sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

FMI aproveita a pandemia para abrir caminho a privatizações

– 81 países já atingidos

Por: Alan Macleod 

  

A enorme desorganização económica causada pela pandemia COVID-19 oferece uma oportunidade única de alterar fundamentalmente a estrutura da sociedade e o Fundo Monetário Internacional (FMI) está a usar a crise para implementar medidas de austeridade quase permanentes em todo o mundo.

Exatamente 76 dos 91 empréstimos que negociou com 81 nações desde o início da pandemia mundial, em março, vêm acompanhados de exigências de que os países adotem medidas como cortes profundos nos serviços públicos e nas pensões – medidas que, sem dúvida, envolverão privatizações, congelamentos ou cortes de salários, ou o despedimento de funcionários do setor público, como médicos, enfermeiros, professores e bombeiros.

Principal apoiante das medidas de austeridade neoliberal em todo o mundo durante décadas, o FMI, recentemente (e discretamente), começou a admitir que essas políticas não funcionaram e geralmente causaram problemas como a pobreza, o desenvolvimento desigual e outras desigualdades ainda maiores. Que também não conseguiram trazer o crescimento económico prometido para contrariar esses efeitos negativos. Em 2016, o FMI descreveu as suas próprias políticas como "exageradas" e, anteriormente, resumiu as suas experiências na América Latina como "tudo dor, nenhum ganho". Assim, os seus próprios relatórios declaram explicitamente que as suas políticas não funcionaram.

"O FMI alertou para o perigo de um grande aumento das desigualdades, no início da pandemia. No entanto, está a orientar os países no sentido de pagarem os gastos da pandemia fazendo cortes de austeridade que irão alimentar a pobreza e a desigualdade", disse hoje Chema Vera, Diretor Executivo Interino da Oxfam International.

"Essas medidas podem deixar milhões de pessoas sem acesso a cuidados de saúde ou apoio aos rendimentos, enquanto procuram trabalho, e podem frustrar qualquer esperança de recuperação sustentável. Ao adotar essa abordagem, o FMI está a cometer uma injustiça contra a sua própria pesquisa. A sua cabeça precisa de começar a falar com as suas mãos".

A Oxfam identificou pelo menos 14 países que julga que congelarão ou depressa cortarão os salários e empregos do setor público. A Tunísia, por exemplo, tem apenas 13 médicos para cada 10.000 pessoas. Qualquer corte no seu já escasso sistema de saúde prejudicaria a sua luta contra o coronavírus. "Se as pessoas não puderem pagar os testes e cuidados com a COVID-19  e outras necessidades de saúde, o vírus continuará a espalhar-se sem controle e mais pessoas morrerão. As despesas de saúde pagas pelo bolso de cada um eram uma tragédia antes da pandemia, e agora são uma sentença de morte", acrescentou Vera.

Um caso de estudo do FMI

O Equador é um exemplo perfeito das consequências das ações do FMI. Governado anteriormente pelo governo radical de Rafael Correa, que priorizou a redução da pobreza, condenou o FMI e a sua organização irmã, o Banco Mundial, e deu asilo a dissidentes ocidentais como Julian Assange, o país é governado por Lenin Moreno desde 2017. Moreno começou imediatamente a desfazer o legado de Correa, e chegou mesmo a tentar processá-lo. Em 2019, por ordem do FMI, Moreno cortou o orçamento de saúde do país em 36 por cento, em troca de um empréstimo de US$4,2 mil milhões do FMI, uma medida que provocou protestos em massa em todo o país, ameaçando sabotar a sua administração.

Os resultados foram quase apocalípticos, já que a maior cidade do país, Guayaquil, se tornou o centro mundial do coronavírus, com corpos a apodrecer nas ruas durante vários dias, porque os serviços religiosos estavam sobrecarregados. A cidade sofreu mais mortes do que Nova York no seu pico e com muito menos infraestruturas para lidar com o problema. Embora o número oficial de casos no país seja baixo, a taxa de mortalidade está entre as mais altas do mundo, sugerindo que os serviços estão completamente sobrecarregados.

No início deste mês, Moreno anunciou um novo acordo de US$6,5 mil milhões com o FMI, que aconselhou o seu governo a recuar nos aumentos dos gastos de saúde com a emergência, a interromper as transferências de dinheiro para aqueles que não podem trabalhar devido ao vírus e a cortar os subsídios aos combustíveis para os pobres.

Na crise, uma oportunidade

O FMI também interfere diretamente nas políticas internas de nações soberanas. Em março, recusou-se a fazer empréstimos ao governo venezuelano por causa da "falta de clareza" sobre quem mandava, sugerindo que o democraticamente eleito Nicolás Maduro renunciasse, antes de considerar um empréstimo ao país. Ao mesmo tempo, porém, o autoproclamado presidente e figura da oposição, Juan Guaidó, anunciou que tinha garantido um compromisso de US$1,2 mil milhões da organização, com a condição de que Maduro renunciasse e permitisse que um "governo de salvação nacional" assumisse o controle do país. Uma sondagem realizada no mesmo mês por um simpático analista revelou que apenas 3% dos venezuelanos apoiaram Guaidó.

