprego e de benefícios sociais. Exigimos o levantamento do acordo que isenta de tributação o capital estrangeiro, a tributação do capital das grandes empresas nacionais e transnacionais, a abolição do IVA. A garantia do abastecimento de gás, electricidade e água potável são outras das nossas propostas políticas centrais.

Uma pesquisa de opinião do instituto "Datanalisis" estima que mais de 62% dos venezuelanos não têm confiança nem no governo nem na oposição.

Sobre esta realidade, constituímos uma nova aliança eleitoral destinada a perdurar, a Alternativa Popular Revolucionária (APR).

Duros combates de classe estão diante de nós, contra o imperialismo e face a um governo que, na prática, afasta-se cada vez mais das fontes da Revolução Bolivariana de Hugo Chavez, que trai os interesses da classe operária e do campesinato, que mantém salários de miséria sempre concedendo aos capitalistas novas mais-valias gigantescas.

O PCV agirá, no quadro parlamentar como extra-parlamentar, contra a criminalização das lutas de classe e contra a perseguição dos militantes operários e camponeses. Os crimes não devem permanecer impunes.

 

  PCV: rumo ao congresso fundador da APR

Sobre o autor

Responsável pelas relações internacionais do PCV.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Beethoven: tempos revolucionários

 

Por: Michael Roberts

É o 250º aniversário do nascimento de Ludwig Beethoven, nascido em 16 ou 17 de Dezembro de 1770 (ninguém tinha certeza do dia, nem ele próprio). Beethoven é considerado o mais musicalmente revolucionário dos compositores "clássicos". E, na minha opinião, isto não é um acidente da história porque Beethoven foi um homem do seu tempo.

Nasceu na época do que foi chamado de 'iluminismo', quando o pensamento europeu rompeu com a subserviência à religião e à monarquia e ergueu a bandeira do pensamento livre, da ciência e da democracia – e houve os primeiros vislumbres de uma nova ordem económica baseado no 'livre comércio e concorrência'. Adam Smith publicou sua obra seminal, A riqueza das nações, quando Beethoven tinha seis anos. E aconteceu a guerra de independência americana, na qual os antigos colonos britânicos romperam com a monarquia britânica, com o apoio financeiro e militar da França, para estabelecer uma república com direito a voto, exercida já no mesmo ano.

Na minha opinião, a jornada musical de Beethoven oscilou com os altos e baixos deste tempo revolucionário que continuou ao longo de sua vida, mas particularmente com os fluxos e refluxos da Revolução Francesa que liquidou a monarquia, os direitos feudais e proclamou igualdade, liberdade e fraternidade para todos (os homens). Enquanto adolescente, Beethoven, como muitos outros jovens "médios" na Europa, foi desde o início um forte apoiante da revolução.

Filho de um músico de uma família de origem flamenga, seu pai, Johann, trabalhava para a corte do Arcebispo-Eleitor de Bonn, na Alemanha. Ele fez sua primeira apresentação pública aos sete anos e mudou-se para Viena em 1792 para estudar com Joseph Haydn, o qual, com Mozart (falecido no ano anterior aos 35 anos), havia moldado a tradição musical da cidade.

Viena estava sob o domínio do império absolutista dos Habsburgos. Mas Beethoven estava envolto em ideias napoleónicas de liberdade. Ele se tornou um republicano convicto e, tanto nas suas cartas como nas suas conversas, falava frequentemente da importância da liberdade. Ele não se importava com a realeza. A um de seus primeiros patronos, o Príncipe Karl Lichnowsky, Beethoven escreveu: "Príncipe, o que você é, você nasceu por acidente; o que sou, devo-o a mim mesmo". O monarca austríaco, Franz II, alegadamente recusou-se a ter qualquer coisa a ver com Beethoven, com base em que havia "algo revolucionário na [sua] música". E a amizade do compositor com o grande escritor e poeta alemão Goethe terminou abruptamente em 1812 quando, ao caminharem juntos no parque, encontraram a Imperatriz austríaca. Goethe curvou-se subservientemente; Beethoven virou as costas com desdém.

Este espírito revolucionário habita grande parte da sua obra. Ele impulsionou a música para esta nova era. Reunindo o poder poético da cena literária alemã e as canções francesas da revolução, ele mudou completamente o que poderia ser a música. " Beethoven é o amigo e contemporâneo da Revolução Francesa e a ela permaneceu fiel mesmo quando, durante a ditadura jacobina, humanitários com nervos fracos do tipo Schiller abandonaram-na, preferindo destruir tiranos no palco com a ajuda de espadas de papelão. Beethoven, aquele génio plebeu, que orgulhosamente virou as costas a imperadores, príncipes e magnatas – esse é o Beethoven que amamos pelo seu optimismo inexpugnável, sua tristeza viril, pelo pathos inspirado da sua luta e pela sua vontade de ferro que lhe permitiu agarrar o destino pela garganta" (Igor Stravinsky). Beethoven mudou a maneira como a música era composta e ouvida. Sua música não acalma, mas choca e perturba.

Penso que podemos dividir a obra musical de Beethoven em quatro períodos que correspondem aos altos e baixos económicos e sociais da sua vida. Ele atravessou a época de três grandes revoluções burguesas: a industrial na Inglaterra; a política em França; e a filosófica na Alemanha. O primeiro período da sua vida como menino e depois como jovem adulto foi durante uma ascensão revolucionária na Europa; mas também uma nova ascensão económica no desenvolvimento capitalista, levando ao culminar da Revolução Francesa com a ascensão da radical administração jacobina em 1792, quando Beethoven tinha 22 anos.

O segundo período, de 1792 a 1815, foi realmente um retrocesso para a revolução em França pois os jacobinos foram derrubados e o herói da defesa militar do governo revolucionário, Napoleão Bonaparte, tornou-se ditador. Mas isso também significou que os exércitos de Napoleão levaram as ideias e leis da Revolução Francesa a toda a Europa, derrubando as monarquias absolutas semi-feudais reaccionárias da Áustria, Espanha, Itália e Prússia. Suas vitórias tornaram-no um ídolo aos olhos de Beethoven.

Foi neste período que um Beethoven em amadurecimento compôs algumas de suas maiores obras. Sua magnífica 5ª sinfonia é cheia de referências à música da revolução. Na sua composição, Beethoven comenta que a sua sinfonia exprime as palavras escritas acerca do assassinato do líder revolucionário francês Jean-Paul Marat: "Juramos, de espada na mão, morrer pela república e pelos direitos humanos". Sua única ópera, Fidelio, conta a história de uma mulher solitária que libertou o marido, um prisioneiro político, de uma prisão espanhola (o cenário foi transferido da França por motivos políticos, motivos que incluíam seu ódio ao regime na Espanha).

Um espírito revolucionário move toda a Quinta [Sinfonia]. Os famosos compassos de abertura desta obra ( ouça ) são talvez a abertura mais marcante de qualquer obra musical da história. Por coincidência, eles são o equivalente musical do sinal em código Morse para "V" que significa vitória, usado para reunir o povo francês na luta contra os ocupantes alemães na 2ª Guerra Mundial. "Isto não é música; é agitação política. Está a dizer-nos: o mundo que temos não é bom. Vamos mudá-lo! Avante!" (Nikolaus Harnancourt, maestro).

Outro famoso maestro e musicólogo, John Elliot Gardener, descobriu que todos os temas principais das sinfonias de Beethoven são baseados em canções revolucionárias francesas. O "brado de alarme", "Marchons, marchons" de "La Marseillaise", o apelo da Revolução Francesa, ecoa nos acordes de abertura da sinfonia "Eroica". O Quinto Concerto para Piano ("Imperador") exala "energia militar". As passagens da trombeta em Fidelio ecoam aquelas no Messias de Handel que ocorrem sob a linha vocal "a trombeta soará ... e todos nós seremos transformados ".

Mas este grande período de energia musical foi cada vez mais prejudicado pela terrível e tormentosa doença de Beethoven, pois gradualmente foi ficando surdo, possivelmente com um tipo de meningite – a qual afectava sua audição. Isto começou quando ele tinha 28 anos e estava no auge da fama. Embora não tenha ficado completamente surdo até seus últimos anos, a consciência da sua condição deteriorada tornou-o imprevisível, deprimido e mesmo suicida.

Havia também uma deterioração na economia da Europa a partir de 1805, principiando com o bloqueio das conquistas francesas pelo poder naval britânico após a vitória da sua marinha em Trafalgar, criando uma crescente escassez de alimentos e produtos básicos. E Beethoven também estava deprimido com os acontecimentos políticos desse período. Ele havia dedicado sua 3ª sinfonia a Napoleão. Mas em 1802 a opinião de Beethoven sobre Napoleão começava a mudar. Numa carta a um amigo escrita naquele ano, escreveu indignado: "Tudo está a tentar deslizar outra vez para o velha padrão depois de Napoleão ter assinado a Concordata com o Papa". A admiração de Beethoven finalmente se transformou em ressentimento quando em 1804 Napoleão se proclamou imperador. Quando Beethoven recebeu a notícia destes acontecimentos, ele com furiosamente riscou sua dedicatória a Napoleão na partitura da sua nova sinfonia. O manuscrito ainda existe e pode-se ver que ele atacou a página com tal violência que nela abriu um buraco. Dedicou então a sinfonia a um herói anónimo da revolução: tornou-se a sinfonia Eroica.