Nas crises há sempre oportunidades. Para muitos, a pandemia é uma oportunidade de reorientar a economia para um sistema ecologicamente mais sustentável do que o consumo de massas. Para o FMI, no entanto, está a ser usada para promover mais privatizações e medidas de austeridade que, invariavelmente, enriquecem os mais poderosos e enfraquecem os pobres e desapossados. Tudo indica que, se a organização conseguir o que quer, serão os pobres que pagarão pela pandemia, enquanto os ricos prosperam.

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O General Flynn, QAnon e as eleições dos EUA

 

Por: Thierry Meyssan


A graça outorgada pelo Presidente Trump ao seu antigo Conselheiro de Segurança Nacional, o General Michael Flynn, parece ser um apoio a QAnon ; um grupo que parece estar ligado a este. Tal como o despedimento de chefes do Pentágono parece servir os objectivos do General Flynn.

Ao conceder com alarde a sua graça presidencial ao General Michael Flynn, Donald Trump lançou a incerteza.

Certo, este grande militar tem sido perseguido por ter mentido aos investigadores do Russiagate (e não por quaisquer outros crimes que pudesse eventualmente ter cometido). Ele procurava proteger o seu chefe das intrusões da Justiça ; aquilo pelo qual este lhe agradece hoje em dia.

Mas sobretudo porque este homem tem um curriculum vitæ notável. Como Director da Informação Militar, ele pôs em causa o apoio da Administração Obama à Alcaida, ao Daesh (E.I.) e à sua casa-mãe, os Irmãos Muçulmanos. Ele batalhou para interromper a guerra contra a Síria e manter o Presidente Bashar al-Assad no seu posto. Na sequência de um conflito memorável, no decurso do qual foi apoiado pelos Generais Mattis e Kelly, foi forçado a demitir-se.

Ele iniciou então uma carreira no sector privado trabalhando para a Cambridge Analytica, a firma que analisou os megadados de tráfego Internet para ajudar nas campanhas eleitorais de muitos dirigentes actuais, entre os quais Ted Cruz [1], depois Donald Trump, nos EUA. A seguir, criou com o seu filho, Michael Jr, uma empresa de lóbing da qual a Turquia foi cliente. Por ela pleiteou a extradição de Fetuhllah Gülen, acusado de ter instigado o Golpe de Estado de 2016. À época, o Presidente Recep Tayyip Erdogan não era ainda o protector dos Irmãos Muçulmanos e hesitava em tornar-se o líder do nacionalismo turco. Era, portanto, aconselhável extraditar o líder islamista que tinha posto em prática o Golpe de Estado a ordens da CIA.

Por fim, o General Flynn aproximou-se de Donald Trump, envolveu-se na sua campanha contra os Puritanos a ponto de ser selecionado como um possível vice-presidente, ou secretário da Defesa ou conselheiro de segurança nacional. Será este último posto o que ele irá ocupar durante 24 dias, desde a investidura do Presidente Trump até à sua demissão forçada pela investigação do Russiagate.

Desde essa data, mostrava-se discreto, exclusivamente ocupado na sua defesa judicial.

Daí surge esta pergunta : que fazia pois, então, este mestre-espião tão próximo a Donald Trump ?

Em 14 de Setembro de 2019, ele foi anunciado como orador, junto com George Papadopoulos, numa conferência sobre os «Soldados da Era Digital» em Atlanta. Tratava-se da primeira manifestação pública do movimento QAnon. Mas, face ao interesse da imprensa, ele anulou a sua participação.

A conferência era organizada por Richard Granville, o fundador do motor de busca Yippy. No entanto, de QAnon com precisão nada se sabe. Precisamente apenas por essa assinatura, mostra ser um alto funcionário da Defesa habilitado ao segredo de nível « Q » e que entende permanecer Anonimo (anónimo). Mensagens largamente difundidas atribuem-lhe uma investigação sobre um círculo pedófilo no seio da altíssima burguesia puritana, na continuação do Pizzagate, incluindo inúmeras personalidades de Hollywood e do Partido Democrata, entre os quais os irmãos Podesta.

 

John Podesta foi secretário da Casa Branca sob a presidência de Bill Clinton, depois director da campanha eleitoral de Hillary Clinton. Em pleno Russiagate, ele pusera em causa a Rede Voltaire como sendo uma fachada do Kremlin, após Michael Flynn Jr. ter difundido um do meus artigos revelando o projecto de reforma dos Serviços de Inteligência dos EUA pelo seu pai [2].