O terceiro período da vida musical de Beethoven correspondeu a uma época de profunda reacção e a uma retracção chocante nas economias europeias. Com a derrota de Napoleão em 1815 e com as antigas monarquias restauradas na Europa, Beethoven estava em desespero, compondo pouco. Por toda a parte o pensamento progressista estava em recuo: os grandes poetas românticos da Inglaterra vitoriosa, Shelley e Byron, foram forçados ao exílio. Mary Shelley escreveu Frankenstein, um romance que se desespera com a superstição fanática e com o racismo, assim como com o antagonismo em relação ao industrialismo científico descontrolado da economia capitalista em ascensão. Isto era o fim do romantismo e da revolução e agora era a hora de gente como David Ricardo, mais ou menos da mesma idade de Beethoven, que em 1817 escreveu seus Princípios de Economia Política e Tributação, a obra definitiva da teoria económica burguesa, uma ode ao capitalismo.

Os anos 1816-19 foram terríveis para os povos da Europa, não muito diferentes deste ano da COVID em 2020. A economia europeia caiu num inverno permanente, tanto literal como economicamente. O ano de 1816 é conhecido como o 'Ano sem Verão' (também o Ano da Pobreza) [NR] devido a graves anormalidades climáticas que fizeram com que as temperaturas na Europa caíssem para mais intenso nível de frio já registado. Houve colheitas fracassadas. Isto resultou em grande escassez de alimentos. Na Alemanha, a crise foi severa. Os preços dos alimentos aumentaram drasticamente por toda a Europa. Embora os distúrbios fossem comuns em tempos de fome, os distúrbios por comida de 1816 e 1817 registaram os mais altos níveis de violência cívica desde a Revolução Francesa. Foi a pior fome da Europa continental no século XIX.

A sufocar na atmosfera reaccionária de Viena, e ansioso por qualquer mudança para melhor, Beethoven escreveu: "Enquanto os austríacos tiverem sua cerveja castanha e salsichas, eles nunca se revoltarão".

No entanto, a década final da vida de Beethoven, a partir de 1820, viu um renascimento na economia europeia, à medida que o modo de produção capitalista se espalhava e a indústria começava a impor-se numa Alemanha e Áustria predominantemente rurais. Na verdade, houve a primeira crise económica capitalista em 1825; e mais tarde os primeiros sinais de luta proletária que finalmente em 1830 levaram à restaurada derrubada da monarquia Bourbon em França e ao Reform Act de 1832 na Inglaterra, permitindo aos homens adultos em melhor situação o direito ao voto pela primeira vez.

E em 1824 Beethoven apresentou sua obra-prima final antes de morrer, em 1827. Beethoven estava há muito tempo a considerar a ideia de uma sinfonia coral e tomou como texto seu a Ode à Alegria do poeta alemão Schiller, que ele conhecia desde 1792 e fora publicada originalmente em 1785, tirada de uma canção báquica (drinking song) de republicanos alemães. Na verdade, Schiller originalmente considerara chamar a música de Ode à Liberdade (Freiheit), mas devido à enorme pressão das forças reaccionárias, ele mudou a palavra para Alegria (Freude). Estas palavras de Schiller tornaram-se a peça central da nona sinfonia (que agora é usada pela União Europeia como o seu hino). https://www.youtube.com/watch?v=Jo_-KoBiBG0

A nona sinfonia foi chamada de A Marselhesa da Humanidade. Beethoven revive o som do optimismo revolucionário. É a voz de um homem que se recusa a admitir a derrota, cuja cabeça permanece erguida na adversidade .

 [NR] O "Ano sem Verão" é atribuído à erupção do vulcão Mount Tambora, na actual Indonésia, em 1815.   Estima-se que tenha ejectado mais de 160 quilómetros cúbicos de material para a atmosfera.

Sobre o Autor:

Economista, autor de Engels 200 ;   The Long Depression ;   The Great Recession ;   Marx 200 - a review of Marx's economics 200 years after his birth ;   World In Crisis: Marxist Perspectives on Crash & Crisis

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O que não está a ser dito sobre a vacina da Pfizer contra o coronavírus

Por: F. William Engdahl


Bill Gates financia e promove activamente novas vacinas não testadas que supostamente nos manterão pelo menos algo protegidos de uma morte horrível pelo novo coronavírus e supostamente nos permitirão retomar uma vida um tanto "normal". A gigante farmacêutica Pfizer anunciou agora o que eles afirmam serem resultados espectaculares em testes humanos iniciais. Eles utilizam uma tecnologia experimental conhecida como edição de genes, especificamente edição de genes de mRNA, algo nunca antes utilizado em vacinas. Antes de nos apressarmos a sermos injectados na esperança de obter alguma imunidade, deveríamos saber mais acerca desta tecnologia experimental radical e da sua falta de precisão.

O mundo financeiro reagiu tempestuosamente em 9 de Novembro quando a gigante farmacêutica Pfizer e seu parceiro alemão, BioNTech, anunciaram num comunicado à imprensa da companhia que havia desenvolvido uma vacina para a Covid19 que era "90%" eficaz. O polémico chefe do NIAID nos Estados Unidos, Tony Fauci, apressou-se a saudar a notícia e a UE anunciou que havia comprado 300 milhões de doses da custosa nova vacina. Se acreditar em mercados financeiros, a pandemia é tudo menos história do passado.

Eventos suspeitos

No entanto, parece que Albert Bourla, o CEO da Pfizer, não compartilha confiança nas suas próprias afirmações. No dia em que sua companhia emitiu seu comunicado à imprensa sobre os propostos ensaios de vacinas, ele vendeu 62% das suas acções na Pfizer, lucrando milhões com o negócio. Ele deu a ordem de venda numa opção especial em Agosto a fim de que não aparecesse como "venda privilegiada" ("insider selling"), no entanto, ele também temporizou para que fosse logo após as eleições nos Estados Unidos e os grandes media declararem ilegitimamente Joe Biden como presidente eleito. Aparentemente Bourla tinha um conflito de interesses bastante claro quanto à temporização do seu comunicado à imprensa no mesmo dia .

Bourla mentiu e negou à imprensa que sua companhia houvesse recebido quaisquer fundos da Administração Trump para desenvolver a vacina quando foi divulgado que no Verão eles contrataram a entrega de 100 milhões de doses ao governo dos EUA. Além das acções suspeitas da Pfizer estava o facto de a empresa ter informado primeiro a equipe de Joe Biden ao invés das agências governamentais relevantes dos EUA.

Mas isto está longe de ser a única coisa alarmante sobre o tão alardeado anúncio da Pfizer.

O parceiro alemão

A Pfizer, famosa pelo seu Viagra e outros medicamentos, fez parceria com uma pequena companhia alemã de Mainz, a BioNTech, a qual desenvolveu a técnica radical do mRNA usada para produzir a nova vacina corona. A BioNTech foi fundada só em 2008. A BioNTech assinou um acordo com a Fundação Bill & Melinda Gates em Setembro de 2019, pouco antes do anúncio em Wuhan, China, do Novo Coronavírus e pouco antes de a BioNTech fazer sua estreia no mercado de acções. O acordo envolvia cooperação no desenvolvimento de novas técnicas de mRNA para tratar câncer e HIV. É curioso que o comunicado à imprensa, "A Fundação Gates vê o potencial da BioNTech para 'reduzir drasticamente o HIV e a tuberculose globais'", 05 de Setembro de 2019, agora tenha sido eliminado.

A BioNTech também tem um acordo com um dos maiores produtores de medicamentos na China, a Shanghai Fosun Pharmaceutical Co., Ltd ("Fosun Pharma") para desenvolver uma versão de sua vacina de mRNA para o novo coronavírus para o mercado chinês. Ai-Min Hui, presidente de P&D Global da Fosun Pharma, disse numa declaração de Agosto: "Dosar o primeiro sujeito chinês com BNT162b1 é um marco do programa de co-desenvolvimento global na China. Estamos a trabalhar em estreita colaboração com a BioNTech e as autoridades regulatórias para avaliar a segurança e eficácia do BNT162b1 e de outrs vacinas mRNA candidatas ..."

Isto significa que a mesma companhia alemã de biotecnologia está por trás das vacinas que estão a ser lançadas na China, bem como nos EUA e na UE. A vacina está a ser enviada às pressas para aprovação final num espaço de tempo alarmantemente curto.

Tanto as autoridades dos EUA como as da UE e, presumivelmente, também chinesas, dispensaram os testes padrão em animais usando furões ou ratos e foram directamente para "cobaias" humanas. Os testes em humanos começaram no final de Julho e início de Agosto. Três meses são inéditos para testar uma nova vacina. Vários anos são a norma. Devido ao grau de pânico global engendrado pela OMS em relação ao coronavírus, a cautela é jogada ao vento. Todos os fabricantes de vacinas têm imunidade legal, o que significa não poderem ser processados se pessoas morrerem ou ficarem aleijadas pela nova vacina. Mas o facto mais alarmante acerca da nova vacina Pfizer-BioNTech editada com gene é que o gene editado mRNA para aplicação de vacina humana nunca foi aprovado antes. Notavelmente, testes revistos por pares (peer reviewed) durante dois anos com ratos alimentados com milho geneticamente modificado pulverizado com o Roundup rico em glifosato da Monsanto mostraram pela primeira vez tumores cancerígenos após nove meses, bem como danos no fígado e outros órgãos. Os testes anteriores da companhia Monsanto terminaram aos três meses e não alegaram qualquer dano . Existe uma situação semelhante com as vacinas de mRNA editadas com o gene que estão a ser apressadas após menos de 90 dias de testes em humanos.