Antes da eleição presidencial de 3 de Novembro, « Q » difundia mensagens alertando para uma iminente operação contra os conspiradores que iam truncar o escrutínio. Depois, revelou as buscas na Alemanha das instalações do grupo Dominion implicado nas contagens eleitorais dos Estados Unidos. Porém, se esta intervenção policial teve realmente lugar, não é, no entanto, possível verificar quem a ordenou, nem porquê, e ainda menos o que é que foi encontrado.

O advogado pessoal de Donald Trump e antigo presidente da Câmara (prefeito-br) de Nova Iorque, Rudy Giuliani, por seu lado, evocou as várias formas de fraude das eleições: ao nível dos registos eleitorais, das próprias urnas, dos boletins (cédulas-br) enviadas pelo correio, das contagens automáticas dos boletins de voto e, finalmente, das transmissões dos resultados das máquinas. Aqui é que entraria o software da Dominion. Este teria contado menos votos para Donald Trump e mais para Biden, em proporção aos votos expressos. Ele teria sido utilizado em váriosaíses para truncar as eleições, entre as quais na Venezuela.

Acontece que o Presidente Hugo Chávez solicitou frequentemente observadores eleitorais à Rede Voltaire. Um deles descobrira, com antecedência, e denunciou uma fraude da votação. O país utilizava máquinas eleitorais que emitiam um recibo para cada voto. A Dominion tinha feito com antecedência uma lista das suas máquinas eleitorais que deveriam ser verificadas, comparando os resultados electrónicos com os verdadeiros. Desde logo, ficava-se a saber que as outras máquinas poderiam ser manipuladas sem riscos. Não era o Presidente Chávez que desejava falsificar os resultados, mas a empresa Dominion, sabe-se lá em nome de quem. O General que tinha organizado o escrutínio havia sido preso antes deste por corrupção e alta traição.

A advogada do General Flynn, Sidney Powell, juntou-se à equipa de Rudy Giuilani durante uma conferência de imprensa. Antiga Procuradora Federal da Carolina do Norte, conquistou uma reputação contra o submundo e a corrupção. Ao voltar a advogar, ela demonstrou o carácter abusivo da investigação levada a cabo contra Flynn e conseguiu anulá-la. Ela acaba de anunciar, ao lado de Giuliani, que terminara a redacção de uma nova queixa contra a Dominion por fraude maciça.

A demissão de cinco dos principais líderes do Pentágono [3] leva a assinatura do General Flynn: os demitidos estavam todos implicados no apoio à Confraria secreta dos Irmãos Muçulmanos e das suas organizações terroristas, a Alcaida e o Daesh (E.I.).

Está Donald Trump a blefar ou será que apanhou os fraudadores com as mãos na massa? Neste caso, vai dar-lhes luta ou negociar com eles?

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Estado de emergência, instrumento de controle social às portas de um cataclismo


Por: Ángeles Maestro

             

Após nove meses de pandemia, com os serviços sanitários outra vez à beira do colapso sem que se tenha tomado medida significativa alguma – que não seja o confinamento – para enfrentar uma situação absolutamente previsível e enquanto as expectativas vitais ruem nos bairros operários e para dezenas de milhares de pequenos e médios empresários, temos o direito de afirmar que a estratégia do governo central e de todos os governos autónomos, destina-se a utilizar todo tipo de instrumentos de controle social e de repressão contra previsíveis revoltas populares.

A resposta à crise: uma gigantesca destruição de capital ao serviço da oligarquia financeira e das multinacionais da energia

Ainda não sabemos de onde surgiu o vírus, mas sabemos que antes que aparecesse já estavam acesos todos os alarmes do estalar de uma grande crise e que a situação social era explosiva em muitos países. No caso do reino da Espanha, "sendo um país rico, vive em situação de pobreza generalizada" afirmava em princípios de 2020 o Relator da ONU para a Pobreza. [1]

Como em todas as crises capitalistas – e esta é de proporções gigantescas – a destruição de capital segue seu curso arrasador varrendo maciçamente da cena pequenas e médias empresas. [2] Tal como ocorre nas crises, os bancos aceleram os processos de concentração com a compra a preço de saldo do pouco que resta da banca pública com a cumplicidade directa do governo, como foi o caso do Bankia e com os correspondentes despedimentos maciços, ao mesmo que se constituem em administradores do crédito procedente da UE.

Num cenário de empobrecimento maciço e de afundamento do modelo económico do turismo e do tijolo, quando urge abordar a reconstrução produtiva a partir de posições de soberania, a UE decidiu que as prioridades são a transição energética rumo a uma energia mais verde e rumo à digitalização. Essas são as condições para aceder aos 760 mil milhões de euros do fundo de recuperação europeu, ou seja, para assegurar aos bancos e às multinacionais o controle dessa prodigiosa quantidade de dinheiro, negando qualquer soberania. Tudo isto quando se está a destruir o pouco tecido industrial que resta e não é a contaminação ambiental o principal problema e quando a digitalização – em mãos do capital – servirá para intensificar a destruição de postos de trabalho. Ou seja, enquanto milhões de pessoas enfrentam a destruição maciça das suas condições de vida os bancos e as multinacionais, sobretudo as eléctricas e a da energia preparam-se para receber uma chuva de milhões. 