"Explicitamente experimental"

O Dr. Michael Yeadon respondeu num comentário público recente nos media sociais a um colega no Reino Unido: "Todas as vacinas contra o vírus SARS-COV-2 são, por definição, novas. Nenhuma vacina candidata esteve... em desenvolvimento por mais de alguns meses". Yeadon declarou então: "Se uma tal vacina for aprovada para utilização em quaisquer circunstâncias que não sejam EXPLICITAMENTE experimentais, acredito que os receptores estão a ser enganados de forma criminosa. Isto ocorre porque há exactamente zero voluntários humanos para ... os quais poderia haver mais do que alguns meses de informação sobre segurança em doses passadas".

Yeadon é bem qualificado para fazer a crítica. Como ele observa no comentário: "Tenho graduação em Bioquímica e Toxicologia e um PhD baseado em investigação em farmacologia. Passei 32 anos trabalhando em I&D farmacêutico, principalmente em novos medicamentos para doenças pulmonares e da pele. Fui vice-presidente da Pfizer & CEO…. de uma empresa biotecnologia que fundei (Ziarco – adquirida pela Novartis). Estou bem informado sobre I&D de novos medicamentos". Ele anteriormente estava na Pfizer num nível muito sénior.

Porquinhos-da-índia humanos?

A vacina Pfizer-BioNTech é experimental e longe de ser segura, apesar do facto de a Pfizer, a UE e o famoso Dr. Tony Fauci parecerem prontos para implementá-la antes do final do ano em centenas de milhões de humanos.

A tecnologia experimental é baseada numa manipulação de genes bastante nova, conhecida como edição de genes. Num artigo importante de 2018 na revista Foreign Affairs do New York Council on Foreign Relations, Bill Gates promoveu efusivamente a nova tecnologia CRISPR de edição de genes como sendo capaz de "transformar o desenvolvimento global". Ele observou que a sua Fundação Gates tinha estado a financiar desenvolvimentos na edição de genes para vacinas e outras aplicações há uma década .

Mas será a tecnologia para romper e juntar genes humanos tão absolutamente segura que vale a pena arriscar em uma nova vacina experimental nunca antes usada em humanos? Ao contrário do que afirma Bill Gates, a resposta científica é não, não está provado que seja seguro.

Num artigo revisto por pares na publicação Trends in Genetics, de Outubro de 2020, os autores concluem que "a gama de eventos possíveis moleculares resultantes da edição do genoma tem sido subestimada e a tecnologia permanece imprevisível no locus alvo e fora dele".

O Dr. Romeo Quijano, professor aposentado de Farmacologia e Toxicologia da Faculdade de Medicina da Universidade das Filipinas em Manilha, observou alguns dos perigos da edição experimental de genes quando aplicada a vacinas humanas. Quijano adverte do "perigo de que a vacina possa realmente "reforçar" a patogenicidade do vírus, ou torná-lo mais agressivo possivelmente devido ao reforço de anticorpos-dependentes (ADE), como aconteceu com estudos anteriores sobre vacinas de teste em animais. Se isso acontecesse num grande ensaio em humanos, o resultado poderia ser desastroso. Este grave efeito adverso pode nem mesmo ser detectado por um ensaio clínico, especialmente em ensaios clínicos altamente tendenciosos e carregados de conflitos de interesse envolvendo companhias de vacinas. Mesmo quando um evento adverso grave é detectado, isso geralmente é varrido para debaixo do tapete". Ele cita o caso de outra vacina candidata de mRNA de Gates, a Moderna, onde "três dos 15 sujeitos experimentais humanos no grupo de alta dose sofreram sintomas graves e clinicamente significativos". A Moderna, no entanto, concluiu que a vacina era "geralmente segura e bem tolerada", o que os media dominados pelas corporações obedientemente relataram, encobrindo o perigo real ... "

Ele observa: "O mRNA exógeno é inerentemente imunoestimulante e esta característica do mRNA pode ser benéfica ou prejudicial. Pode fornecer actividade adjuvante e pode inibir a expressão do antígeno e afectar negativamente a resposta imune. Os efeitos paradoxais do sensor imune inato em diferentes formatos de vacinas de mRNA não são completamente compreendidos". Quijano acrescenta: "Uma vacina baseada em mRNA também poderia induzir respostas potentes de interferon tipo I, as quais têm sido associadas não apenas com a inflamação mas também potencialmente com a autoimunidade... e pode promover a coagulação do sangue e a formação de trombos patológicos".

Quijano escreve no seu artigo amplamente documentado: "entre outros perigos, as vacinas vectoriais (virus-vectored) de vírus podem sofrer recombinação com vírus de ocorrência natural e produzir vírus híbridos que podem ter propriedades indesejáveis afectando a transmissão ou virulência. Os ... possíveis resultados da recombinação são praticamente impossíveis de quantificar com precisão, dadas as ferramentas e conhecimentos existentes. Os riscos, contudo, são reais, como exemplificado pelo surgimento de tipos mutantes de vírus, patogenicidade aumentada e eventos adversos sérios inesperados (incluindo morte) após campanhas de vacinação em massa aleatórias e anteriores tentativas fracassadas de desenvolver vacinas quiméricas usando tecnologia de engenharia genética ".

Bill Gates, os fabricantes de vacinas mRNA, incluindo Pfizer/BioNTech e Moderna, e seus aliados próximos, como o Dr. Tony Fauci do NIAID, estão claramente a brincar com vidas humanas na sua pressa para colocar estas vacinas experimentais dentro dos nossos corpos. Notavelmente, o mesmo Dr. Fauci e seu NIAID possuem a patente de uma vacina para a febre do dengue conhecida como Dengvaxia, comercializada pela Sanofi-Pasteur e promovida como uma vacina "essencial" pela Tedros da OMS desde 2016. Robert F. Kennedy Jr. observaram que Fauci e NIAID "sabiam, por meio de testes clínicos, que havia um problema com a resposta imunológica paradoxal", mas mesmo assim deram-na a centenas de milhares de crianças filipinas. Estima-se que cerca de 600 crianças vacinadas morreram antes de o governo interromper as vacinações .

Claramente, o bem estabelecido Princípio da Precaução – se tiver sérias dúvidas, não o faça – está a ser ignorado por Fauci, Pfizer/BioNTech e outros na pressa para aprovar a nova vacina de mRNA para coronavírus. A tecnologia do RNA mensageiro ainda não produziu um medicamento aprovado, muito menos uma vacina.

13/Dezembro/2020

Consultor de risco estratégico, licenciado pela Universidade de Princeton.   Os seus livros estão aqui .

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O vírus mais letal não é o Covid-19 — é a guerra

O Covid-19 está a dar cobertura a uma pandemia de propaganda, afirma Pilger

Por: John Pilger 



O Memorial das Forças Armadas britânicas é um lugar silencioso, fantasmagórico. Localizado na beleza rural de Staffordshire, num arvoredo de umas 30 mil árvores e relvados envolventes, suas figura homéricas celebram determinação e sacrifício.

Os nomes de mais de 16 mil soldados britânicos estão ali listados. A literatura diz que "morreram no teatro de operações ou foram alvos de terroristas".

No dia em que estive ali, um pedreiro estava a acrescentar novos nomes àqueles que haviam morrido em cerca de 50 operações por todo o mundo durante o período que é conhecido como "tempo de paz". Malásia, Irlanda, Quénia, Hong Kong, Líbia, Iraque, Palestina e muitos mais, incluindo operações secretas tais como as da Indochina.

Nem um ano se passou desde que foi declarada a paz em 1945 sem que a Grã-Bretanha tivesse enviado forças militares para combater as guerras do império.

Nem um ano se passou em que países, sobretudo pobres e dilacerados por conflito, não houvessem comprado ou recebido mediante empréstimos em condições preferenciais armas britânicas para promover as guerras, ou "interesses", do império.

Império? Que império? O jornalista investigativo Phil Miller revelou recentemente em Declassified que a Grã-Bretanha de Boris Johnson mantinha 145 sítios militares – chame-os bases – em 42 países. Johnson jactou-se de que a Grã-Bretanha é "o principal poder naval na Europa".

Em meio à maior emergência sanitária dos tempos modernos, com mais de 4 milhões de procedimentos cirúrgicos adiados pelo Serviço Nacional de Saúde, Johnson anunciou um aumento recorde de £16,5 mil milhões [€18,1 mil milhões] nos assim chamados gastos de defesa – um número que recuperaria muitas vezes o sub-financiado SNS.

Mas estes milhares de milhões não são para defesa. A Grã-Bretanha não tem inimigos além daqueles internos que traem a confiança das suas pessoas comuns, seus enfermeiros e médicos, seus cuidadores, idosos, sem abrigo e jovens, como têm feito sucessivos governos neoliberais, Conservadores e Trabalhistas.