Não se pode ocultar a ninguém que a rápida extensão da miséria é prelúdio de grandes explosões sociais. Também é evidente que o governo assiste impassível ao desastre que se vislumbra sem adoptar as mínimas medidas para enfrentá-lo. 

Um cataclismo para a classe operária e para os sectores populares frente ao qual não se tomaram as medidas maiss imprescindíveis 

O estupor dos primeiros meses diante das duras consequências da epidemia deu lugar à constatação do facto inegável – excepto para aqueles que não só tapam a boca como também o cérebro – de que, enquanto se multiplicam os relatórios que revelam a causalidade essencialmente social da pandemia, nem o governo "progressista" nem os governos autónomos adoptaram medidas imperativas imprescindíveis, ainda que tivessem a capacidade legal para fazê-lo.

Nem me situo em teorias conspiratórias, nem falo de medidas revolucionárias.

Eis aqui alguns dados.

1º. No âmbito sanitário, o governo central e os autónomos:

Nenhum recurso – pessoal e instalações – do sector privado da saúde, da indústria farmacêutica ou das empresas que fabricam o material necessário, tais como respiradores, equipamento de protecção pessoal ou máscaras, foram envolvidos para os colocar ao serviço das necessidades mais urgentes da população. As requisições, intervenções e ocupações de empresas privadas estavam previstas nos artigos 8º e 13º do Real Decreto de Estado de Alarme do mês de Março [3] e nenhuma delas foi então adoptada, nem ninguém fala delas agora, quando, segundo eles próprios, estamos a caminhar para um colapso sanitário.

Quando, desde o início da pandemia, falava-se de enormes carências de pessoal de saúde, não tomaram medida alguma – em 9 meses! – para convocar ofertas públicas de emprego com condições de trabalho dignas. Estas convocatórias deveriam servir para encorajar o regresso das dezenas de milhares de profissionais de saúde que emigraram após anos de contratos lixo ou para evitar, como está a acontecer, a cascata de baixas devido a depressão ou stress num sistema de saúde pública saturado.

Não estenderam realmente o direito à atenção sanitária às pessoas imigrantes sem papéis que continuam – apesar de acumularem todos os factores de risco social – sem ter acesso ao cartão sanitário.

Os governos autónomos, com a cumplicidade do governo central, fizeram o possível para que todo o financiamento adicional que se dispôs para a saúde acabasse nas mãos de empresas privadas (Ribera Salud, Indra, Telefónica, Pascual, etc), mediante a subcontratação de serviços diversos.

2º No âmbito social, o governo central:

Aprovou uma medida espectáculo, o Rendimento Mínimo Vital, cuja ineficácia dá uma ideia do que aconteceu noutros sectores. Após ultrapassar um labirinto burocrático, tarefa quase impossível para a imensa maioria das pessoas solicitantes, mais de 60% de quase um milhão de candidaturas foram recusadas. [4]

Os despejos não foram impedidos. Mais de um milhão de executados desde 2008 [5] , e em plena pandemia, assiste impassível ao drama humano diário de deixar na rua as pessoas com menos recursos [5] . No Estado espanhol, ocorre um suicídio a cada 2,5 horas [6] , grande parte deles devido a causas relacionadas com desemprego e despejos. [7] Entretanto, de acordo com números oficiais, existem 3,5 milhões de habitações vazias, com uma percentagem significativa em poder dos bancos que promovem os despejos.

Em 30 de Setembro vencia a moratória relativa ao pagamento de hipotecas, de alugueres e fornecimentos de água, luz e electricidade contemplada em decretos anteriores [8] . O novo decreto de Estado de Emergência de 25 de Outubro não o renovou, ou seja, os bancos e as grandes multinacionais da água, luz e electricidade têm via livre concedida pelo governo que "não deixa ninguém atrás" para executar novos despejos e para cortar os fornecimentos de bens indispensáveis à sobrevivência daqueles que se afogam na pobreza e na doença. O pagamento só se adiou a partir de Março e agora chegam os recebimentos de repente.

Não reforçou o sistema educativo, nem para garantir as mais elementares medidas de segurança, nem para permitir que o corpo discente dos bairros operários – afectado por quarentenas sucessivas – possa seguir as aulas telematicamente.

Depois de mais de 27 mil mortes de pessoas idosas não foram apreendidas as residências privadas convertidas em autênticos "lugares para morrer" graças a uma voracidade empresarial que actuou e continua a actuar em conivência com a passividade das administrações. O clamor popular reclamando ao governo uma lei que regule o sector não teve resultados [9] .