Ao explorar a serenidade do Memorial Nacional da Guerra logo percebi que ali não havia um único monumento, ou plinto, ou placa, ou rosal honrando a memória das vítimas da Grã-Bretanha – os civis nas operações em "tempo de paz" comemoradas aqui.

Homenagem aos portadores de feridos.Não há lembrança dos líbios mortos quando o seu país foi deliberadamente destruído pelo primeiro-ministro David Cameron e seu colaboradores em Paris e Washington.

Não há uma palavra de lamento pelas mulheres e crianças sérvias mortas pelas bombas britânicas, lançadas de uma altura segura sobre escolas, fábricas, pontes, cidades, sob as ordens de Tony Blair; ou pelas empobrecidas crianças iemenitas aniquiladas por pilotos sauditas com a sua logística e alvos fornecidos pelos britânicos na segurança do ar condicionado de Riad; ou pelos sírios esfaimados pelas "sanções".

Não há qualquer monumento para as crianças palestinas assassinadas com a conivência permanente da elite britânica, tal como a recente campanha que destruiu um modesto movimento de reforma dentro do Partido Trabalhista com acusações especiosas de anti-semitismo.

Duas semanas atrás, o chefe do estado-maior militar de Israel e o chefe da Defesa da Grã-Bretanha assinaram um acordo para "formalizar e reforçar" a cooperação militar. Isto não foi notícia. Mais armas britânicas e apoio logístico agora serão despejados no regime fora da lei de Tel Aviv, cujos atiradores de elite alvejam crianças e psicopatas interrogam crianças em isolamento extremo. (Ver a recente reportagem chocante de Defense for Children, Isolated and Alone ).

Talvez a mais gritante omissão no memorial de guerra de Staffordshire seja um reconhecimento dos milhões de iraquianos cujas vidas e cujo país foram destruídos pela invasão ilegal de Blair e Bush em 2003.

ORB, membro do British Polling Council, estabeleceu o número em 1,2 milhão. Em 2013, a organização ComRes perguntou a uma amostragem do público britânico quantos iraquianos haviam morrido na invasão. Uma grande maioria disse que menos de 10 mil.

Como se sustenta um silêncio tão letal numa sociedade refinada? A minha resposta é que a propaganda é muito mais eficaz em sociedades que se consideram livres do que em ditaduras e autocracias. Incluo a censura por omissão.

As nossas indústrias de propaganda – tanto políticas como culturais, incluindo a maior parte dos meios de comunicação social – são as mais poderosas, omnipresentes e refinadas do mundo. Grandes mentiras podem ser repetidas incessantemente nas vozes reconfortantes e críveis da BBC. As omissões não são um problema.

Uma questão semelhante diz respeito à guerra nuclear, cuja ameaça é "sem interesse", para citar Harold Pinter. A Rússia, uma potência nuclear, é cercada pelo grupo belicista conhecido como NATO, com tropas britânicas a "manobrar" regularmente até à fronteira invadida por Hitler.

A difamação de tudo o que é russo, não minmizando a verdade histórica de que o Exército Vermelho venceu amplamente a Segunda Guerra Mundial, está infiltrada na consciência pública. Os russos não têm "nenhum interesse", excepto como demónios.

Escultura de Ian Rank-Broadley.A China, também uma potência nuclear, aguenta o fardo da provocação incessante, com bombardeiros e drones estratégicos americanos a sondar constantemente o seu espaço territorial e – hurra – o HMS Queen Elizabeth, porta-aviões britânico de £3 mil milhões, a zarpar em breve para uma viagem de 6.500 milhas [10.459 km] a fim de impor a "liberdade de navegação" aos chineses do continente.

Cerca de 400 bases americanas circundam a China, "um pouco como um laço", disse-me um antigo planeador do Pentágono. Estas estendem-se desde a Austrália, através do Pacífico até ao sul e norte da Ásia e através da Eurásia.

Na Coreia do Sul, um sistema de mísseis conhecido como Terminal de Defesa Aérea de Alta Altitude (Terminal High Altitude Air Defense, THAAD), é apontado à queima-roupa para a China através do estreito Mar da China Oriental. Imagine mísseis chineses no México ou no Canadá ou ao largo da costa da Califórnia.

Alguns anos após a invasão do Iraque fiz um filme chamado The War You Don't See, no qual perguntei a importantes jornalistas americanos e britânicos, bem como a executivos de noticiários televisivos – pessoas que conhecia como colegas – porquê e como Bush e Blair foram autorizados a escapar ao grande crime no Iraque, considerando que as suas mentiras não eram muito brilhantes.

As suas respostas surpreenderam-me. Tivéssemos "nós", disseram eles – isto é, jornalistas e emissoras, especialmente nos EUA – desafiado as afirmações da Casa Branca e da Downing Street, investigado e revelado as mentiras, ao invés de as amplificar e reflecti-las, a invasão do Iraque em 2003 provavelmente não teria acontecido. Inúmeras pessoas estariam vivas hoje em dia. Quatro milhões de refugiados não teriam fugido. O pavoroso ISIS, um produto da invasão de Blair/Bush, poderia não ter sido concebido.

David Rose, então com o Observer de Londres, o qual apoiou a invasão, descreveu "o pacote de mentiras que me foi alimentado por uma campanha de desinformação bastante sofisticada". Rageh Omah, então o homem da BBC no Iraque, disse-me: "Falhamos em pressionar os botões mais desconfortáveis com força suficiente". Dan Rather, o apresentador da CBS, concordou, tal como muitos outros.

Admirei estes jornalistas que romperam o silêncio. Mas eles são honrosas excepções. Hoje, os tambores da guerra têm novos e altamente entusiásticos rufadores na Grã-Bretanha, na América e no "Ocidente".

Faça a sua escolha entre a legião de caluniadores da Rússia e da China e de promotores de ficções tal como o Russiagate. O meu Óscar pessoal vai para Peter Hartcher de The Sydney Morning Herald, cujo incessante alarido sobre a "ameaça existencial" (da China/Rússia, principalmente da China) foi ilustrado por um sorridente Scott Morrison, o RP que é o primeiro-ministro da Austrália, vestido como Churchill, com V de Vitória e tudo. "Não desde os anos 30 ....", a dupla entoou. Ad nauseum.

Covid tem proporcionado cobertura para esta pandemia de propaganda. Em Julho, Morrison tomou a sugestão de Trump e anunciou que a Austrália, que não tem inimigos, gastaria 270 mil milhões de dólares australianos [€167 mil milhões] em provocações, incluindo mísseis que poderiam atingir a China.

Que as compras da China de minerais e produtos agrícolas australianos tenham efectivamente protegido a economia da Austrália não foi "de interesse" para o governo de Camberra.

Os meios de comunicação australianos aplaudiram quase unanimemente, enviando uma chuva de insultos à China. Milhares de estudantes chineses, que haviam garantido os salários brutos de vice-chanceleres australianos, foram aconselhados pelo seu governo a irem para outro lado. Chineses-australianos foram insultados e entregadores foram agredidos. O racismo colonial nunca é difícil de ressuscitar.

Alguns anos atrás entrevistei o antigo responsável da CIA na América Latina, Duane Claridge. Em algumas palavras agradavelmente honestas, ele resumiu a política externa "ocidental" tal como é ordenada e dirigida por Washington. 

A superpotência, disse ele, podia fazer o que quisesse onde quisesse sempre que os seus "interesses estratégicos" o ditassem. As suas palavras foram: "Habitua-te a isto, mundo".

Relatei uma série de guerras. Vi os restos de crianças, mulheres e idosos bombardeados e queimados até à morte: as suas aldeias devastadas, as suas árvores engrinaldadas com partes humanas. E muito mais.

Talvez seja por isso que reservo um desprezo específico por aqueles que promovem o crime da guerra predadora, que a acenam com má fé e profanidades, nunca a tendo experimentado eles próprios. O seu monopólio deve ser rompido.


Sobre o autor

Jornalista e director de cinema, australiano-britânico. Seu sítio web é: www.johnpilger.com . Este artigo é uma versão do discurso proferido na campanha de fundos Stop the War, Artists Speak Out, em Londres.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O tratamento infligido a Assange é um teste decisivo para o futuro do jornalismo e da liberdade de expressão

Mas os media portugueses, assim como as organizações de jornalistas, estão calados como ratos

Por: Günter Wallraff

entrevistado por Arne Roth



Arne Ruth: Primeiro, diga-nos como e quando decidiu apoiar activamente Julian Assange?

 

Gunter Wallraff: Foi um artigo do famoso semanário Die Zeit que me fez reagir. Percebi que este não era apenas mais um exemplo de uma série de violações internacionais da justiça. Consegui obter uma centena de assinaturas a favor de um recurso e fizemos publicar o apelo como anúncio de página inteira no jornal mais influente da Alemanha, o Frankfurter Allgemeiner, que é em geral um jornal conservador. Mas obtivemos uma redução do preço do anúncio – pagámos apenas um terço do preço normal. E tínhamos na nossa lista nomes de políticos proeminentes, incluindo um ex-ministro das Finanças, um secretário de Estado e o líder do partido ecologista Os Verdes. Estas três pessoas participaram numa entrevista coletiva quando lançámos o apelo. Também havia figuras culturais proeminentes e jornalistas entre os signatários. Isto permitiu um avanço do movimento em defesa de Julian Assange.