Nada se fez para melhorar a situação de miséria dos pensionistas, sobretudo das mulheres, que além disso, em muitos casos, acabam por ser aqueles que financiam suas famílias. Mais de seis milhões de pessoas recebem pensões inferiores a 950 euros mensais. O dado brutal é que enquanto o número global de pensões aumentou, desde Janeiro até Outubro de 2020 o número de pensões mínimas sofreu uma importantíssima diminuição, exactamente 49.646. Este número quase multiplica por 10 a descida sofrida por este grupo em 2019, que foi de 9.195 pessoas. Sem dúvida, este dado reflecte, mais uma vez, que a vulnerabilidade perante o Covid não é a idade e sim a pobreza.

Não adoptou medida alguma que obrigasse governos autónomos e municipais à melhoria do transporte público nas grandes cidades para evitar as aglomerações (em Madrid a frequência de passagem de comboios no metro em hora de ponta chega a ser superior a 10 minutos) que são, obviamente, os melhores caldos de cultura para a transmissão do Covid 19. As condições em que se realiza o transporte desde os bairros operários, nos quais acumulam-se todos os factores de risco, até o posto de trabalho onde reina o patrão e a segurança se subordina ao lucro, fazem com que as medidas preconizadas para evitar contágios pareçam uma caricatura macabra.

E enquanto isso, os meios de comunicação dedicam mais de 80% do seu tempo a propagar o medo à pandemia. 

Rádios, jornais e televisões vomitam todas as horas dados e mais dados, a maioria incompreensíveis e carentes do mínimo rigor, enfeitados com análises de faladores de talk show e supostos peritos, todos na mesma direcção. O resultado é a criação de sentimentos de pânico, de medo de ter a mais leve relação social e de insegurança perante tudo o que significa sair de casa, o que coloniza a cabeça de milhões de pessoas. Tudo isto sem que em tantas horas dedicadas ao tema haja qualquer informação sobre a situação em Cuba, Vietname ou China, países onde a pandemia está sob controlo e onde a população regressou às suas relações sociais normais.

Uma vez que todos os grandes meios de comunicação são propriedade, directa ou indirectamente, das mesmas multinacionais e bancos que gerem a crise em seu benefício, há poucas dúvidas acerca de que a criação de um estado de medo generalizado e de incentivo ao isolamento social é o ambiente mais propício para conjurar o mais temem: que a classe operária e os sectores mais populares dêem um soco no tabuleiro.

O medo e a criação de uma psicose de guerra – as conferências de imprensa com militares e guardas-civis serviam directamente esse objectivo – são o melhor instrumento para disciplinar as massas e para neutralizar, mediante a criminalização, qualquer desobediência ou resistência.

Se a isso acrescentarmos o discurso que a partir do governo "progressista" estende-se aos sectores populares inclinados à mobilização através dos seus caciques políticos e sindicais subvencionados, de que não se deve criticar o PSOE nem o Podemos, porque é pior que venha a direita, o controle social está garantido. As únicas mobilizações admissíveis são aquelas dirigidas contra os governos do PP

Expediente de Regulacion Temporal de Empleo por Covid-19Esse é o serviço fundamental prestado ao capital pelo Podemos e em geral pela auto-proclamada esquerda institucional: controlar o estalar da revolta social quando em Janeiro acabarem os ERTEs e começar a cascata de empresas em bancarrota.

E a função já começou. Diante das brutais cargas policiais contra a juventude de Vallecas , com várias pessoas feridas e detidas, que mostrava sua consciência de classe frente à segregação imposta aos bairros operários ao gritar "menos polícia e mais cuidados de saúde", a Federación Regional de Asociaciones de Vecinos de Madrid, com forte presença do Podemos e da Izquierda Unida, enviou o seguinte twitee: Em Vallecas verificaram-se distúrbios aos quais as associações de vizinhos são alheias".

Nos últimos dias as mobilizações de jovens verificadas em várias cidades foram sancionadas pelo Podemos que as atribuiu à extrema-direita ou a posições negacionistas, avançando com a criminalização dos protestos e com a utilização da emergência ao serviço do controle social. Tudo isto numa tentativa de ocultar a evidência de que no momento em que a miséria e o desespero invadem milhões é precisamente a suposta esquerda institucional, débil e covarde que alimenta o fascismo.

A luta de classes não se confina

Todas as instâncias do poder, desde os aparelhos repressivos aos meios de comunicação, preparam-se para fazer frente a rebeliões sociais que sem dúvida irão ocorrer.

Quando a fome e o desespero estendem-se sem que, como argumentei, os governos adoptem sequer as medidas mais elementares para amenizá-las, não se pode cair no jogo daqueles que pretendem confinar a resistência e mobilização social através da criminalização. 

É preciso que a partir de posições de independência de classe se desmascare a cumplicidade do governo "progressista! e dos seus agentes políticos e sindicais com a estratégia da oligarquia nacional e europeia, enquanto deixa afundar na miséria e no desespero milhões de pessoas da classe operária e pequenos e médios empresários condenados à ruína mais absoluta.

Neste momento não são suficientes críticas abstractas ao capitalismo ou às classes dominantes. Duas linhas de trabalho, intimamente conectadas, devem reger a acção destinada a enfrentar lucidamente o cataclismo que se avizinha. 

Por um lado é necessário "identificar qual é o elemento que mais "destrói" a esquerda e até a direita; qual é o elementos sobre o qual se pode acumular mais força em contrário e que, além disso, seja um pivot sobre o qual repousa todo do sistema; ou seja, aquele elemento que, se conseguirmos desprender-nos dele, teremos dado passos de gigante para acabar com o capitalismo. Este não é outro senão o capital financeiro, o qual urge excluir das nossas e contra o qual hoje entram em contradição a maioria dos sectores populares" [10] .

É de grande importância que frente ao poder da banca, que objectivamente aniquila não só a classe operária como também pequenos e médios empresários, se possa construir uma aliança que impeça que este sector alimente as fileiras do fascismo.

Por outro lado, é decisivo que se activem de maneira unitária espaços de organização e de mobilização, criando desde a base estruturas de poder popular, de defesa intransigente da vida em todas as suas facetas e de preparação para o duro período de confrontação de classe que está cada vez mais próximo.


[1] news.un.org/es/story/2020/02/1469232
[2] 
www.vozpopuli.com/...
[3] 
www.boe.es/buscar/act.php?id=BOE-A-2020-3692
[4] 
confilegal.com/...
[5] 
afectadosporlahipoteca.com/...
[6] 
www.mscbs.gob.es/gabinete/notasPrensa.do?id=5006
[7] 
www.elsaltodiario.com/vivienda/relacion-suicidios-desahucios
[8] 
elderecho.com/l...
[9] marearesidencias.org/
[10] redroja.net/articulos/informe-politico-octubre-2020/

  

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

As subvenções do Estado ao grande capital que despede trabalhadores

– O escândalo do Capitalismo Monopolista de Estado na hora da "construção europeia"

                                                                   

Por: Georges Gastaud

 

Disse "liberalismo"?

Durante décadas, disseram-nos, do secundário à universidade, em quase todos os meios de comunicação, e em todos os tons, que vivemos numa sociedade "liberal" e que o "neoliberalismo" é nosso destino. Os que são politicamente um pouco mais críticos, mas que ainda assim se envolvem na ilusão ideológica, falarão, para condená-lo, de "ultraliberalismo" ou "turbo-capitalismo". Na verdade, o Tratado de Maastricht, difundido por todos os tratados europeus que o sucederam, define a União Europeia como uma "economia de mercado aberta ao mundo, onde a concorrência é livre e não falseada". Em nome deste artigo irremovível que constitui o coração da "construção europeia" e de construções político-económicas semelhantes noutros continentes (NAFTA, MERCOSUL, ASEAN ...), os Estados nacionais e seus dirigentes políticos abstêm-se de nacionalizar os grandes bancos e outras empresas de caráter estratégico para os seus países. Ao mesmo tempo, é proibido planear cientifica e democraticamente o desenvolvimento económico, a implantação do progresso social, a distribuição de "ganhos de produtividade", impedir devastadoras deslocalizações de industrias e serviços e, claro, banir os despedimentos coletivos em nome da "Lei do mercado".

Pior, na França desde pelo menos 1992 (quando o Tratado de Maastricht obteve 50,8% num referendo em que Chirac e Mitterrand pediram um voto Sim), sucessivos governos franceses privatizarem os chamados "monopólios públicos" (como EDF, Gaz de France, SNCF, France-Télécom, La Poste, Air France, Aeroespacial, autoestradas, etc.) ... para criar monopólios ou oligopólios capitalistas privados como SANOFI, Bolloré ou ENGIE, aliás Suez. E isso era ainda mais verdadeiro na época do governo Jospin, dito ser "da esquerda plural", flanqueado por ministros "comunistas" (Gayssot, Buffet, Demessine) e "verdes" (Voynet), que, entre 1997 e 2002, privatizaram ainda mais rápido do que os governos de direita anteriores o setor público francês, desde bancos de poupança à France-Télécom via Air-France e SNECMA. Além disto, foi o "socialista" Rocard, um grande "europeu" que deu início à privatização da Renault, aproveitando de passagem para decapitar a CGT da empresa e fechar a Renault-Billancourt, epicentro da greve de 1968…

Liberalismo para quem?

De facto, é verdade num certo sentido que esta política, totalitariamente imposta em toda a UE pela Comissão de Bruxelas com multas e "sanções", é "liberal"; mas para QUEM o é realmente, senão para os grandes grupos capitalistas de dimensão continental ou mundial que podem assim em completa "liberdade" demolir as conquistas sociais dos trabalhadores, praticar os mínimos em termos ambientais e sociais à escala transcontinental, multiplicar suculentas fusões capitalistas e, especialmente agora, assassinos de empregos continentais e transcontinentais (Renault-Nissan, PSA-Chrysler-FIAT, Alstom / Siemens ou Alstom-GE, etc.): em suma, atropelar "livremente" o mundo do trabalho e o verdadeiro interesse nacional, duas noções que se tornam uma só quando a expressão "interesse nacional" não é mal utilizada no sentido imperialista.