 

AR: Quando soube de sua iniciativa, contactei-o. Queríamos criar um movimento semelhante na Suécia, criticando fortemente o governo sueco. Em menos de uma semana, o recolhemos 72 assinaturas e mais de 3 000 pessoas assinaram o apelo no nosso site. Mas não obtivemos absolutamente nenhuma reação ao nosso pedido. O governo permaneceu em silêncio e os media suecos optaram também pelo silêncio, tanto em relação ao apelo quanto ao silêncio do governo.

 

GW: Antes de nossa iniciativa, quase não havia na Alemanha cobertura mediática sobre Assange. Quando era mencionado, isso consistia em comentários condescendentes e em questionamentos sobre as suas motivações. Ele estava destinado a ser silenciado até a morte. Porém, quando apresentámos os factos do caso, as opiniões mudaram. Conseguimos mudar a opinião pública. Do meu ponto de vista, a Suécia ainda está presa à situação em que estávamos na Alemanha no início deste ano. O que está a acontecer é como uma vingança pessoal das forças judiciais suecas. Assange tornou-se um bode expiatório.

 

É incompreensível que tal declínio possa ocorrer numa democracia como a da Suécia. Quando, após as minhas divulgações, fui ameaçado pelo sistema de justiça alemão, sempre pude contar com o apoio da Suécia. A sociedade sueca era um modelo de democracia. A Suécia defendeu princípios internacionais de justiça. E não era apenas na teoria. Teve um primeiro-ministro que ousou falar a verdade sobre a Guerra do Vietname. A posição de Olof Palme chamou a atenção do mundo. Ele encarnava os princípios da justiça global. Tudo isso, creio, foi revertido, tanto na teoria quanto na prática.

 

O relator das Nações Unidas sobre tortura, Professor Nils Melzer, examinou documentos legais relacionados com Assange nos arquivos suecos. Ele é fluente em sueco. A sua conclusão é que as autoridades suecas lançaram uma acusação de estupro sem base legal. Seria de esperar que uma acusação tão explosiva chamasse a atenção na Suécia. Mas o governo sueco ignorou-o e os media suecos não reagiram tanto às conclusões de Melzer como à decisão do governo sueco de as ignorar. Para mim, este comportamento é indefensável. O professor Melzer é uma testemunha chave de toda a injustiça sistemática infligida a Assange. Quando o visitou na prisão em Londres, juntamente com dois psicólogos especializados em tortura, suas críticas permitiram um progresso a nível internacional.

 

AR: Como avalia as consequências da cultura de silêncio na Suécia?

 

GW: O tratamento dado a Assange pode ser visto como um teste decisivo para o futuro do jornalismo e da liberdade de expressão. É uma perspectiva assustadora. O professor Nils Melzer qualifica o actual tratamento de Assange na prisão de Belmarsh como "uma forma deliberada de tortura psicológica". Os presos comuns, incluindo os condenados por assassinato, podem receber filhos e membros de suas famílias. Podem ter conversas confidenciais com seus advogados. Tudo isto é negado a Assange. Deliberadamente criam dificuldades para a sua existência diária. Querem deixá-lo desesperado por uma forma consciente de desorientação. A intensidade das violações aumenta constantemente. Assange está impedido de participar no seu julgamento em condições normais. No tribunal, é colocado atrás de uma parede de vidro, quase como um animal a ser observado, separado das pessoas. Fica isolado 23 horas por dia. Ele nem consegue abraçar os seus próprios filhos. Foi-lhe negado qualquer contacto com os seus advogados durante seis meses. Tudo foi feito para privá-lo da sua dignidade e despedaçá-lo como ser humano.

 

Ele merece ser chamado de mártir. Mas um mártir não precisa ser um santo. Assange teve problemas na sua vida emocional, mas foi capaz de superar as dificuldades e apresentar-se como uma pessoa saudável. Merece todo o nosso apoio. Mas o nosso apoio também deve ser politicamente orientado. Não devemos fechar os olhos à responsabilidade política daqueles que o acusaram de transgressão. Se ele for extraditado para os Estados Unidos, todos os valores democráticos serão também extraditados. As consequências afetar-nos-iam, não importa onde vivamos. A erosão internacional dos princípios de justiça está a aumentar. Se for entregue aos Estados Unidos a partir de Londres, isso significaria o colapso de qualquer credibilidade ligada à estrutura judicial britânica. Neste caso, seria de facto a aplicação da pena de morte. O distrito da Virgínia, onde o tribunal dos EUA está localizado, é também o local onde se centram a maioria dos serviços secretos dos EUA. Todos os que lá foram julgados até agora foram condenados de acordo com um plano pré-determinado. A maioria dos membros do júri, senão todos, é escolhida entre uma população de agentes da CIA.

 

AR: Comparando os vossos próprios métodos de trabalho com os de Assange, vê algumas semelhanças e diferenças?

 

GW – Eu trabalhei de uma maneira diferente, numa época completamente diferente. Os meus métodos de trabalho também são diferentes. O que eu exibo, devo primeiro experimentar internamente e em mim mesmo. Para Assange, o Wikileaks é uma rede em que se pode penetrar para obter uma visão geral do problema. No meu caso, quando entrei nas estruturas de poder que queria inspecionar, mantive-me nas margens externas. Tive o apoio daqueles que estavam mais envolvidos no sistema. Ajudaram-me a pesquisar os abusos de poder que aconteciam.

 

Além do meu apoio a Assange, gostaria de expressar o meu profundo respeito por Chelsea Manning. Ambos vivem com o fardo da condenação constante. Manning certamente merece o Prémio Nobel da Paz. Carl von Ossietzky, o jornalista que expôs o rearmamento de Hitler, recebeu o Prémio da Paz em 1935. Foi uma declaração política importante. Não quero comparar os Estados Unidos com a Alemanha dos anos 1930, mas devemos ter em mente que nos EUA existe um "Estado dentro do Estado": os seus serviços secretos, que estendem os seus tentáculos de uma maneira que nenhum de nós pode prever. Acrescente-se a isto o facto de um presidente ainda mais imprevisível, que chama a todas as críticas políticas "notícias falsas". É inevitável que tal estrutura de poder, por si só, recorra a métodos de terror. Isso inclui a manipulação de jornalistas. O objectivo é que a definição de "segurança nacional" de Washington influencie as estruturas de poder de todos os outros Estados.

 

Carl von Ossietzky formulou um slogan moral que deve abrir os nossos olhos em relação a Julian Assange e Chelsea Manning: "Não podemos depender da consciência do mundo quando nossa própria consciência está adormecida". Assange e Manning foram motivados pelo que fizeram pelas suas consciências. O Wikileaks publicou informações sobre crimes de guerra da pior espécie possível. Como num jogo de computador, vemos pessoas reais a serem massacradas e como os assassinos expressam a sua malícia com gritos contínuos de alegria. Crianças ficam gravemente feridas. Tudo isto é descrito com detalhes. Mas os criminosos de guerra não sofrem consequências pelas suas acções. Não têm responsabilidade pessoal. Precisamos de novos meios de comunicação que informem sistematicamente dos crimes de guerra e devemos criar uma opinião transnacional que garanta que os responsáveis sejam levados à justiça. O caso de Julian Assange não é apenas sobre justiça, culpa ou inocência. Os serviços secretos dos EUA visam exercer um poder mundial. Eles querem ser capazes de controlar todos nós. Devemos criar contra-forças democráticas que não estejam restringidas por percepções nacionais de justiça do tipo alemão ou sueco. Se os princípios democráticos devem ter uma hipótese de sobreviver, deveríamos promover os movimentos plurinacionais. Devemos encontrar aliados, mesmo entre políticos activos. Eu acredito nessa possibilidade.

Sobre o autor: Jornalista investigativo e escritor , alemão.   É o autor de A descoberta de uma conspiração: a acção Spínola , editado em 1976 pela Bertrand (o livro pode ser encontrado em alfarrabistas).


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Crise e predação: Índia, COVID e finança global

 – A escolha colocada, uma vez mais, pela crise do COVID-19:  continuar a subordinação às finanças globais ou seguir um rumo de desenvolvimento nacional democrático

 

Por: RUPE 

 

 

A obra Crise e predação: Índia, COVID e finança global destaca os seguintes pontos:

1. Mesmo antes de ocorrer a crise do COVID-19, a economia da Índia estava em depressão. A condição das grandes massas populares, particularmente as do sector informal, era grave.

2. Em resposta ao COVID-19, o governo indiano impôs as medidas de bloqueio mais rigorosas do mundo. Dado o carácter da economia da Índia, isso teve um impacto particularmente grave para a maioria das pessoas.

3. Ao mesmo tempo, o governo despendeu escassas verbas para amortecer o impacto dessas medidas nas pessoas. Em comparação com outros governos, o governo indiano proporcionou apenas despesas adicionais das mais baixas (em percentagem do PIB) a nível mundial. Embora algumas despesas adicionais possam ocorrer nos próximos meses, já está claro que o valor final será terrivelmente baixo. A actual expansão orçamental pode ser de apenas 1% do PIB para o ano fiscal a fechar em Março de 2021, em comparação com 3% do PIB após a Grande Crise Financeira de 2007-09. Porém a crise na economia real agora é muito, muito maior do que a da Grande Crise Financeira.

4. Esta extraordinária falta de firmeza decorre do facto subjacente aos interesses financeiros globais de que se opõem explicitamente a qualquer expansão considerável dos gastos do governo na Índia, pelas razões descritas neste livro. As finanças globais estão em posição de ditar isso porque os governos de todos os matizes, ao longo dos anos, tornaram o país dependente de fluxos de capital estrangeiro. As reservas de moeda estrangeira da Índia, embora aparentemente amplas, foram acumuladas por meio de empréstimos e investimentos voláteis estrangeiros. Dada esta dependência, os governantes da Índia renunciam a qualquer aumento considerável das despesas do Estado. Temem que tal aumento provoque um abaixamento da notação das agências de classificação (rating) baseadas nos EUA, resultando numa saída dos investimentos estrangeiros, uma quebra do mercado de acções e uma queda do valor da rupia. Assim, os legisladores indianos estão empenhados em atrair e reter fluxos de capital estrangeiro, mesmo quando há grandes excedentes no fluxo de capitais.

5. Em resposta à crise actual, o governo depara-se com uma escolha. Em teoria, poderia desafiar a pressão das finanças globais e atender às necessidades básicas de seu povo (um objectivo que está ao alcance da actual capacidade material da Índia). No entanto, isso exigiria impor um controlo sobre os fluxos desestabilizadores de capital estrangeiro e a preparação para renunciar a esses fluxos de capital estrangeiro no futuro, com tudo o que isso implica, a fim de se seguir uma via de desenvolvimento nacional democrático. Para isso, os governantes precisariam do que inerentemente lhes falta, dada as suas próprias bases classistas, a saber, uma visão positiva do desenvolvimento nacional democrático e uma aliança de classes para realizá-lo. A outra opção é submeter-se ao regime de financiamento externo, aguardando os sinais de quanto pode gastar nas diferentes conjunturas, desistindo de qualquer pretensão de soberania económica.

6. Os governantes da Índia aderiram a esta última opção. Agora, ansiosos para reforçar as participações em moeda estrangeira e tranquilizar os investidores estrangeiros sobre os seus créditos, tentam atrair investimentos estrangeiros para a dívida pública, com consequências potencialmente graves. Os governantes também apelaram aos Estados Unidos para ajudar a lidar com a crise cambial por meio do fornecimento de "linhas swap". Se os Estados Unidos estendessem essa ajuda, seria necessário um quid pro quo na forma de subordinação mais completa. Quer esses investimentos e ajuda se materializem ou não, o país está torna-se ainda mais vulnerável a fluxos voláteis, criando assim o cenário para novas crises e pressões.

7. A crise económica e política internacional foi acentuada com o COVID-19. Os Estados Unidos e seus aliados usaram o surgimento do COVID-19 para atingir a China por motivos que nada têm a ver com o vírus. A actual crise internacional também fez com que os governantes da Índia se aproximassem ainda mais dos Estados Unidos, integrando a Índia na estratégia de hegemonia global. Isso agravou muito as disputas não resolvidas e as tensões entre a Índia e a China, desencadeando um confronto de fronteira que terá consequências negativas de longo alcance para o povo indiano, ao mesmo tempo que se coloca ao serviço dos interesses dos EUA.

8. A actual contenção de despesas do governo face a uma depressão sem precedentes está a resultar em enormes dificuldades, que por sua vez podem dar origem a distúrbios e ondas de revolta. As acções dos governantes contra oponentes políticos e activistas de movimentos populares têm sido preventivas, punitivas e severas. À medida que a situação se desenvolve, as condições de emergência prevalecentes permitem o uso mais desenfreado de métodos repressivos e divisionistas – como depender das forças de segurança, vigilância do Estado, deter de activistas políticos e pessoas democráticas, aumento da propaganda e censura dos media independentes – em nome de controle da pandemia.

9. Estas condições impõem com mais urgência do que nunca a escolha delineada anteriormente: resignar-se a uma maior subordinação da economia e das vidas das pessoas às finanças globais, ou seguir a via do desenvolvimento nacional democrático

Conteúdo
1 - A escolha colocada mais uma vez pela crise do COVID-19
2 - A crise antes do COVID-19
3 - O impacto do confinamento nas condições da Índia
     Referência: O subfinanciamento da saúde pública
4 - O que explica a recusa do governo quanto à despesa?
     Referência: As reservas cambiais da Índia:   que protecção oferecem contra uma saída repentina de capital estrangeiro?
5 - Por que motivo os investidores estrangeiros se opõem aos gastos do governo?
     Referência: A crise financeira como oportunidade para investidores estrangeiros
6 - Aprofundando a dependência e a incerteza
     Referência: O falso argumento para justificar o desejo de investimento estrangeiro na dívida do governo
7 - Índia, COVID-19, Estados Unidos e China
8 - A economia da Índia e o caminho pela frente

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O tsunami de dívidas que ameaça o sistema

 Crise do coronavírus poupou os grandes bancos e corporações. Para socorrê-las, Estados criaram, do nada, avalanche de dinheiro. Mas deixaram de fora populações e pequenas empresas. Ambas podem ser o novo espantalho do capitalismo.

Por: Michael Roberts

 

A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a recessão no ciclo capitalista e os impactos recessivos na produção e no investimento são frequentemente desencadeados por um crash financeiro, seja no sistema bancário (como na Grande Recessão de 2008-9) seja na esfera do capital fictício, isto é, no mundo das ações e dos títulos (como em 1929 ou 2001).

Claro, a causa subjacente de tais quedas regulares e recorrentes reside nos movimentos na lucratividade do capital, tal como foi discutido ad nauseam 
neste blog . Esta é a causa "última". Mas as causas "próximas" podem ser diferentes. E nem sempre são de origem "financeira". A primeira queda global simultânea no pós-guerra, ocorrida em 1974-5, foi desencadeada por um forte aumento nos preços do petróleo, após a guerra árabe-israelense; a recessão de duplo mergulho de 1980-2 teve origens semelhantes. A recessão de 1991-2, igualmente, seguiu-se à Guerra do Golfo de 1990.

A crise produzida pela pandemia do coronavírus também tem uma causa "próxima" distinta. Em certo sentido, essa queda global sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou por causa de um "evento exógeno", ou seja, a propagação de um vírus mortal. Mas, como tem sido argumentado por ecologistas, mas também neste blog, a busca voraz por lucros por parte de empresas capitalistas na exploração de combustíveis fósseis, extração de madeira, mineração e expansão urbana, sem consideração pela natureza, criou as condições para o surgimento de uma sucessão de doenças mortais; ligadas a patógenos para os quais o corpo humano não tinha resistência e imunidade. Nesse sentido, a crise não foi "exógena".

Mas, as quedas na produção, no comércio, no investimento e no emprego mundiais que se seguiram à difusão do vírus não começaram com um colapso financeiro ou com uma queda abrupta no mercado de ações. Não foram eles, portanto, que levaram ao colapso do investimento, da produção e do emprego. Aconteceu o contrário. Houve um colapso na produção e no comércio, forçado ou imposto por bloqueios provocados pela pandemia, que então levaram a uma enorme queda nas receitas, gastos e comércio. Assim, a queda começou com um "choque exógeno" aparente; ela ocorreu, depois, porque os bloqueios geraram um "choque de oferta" seguindo de um "choque de demanda".

Até agora, porém, não ocorreu um "choque financeiro". Pelo contrário, os mercados de ações e títulos dos principais países estão em níveis recordes. O motivo é claro. A resposta das principais instituições monetárias nacionais e governos foi injetar milhões de milhões de massa monetária, ou seja, crédito, em suas economias para fortalecer os bancos, as grandes e as pequenas empresas; bem como pagar cheques para milhões de trabalhadores desempregados e/ou despedidos. O tamanho dessa "generosidade", financiada pela "criação" de dinheiro pelos bancos centrais, não tem precedentes na história do capitalismo moderno.

Isso significa que, ao contrário da situação no início da Grande Recessão, os bancos e as principais instituições financeiras estão longe de entrar em colapso. Os balanços dos bancos estão mais fortes do que antes da pandemia. Os lucros financeiros aumentaram. Os depósitos bancários dispararam à medida que os bancos centrais aumentam as reservas dos bancos comerciais e as empresas e famílias acumulam dinheiro na forma da poupança; dado que o investimento se reduziu e as famílias passaram a gastar menos.

De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as taxas de poupança das famílias aumentaram entre 10 e 20 pontos percentuais durante a pandemia. Os depósitos das famílias nos bancos dispararam. Da mesma forma, as reservas de caixa das empresas não financeiras aumentaram à medida que as empresas tomam empréstimos – baratos ou sem juros – garantidos pelo governo, ou que as empresas maiores emitiram ainda mais títulos, todos incentivados e financiados por programas patrocinados pelo Estado. Os impostos também foram diferidos conforme as empresas foram sendo bloqueadas e se adotou uma espécie de purdah 
[NT] , novamente acumulando ainda mais caixa. Os diferimentos de impostos equivalem a 13% do PIB na Itália e 5% do PIB no Japão, de acordo com a OCDE.