A UE não apenas permite aos monopolistas sobre-explorarem e desqualificarem milhões de trabalhadores considerados "muito caros" (deslocalização real ou chantagem para deslocalizar, são exatamente a mesma coisa), mas ainda ajuda a esmagar, de uma forma muito "liberal", as pequenas empresas: porque em cada momento paira sobre as cabeças dos artesãos, dos pequenos industriais, dos pequenos agricultores, e ainda mais, sobre a dos assalariados privados de direitos de muitas PME (sem falar nesse patronato fictício que são os trabalhadores uberizados e outros "empresários por conta própria"), uma "concorrência" de extensão planetária cuja escala e regras deliberadamente minuciosas favorecem as únicas empresas realmente capazes de se envolver numa competição "não falseada": os monopólios capitalistas vinculados aos bancos.

As pequenas e médias empresas são, portanto, solicitadas, com total "liberdade empresarial", a esmagar os seus preços e, com elas, os salários dos seus trabalhadores, a rastejar para chegar aos mercados, para competir com os gigantes internacionais pelo menor preço, para serem subcontratadas por tirânicos "dadores de encomendas", em particular da grande distribuição. Ou, mais simplesmente, como acontece com centenas de milhares de "patrões" de MPME ou "empresários por conta própria"... a "desaparecerem" pura e simplesmente (com centenas de suicídios cada ano no mundo camponês).

Não falemos do papel devolvido por este sistema "libertador" nos antigos países socialistas do Leste: a sua indústria socialista e os seus incomparáveis ganhos sociais foram liquidados por uma terrível "terapia de choque", anterior à sua anexação pela UE (e, no seguimento, pela NATO!). Nem do futuro dos países do Sul, quase proibidos de desenvolvimento industrial e agrícola, excepto do tipo neocolonial (fixado pelas necessidades das grandes empresas dos países ricos): é claro que uma jovem indústria nacional partindo do zero, ou tendo inicialmente pouco financiamento, tecnologia e poucos escoamentos próprios, não poderá competir seriamente, sem direitos aduaneiros nacionais, os mastodontes capitalistas dos países dominantes já instalados no mercado que se apropriam das matérias-primas, sementes agrícolas, etc.

Não foi por acaso que em França, para criar indústria, Colbert teve que montar uma indústria estatal, e regulamentar firmemente as importações: todos sabem que a França, nunca teria tido uma indústria sem a intervenção planificadora do Estado e que, como contraprova da mesma hipótese, a indústria francesa entrou literalmente em colapso, pois ao Estado, escravo voluntário da "construção europeia", lhe é vedado nacionalizar, proteger e planificar...

"Liberalismo" assimétrico internacional e blindado de cripto-proteccionismo

Notemos também que, mesmo neste nível continental e transcontinental, o pretenso "livre comércio mundial" é uma ficção: na realidade, os Estados capitalistas mais poderosos, e centralmente no que diz respeito à França, os EUA e a Alemanha capitalista unificada (verdadeira senhora da UE) dotaram-se de milhares de ferramentas cripto-proteccionistas ou abertamente proteccionistas: direitos aduaneiros anti-chineses de Trump, "sanções económicas" supostamente destinadas a defender os direitos dos homem com geometria variável que atinge os rivais actuais ou potenciais da grande capital norte-americano, em particular a China, vários embargos estrangulando a Rússia, China, Irão, Venezuela, Bielorrússia e, claro, a indomável "besta vermelha" cubana!

Poderemos também mencionar as inúmeras normas "sanitárias" (e cada vez mais "ambientais") impostas pelos EUA para fechar seu território às exportações dos países dominados. Trata-se, a todo custo, de filtrar a entrada de competidores reais ou potenciais no seu mercado interno e permitir assimetricamente ao grande capital dos países líderes invadir os mercados do Leste e do Sul sem que a recíproca seja possível.

O euro, uma moeda cripto-protetora; o acordo monetário inter-imperialista alemão-EUA e a crise actual deste acordo 
[1]

A principal destas ferramentas desleais que permitem a "concorrência livre" (para os Estados ricos) e sistematicamente falseada é o binário monetário conflitante, mas cúmplice (como duas máfias que podem ao mesmo tempo aliar-se para pilhar uma cidade enquanto periodicamente se combatem) que formam...