De fato, os últimos dados das corporações (terceiro quarto de 2020) nos EUA mostraram um aumento acentuado dos lucros, quase inteiramente devido a empréstimos e subsídios do governo. Estes impulsionaram o fluxo de caixa junto com uma queda nos impostos sobre vendas e produção conforme as empresas pararam os seus negócios. Os lucros corporativos aumentaram US$495 mil milhões no terceiro trimestre, em contraste com uma redução de US$209 mil milhões no segundo trimestre.

O órgão que publica as estatísticas do governo norte-americano explica: "os lucros corporativos e a renda dos proprietários foram em parte reforçados por provisões de programas criados pelo governo federal em resposta à pandemia, tal como o programa de proteção aos salários, o diferimento dos pagamentos de impostos, os créditos fiscais para retenção de funcionários, as licenças médicas pagas etc., que forneceram apoio financeiro às empresas e pessoas afetadas pela pandemia no segundo e terceiro trimestres."

Assim, cerca de US$1,5 milhão de milhões de subsídios e empréstimos do governo dos Estados Unidos foram usados para subsidiar empresas americanas durante a pandemia. Portanto, os lucros corporativos têm sido sustentados pela intervenção do governo – ao custo de níveis sem precedentes de déficits orçamentários do governo e de enormes aumentos na dívida do setor público.

A esperança agora é que, à medida que as vacinas fiquem prontas e sejam distribuídas durante 2021, e que o isolamento social termine, a economia mundial se recupere, de tal modo que o aumento da poupança familiar e dos lucros corporativos sejam disponibilizados para atender a uma demanda "reprimida". Assim, a locomotiva da economia capitalista voltaria a andar celeremente. Os gastos do consumidor voltariam, as pessoas retomariam as viagens, o turismo internacional se expandiria, inclusive com a volta dos eventos de massa. Diante desse quadro, as empresas se lançariam numa espiral de investimentos.

A OCDE é menos otimista em relação a esse cenário. Ela está preocupada com o fato de que grande parte do aumento na poupança pessoal veio dos ricos, ao quais tendem a gastar menos como porcentagem de sua renda (porque eles simplesmente têm muito!). O conjunto das famílias médias não acumulou poupanças seja nas principais economias seja nas economias capitalistas menos desenvolvidas. Pelo contrário, aumentaram os seus níveis de endividamento durante a pandemia. Além disso, com o provável fim, em 2021 dos cheques de pagamento do Estado e de outros apoios, a situação da família média pode muito bem se deteriorar. Essas desigualdades também se aplicam ao setor corporativo. A OCDE avalia que a maior parte do apoio governamental na forma de empréstimos e de doações foi canalizado para as empresas maiores, especialmente no setor de tecnologia – um setor, aliás, menos atingido pela crise.

Portanto, encontra-se aqui o elo mais fraco da matriz de inter-relações capitalistas. Eis o lugar provável em que emergirá o terceiro elemento da crise pandêmica – uma crise de crédito seguida de colapso financeiro à medida em que as empresas, especialmente as pequenas e médias empresas começarem a quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos salários aumentam.

O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) relatou recentemente que a proporção da dívida global em relação ao produto interno bruto aumentará de 320%, em 2019, para um recorde de 365%, em 2020. O IIF conclui o seu relatório com um forte alerta: "mais dívidas, mais problemas". Como disse Martin Wolf no Financial Times: "Os mercados financeiros estão ignorando esses avisos. As ações globais alcançaram novos máximos e os spreads de crédito têm diminuído, quase como se a dívida extrema fosse algo virtuoso e não um péssimo rumo do processo econômico."

Como já foi relatado, mesmo antes dessa pandemia, a dívida corporativa atingira níveis recordes, medida em relação ao PIB anual. Medida em relação ao patrimônio líquido dos ativos da empresa, essa situação apareceria de forma ainda mais dramática já ficaria mais claro o potencial de uma avalanche de falências associadas a ela.

A OCDE estima que, se os lucros corporativos caírem drasticamente em 2021, à medida que os governos retirem o apoio financeiro, muitas empresas podem ficar "em dificuldades".

O número das "empresas zumbis" tem aumentado significativamente. São aquelas que não estão obtendo lucros suficientes para cobrir os juros de suas dívidas pendentes. A OCDE observa que um quinto das empresas na Bélgica, por exemplo, não poderia honrar seus passivos financeiros por mais de três meses sem contrair mais dívidas ou obter uma injeção de capital. Essa proporção é muito maior em alguns setores como hospedagem, eventos e lazer.

A OCDE conclui que "as preocupações com a estabilidade financeira provavelmente ressurgirão" , já que o rápido aumento da dívida do setor público e do setor corporativo pode em breve levar a "preocupações com a solvência em um grande número de empresas". A inadimplência corporativa no que se refere aos títulos de empresas mais fracas pode dobrar em 2021, diz a OCDE, especialmente em "setores duramente atingidos como companhias aéreas, hotéis e indústria automobilística". As falências em pequenas e médias empresas nos setores de varejo, lazer e imóveis comerciais são particularmente prováveis.

Esse cenário é ainda mais evidente nas chamadas economias emergentes. Mesmo na China, onde a economia em geral está se recuperando de modo mais rápido, uma série de empresas com pesadas dívidas estão começando a deixar de pagar os seus empréstimos, colocando, assim, o governo em um dilema. Tem que decidir se salva essas empresas (algumas das quais são estatais locais) ou as deixa quebrar, a fim de reduzir o peso da dívida geral sobre a economia. Isso não levará a um grande colapso financeiro ou a uma forte ruptura na recuperação chinesa, porque o governo tem reservas enormes e pode tirar proveito das enormes poupanças familiares do povo chinês, principalmente depositadas em bancos estatais – ao contrário do que ocorre em outras grandes economias. Mas os problemas de uma série de empresas chinesas superendividadas são um prenúncio do que poderia haver um "tsunami de dívida" em muitos setores corporativos – e não só na economia chinesa, mas também na economia de outros países durante o próximo ano.

Muito depende de saber se o setor corporativo conseguirá ou não se sustentar em 2021, à medida que os subsídios dos Estados forem sendo cortados. Mesmo que os custos de juros sobre a dívida existente permaneçam baixos, se os lucros corporativos não aumentarem, mas, em vez disso, caírem em 2021, a OCDE estima que mais de 30% das empresas em todo o mundo podem ficar "em dificuldades", podendo enfrentar a falência. No mínimo, em consequências, as empresas não vão aumentar os seus investimentos, mas, ao contrário, ficarão "quietas". A OCDE avalia que existe o risco de uma "dívida pendente". E isto reduziria o crescimento do investimento empresarial em 2 pontos percentuais em comparação com a média de longo prazo, antes da pandemia.

Portanto, mesmo que não haja o tal "tsunami de dívidas" e um crash financeiro causado por uma onda de falências de empresas, a recuperação na maioria das economias capitalistas provavelmente será muito fraca. A OCDE em sua última previsão para a economia mundial fala sobre um "futuro mais brilhante ", em 2021, quando as vacinas contra a Covid passarem a serem distribuídas. Mas essa previsão ainda espera que a maioria das economias do mundo não recupere as perdas de produção sofridas em 2020. No final de 2021, apenas algumas economias terão experimentado algum crescimento real do PIB em comparação como o nível do final de 2019.

A economia líder na recuperação será a China – quase 10% a mais de PIB; seguem-se as economias da Coreia do Sul e da Indonésia. Os aumentos do PIB nesses países resultará em um aumento médio do PIB mundial nesses dois anos, isto é 2020 2021. Mas a China contribuirá com um terço desse crescimento real do PIB até o final desse período. As economias capitalistas avançadas do G7 não terão nenhum crescimento real do PIB (é o caso dos EUA), ou terão recuado algo entre 3 e 5% até o final de 2021 (os casos da Europa e do Japão); nesse quadro, o Reino Unido terá o pior desempenho com uma contração de 6,4%. As outras grandes economias do G20, como Índia e Brasil, terão declínios significativos.

A OCDE espera uma "recuperação gradual, mas desigual". E isso pressupõe que ocorram as melhores expectativas possíveis sobre o impacto das vacinas contra a Covid. Mesmo assim, embora se espere que o PIB da economia mundial retorne ao seu nível anterior à pandemia no final de 2021, ele ainda não alcançará o PIB mundial que teria atingido sem a queda produzida pela difusão do coronavírus. A perda representará cerca de 6% do PIB, conforme mostra o gráfico acima. A trajetória da "raiz quadrada reversa" da Longa Depressão parece que vai continuar.

 [NT] Consiste na prática entre os persas de impedir as mulheres de serem vistas pelos homens que não sejam seus parentes diretos. 

 

 

Nenhuma escapatória do nosso mundo tecno-feudal

 

Por: Pepe Escobar 

 

A economia política da Era Digital permanece virtualmente terra incógnita. Em Technoféodalisme , publicado três meses atrás em França (ainda não há tradução), Cedric Durand, economista da Sorbonne, efectua um serviço público crucial pois examina a nova Matrix que controla todas as nossas vidas.

Durand coloca a Era Digital no contexto mais vasto da evolução histórica do capitalismo a fim de mostrar como o consenso de Washington acabou por ser metastaziado no consenso de Silicon Valley. Numa reviravolta deliciosa, ele baptiza este novo bosque como a "ideologia californiana".

Estamos longe do Jefferson Airplane 
[1] e dos Beach Boys; é mais como a "destruição criativa" de Schumpeter com esteróides, completada com "reformas estruturais" estilo FMI enfatizando a "flexibilização" do trabalho e a total marquetização/financiarisação da vida quotidiana.

De modo crucial, desde o início a Era Digital foi associada à ideologia da direita. A incubação foi fornecida pela Fundação Progresso e Liberdade ( 
Progress and Freedom Foundation, PFF ), activa de 1993 a 2010 e convenientemente financiada, entre outros, pela Microsoft, At&T, Disney, Sony, Oracle, Google, e Yahoo.

Em 1994, a PFF realizou uma conferência pioneira em Atlanta que acabou por conduzir a uma Carta Magna seminal: literalmente, o 
Cyberspace and the American Dream: a Magna Carta for the Knowledge Era (Ciberespaço e o Sonho Americano: uma Carta Magna para a Era do Conhecimento), publicada em 1996, durante o primeiro mandato Clinton.

Não por acaso, a revista 
Wired foi fundada, tal como a PFF, em 1993, tornando-se instantaneamente o porta-voz da "ideologia californiana".

Entre os autores da Magna Carta descobrimos o futurista 
Alvin "Choque do Futuro" Tofler e o antigo conselheiro científico de Reagan, George Keyworth. Antes de quaisquer outros, eles já estavam a conceptualizar "o ciberespaço como um ambiente biolectrónico que é literalmente universal". Sua Magna Carta era o mapa privilegiado para explorar a nova fronteira.

Aqueles heróis randianos

Também não por acidente, a guru intelectual da nova fronteira foi Ayn Rand e a sua dicotomia bastante primitiva entre os "pioneiros" e a multidão. Rand declarava que o egoísmo é bom, o altruísmo é mau e a empatia é irracional.

Quando se trata dos novos direitos de propriedade do novo Eldorado, todo o poder deve ser exercido pelos "pioneiros" do Vale do Silício, um bando de Narcisos apaixonado pela sua imagem espelhada de superiores heróis randianos. Em nome da inovação, deveriam ser autorizados a destruir quaisquer regras estabelecidas, num alvoroço schumpeteriano de "destruição criadora".

Isso levou ao nosso ambiente actual, em que a Google, Facebook, Uber e companhia podem ultrapassar qualquer quadro legal, impondo as suas inovações como um facto consumado.

Durand vai ao cerne da questão quando trata da verdadeira natureza da "dominação digital": a liderança estado-unidense nunca foi alcançada devido às forças de mercado espontâneas.

Exactamente pelo contrário. A história do Vale do Silício está absolutamente dependente da intervenção estatal – especialmente via complexo industrial-militar e complexo aero-espacial. O Centro de Investigação Ames, um dos melhores laboratórios da NASA, encontra-se em Mountain View. Stanford foi sempre premiada com sumarentos contratos de investigação militar. Durante a II Guerra Mundial, a Hewlett Packard, por exemplo, florescia graças à sua electrónica utilizada para fabricar radares. Ao longo da década de 1960, os militares americanos compraram a maior parte da ainda incipiente produção de semicondutores.

The Rise of Data Capital , um relatório de 2016 da MIT Technology Review produzido "em parceria" com a Oracle, mostrou como as redes digitais abrem o acesso a um novo subsolo virgem repleto de recursos: "Aqueles que chegam primeiro e assumem o controlo obtêm os recursos que procuram" – sob a forma de dados.

Assim, tudo, desde imagens de videovigilância e bancos electrónicos até amostras de ADN e bilhetes de supermercado, implica alguma forma de apropriação territorial. Aqui vemos em toda a sua glória a lógica extractivista embutida no desenvolvimento da Big Data.

Durand dá-nos o exemplo do Android a fim de ilustrar a actuação da lógica extractivista. O Google fez com que o Android fosse gratuito para todos os smartphones de modo a adquirir uma posição estratégica no mercado, batendo o ecossistema Apple e tornando-se assim o ponto de entrada padrão da Internet para praticamente todo o planeta. É assim de facto que se constrói um império online imensamente valioso.

O ponto-chave é que qualquer que seja o negócio original – Google, Amazon, Uber – as estratégias de conquista do ciberespaço apontam todas para o mesmo alvo: assumir o controlo de "espaços de observação e captura" de dados.

Acerca do sistema de crédito chinês…

Durand apresenta uma análise finamente equilibrada do sistema de crédito chinês – um sistema híbrido público/privado lançado em 2013 durante o 3º plenário do 18º Congresso do PCC, sob a palavra-de-ordem "valorizar a sinceridade e punir a insinceridade".

Para o Conselho de Estado, a suprema autoridade governamental na China, o que realmente importava era encorajar o comportamento considerado responsável nas esferas financeira, económica e sócio política – e sancionar o que não fosse. É tudo uma questão de confiança. Pequim define isto como "um método de aperfeiçoamento do sistema socialista de economia de mercado que melhora a governação social".

A expressão chinesa – 
shehui xinyong – perde-se totalmente com a tradução no Ocidente. Muito mais complexo do que "crédito social", trata-se mais de "confiança", no sentido da integridade. Em vez das vulgares acusações ocidentais de ser um sistema orwelliano, as prioridades incluem o combate contra a fraude e a corrupção a nível nacional, regional e local, às violações de regras ambientais, ao desrespeito de normas de segurança alimentar.

A gestão cibernética da vida social está a ser seriamente discutida na China desde a década de 1980. De facto, desde os anos 40, como vimos no Pequeno Livro Vermelho de Mao. Pode ser visto como inspirado pelo princípio maoísta das "linhas de massa", como em "começar pelas massas para voltar às massas: acumular as ideias das massas (que estão dispersas, não sistematizadas), concentrá-las (em geral ideias e sistemáticas), depois voltar às massas para as difundir e explicá-las, garantindo que as massas as assimilam e as põem em acção, e verificar na acção das massas a pertinência destas ideias".

A análise de Durand vai um passo além de The Age of Surveillance Capitalism (A era do capitalismo de vigilância), de 
Soshana Zuboff quando ela finalmente atinge o ponto central da sua tese, mostrando como as plataformas digitais se tornam "feudos": elas vivem e lucram com o seu vasto "território digital" povoado com dados mesmo quando elas bloqueiam o poder sobre os seus serviços, os quais são considerados indispensáveis.

E, tal como no feudalismo, feudos dominam território pela fixação de servos. Os senhores ganhavam a vida lucrando com o poder social derivado da exploração do seu domínio e isso implicava um poder ilimitado sobre os servos.

Tudo isto explica a concentração total. O enérgico Peter Thiel do Vale do Silício sempre salientou que o objectivo do empresário digital é exactamente ultrapassar a concorrência. Como mencionado em 
Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World, Thiel declarava: "O capitalismo e a competição são antagónicos. Competição é para os perdedores".

Por isso, agora estamos a enfrentar não um mero choque entre o capitalismo do Vale do Silício e o capital financeiro, mas realmente um novo modo de produção: uma turbo-capitalista sobrevivência como capitalismo rentista, onde os gigantes do silício tomam o lugar das propriedades e também do Estado. Esta é a opção "tecno-feudal", tal como definida por Durand.

Blake encontra-se com Burroughs

O livro de Durand é extremamente relevante para mostrar como a crítica teórica e política da Era Digital ainda é escassa. Não existe uma cartografia precisa de todos esses esquivos circuitos de extracção de receitas. Nenhuma análise de como lucram com o casino financeiro – especialmente os mega fundos de investimento que facilitam a hiper-concentração. Ou como lucram com a exploração árdua dos trabalhadores na gig economy. 
[2]

A concentração total do globo digital, como recorda Durand, está a conduzir a um cenário já imaginado por Stuart Mill, em que cada terra num país pertencia a um único senhor. A nossa dependência generalizada em relação aos senhores digitais parece ser "o futuro canibal do liberalismo na era dos algoritmos".

Haverá uma saída possível? A tentação é ir ao radicalismo – um cruzamento entre Blake e Burroughs. Temos de expandir o nosso âmbito de compreensão – e parar de confundir o mapa (como mostrado na Carta Magna) com o território (a nossa percepção).

William Blake , nas suas visões proto-psicodélicas, tratava de libertação e subordinação – descrevendo uma divindade autoritária que impunha a conformidade através de uma espécie de código fonte de influência de massas. Parece uma proto-análise da Era Digital.

William Burroughs conceptualizou o Controlo – um conjunto de manipulações que incluía os mass media (ele ficaria horrorizado com os media sociais). Para romper o Controlo, temos de ser capazes de hackear e romper os seus programas centrais. Burroughs mostrou como todas as formas de Controlo devem ser rejeitadas – e derrotadas: "As figuras de autoridade são vistas pelo que são: máscaras mortas e vazias manipuladas por computadores".

 

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