– por um lado, o dólar: uma estranha moeda mundial não convertível em ouro e garantida na realidade pelo poder das Forças Armadas dos Estados Unidos: (80% das armas do mundo são dos EUA! Quem irá assim exigir aos EUA que pague as suas enormes dívidas?); o que vale bem uma guerra por ano em média para sustentar o medo, não do polícia, mas do ladrão. Tanto mais que os projectos de moeda internacional para contornar o dólar estão em execução há anos (acordo entre a Rússia e a China para trocas sem passar pelo dólar, projecto da Líbia para uma moeda africana autónoma - o que sem dúvida provocou em grande parte o derrube e o linchamento "humanitário" de Khadaffi...) e

– por outro lado, a zona euro, coração da "construção europeia" centrada em Berlim, garantida pelo marco alemão. A moeda única europeia garantiu à Alemanha uma espécie de mercado europeu permanentemente cativo, embora deixando – por quanto tempo mais? – o dólar mais fraco dominar globalmente.

Assim, os respectivos "rebanhos" do Tio Sam e do amigo Fritz foram inicialmente bem guardados. Pois, desta forma, os imperialistas hegemónicos EUA e RFA podem "dividir" global e continentalmente áreas de influência e mercados. Desta forma, Berlim "tosquia" interminavelmente a Europa Oriental (um paraíso para as deslocalizações capitalistas, uma reserva de mão-de-obra bem treinada e barata para o Ocidente) e o Sul da Europa, transformado numa válvula de escape, amplamente passivo e impotente para penetrar seriamente no mercado industrial do norte da Europa (os chamados "estados frugais" ligados à Alemanha capitalista).

Além disto, devido ao diferencial de moeda entre o euro forte e o dólar fraco, a Europa alemã prometeu inicialmente não invadir o mercado dos EUA. Claro, que este compromisso cripto-protecionista entre os dois tubarões imperialistas que estão em pé de igualdade Berlim e Washington (o PRCF é o único até agora a ter referenciado e denunciado este compromisso cripto-protecionista) é necessariamente frágil, o que explica as tensões entre Trump e Merkel: com um golpe de euro forte, a Alemanha capitalista matou ou submeteu as indústrias mais fracas dos países do Sul, incluindo a França, e transformou em neocolónias de mão-de-obra barata os ex-países socialistas do Leste, Polónia, Estados Bálticos, ex-Checoslováquia, ex-Jugoslávia.

Os países do sul da Europa não podiam, de facto, contra-atacar por meio de "desvalorizações competitivas", como faziam quando não havia moeda europeia fixada no marco. Mas este sistema está necessariamente fadado ao desequilíbrio e à sua autonegação dialéctica. Tendo acabado por arruinar os países do sul da Europa, os chamados "PIGS" (Portugal, Itália, Grécia, Espanha), a Alemanha mudou o rumo; o euro foi sistematicamente enfraquecido pelo BCE com a sua política de "fábrica de notas". De repente, a Mercedes invadiu... o mercado dos Estados Unidos, cuja reação anti-alemã e anti-UE, mas também anti-chinesa, se chama Donald Trump.

Claro, que aqueles dois megapredadores que se autodenominam "comunidade internacional" continuam como ladrões a entender-se às mil maravilhas para atacar os países do Sul, proteger o capitalismo mundial, evitar o retorno sempre possível de comunistas e revolucionários e até prepararem juntos uma boa guerra contra a China e/ou contra a Rússia.

Mas, o idílio EUA/Europa alemã sob domínio absoluto do primeiro – que perdurava desde o período entre guerras e ainda mais, desde 1945 e o financiamento americano da fortaleza Alemanha (contra a URSS, mas também contra a França, vejam-se os livros de 
Annie Lacroix-Riz ) está doravante terminado. Não concluamos que eles vão desentender-se e atacar-se, pelo menos imediatamente, eles têm muitos interesses em comum para isso e podem, mais uma vez, reconciliar-se para atacar a Rússia ou a China... enquanto continuam juntos a avançar se puderem na Ucrânia, Bielorrússia, Cáucaso, etc.

"Ajuda ao emprego = ajuda publica para despedimentos em massa: aberração ou efeito sistémico?

Devemos ver também e sobretudo o aspecto oculto desta política económica que revela cruamente a multiplicação de despedimentos nas empresas capitalistas a abarrotar de dinheiro por Macron e Cia. (e antes dele pela CICE 
[2] sarkozysta e pelo Pacto de Responsabilidade holandês), e isso sem qualquer contrapartida séria do lado patronal. Esta política de subsidiar massivamente o lucro privado com dinheiro público leva a uma contradição potencialmente revolucionária quando o dinheiro do contribuinte, distribuído às cegas para o emprego, é usado para... deslocalizar massivamente e eliminar os empregos industriais restantes. Devemos também falar sobre a maneira como em 2008 os Estados burgueses, e a França sarkozysta deram o exemplo, salvando os bancos privados da falência, endividando-se colossalmente... junto dos mesmos banqueiros, e fazendo em seguida os povos pagarem ("euro-austeridade") em nome do "reembolso da dívida".

A Air France-KLM, Renault, PSA, Auchan e agora Bridgestone-Béthune, todos eles obtiveram enormes verbas retiradas dos nossos impostos para, de facto, realizar planos de despedimentos em massa que já estavam em preparação nos conselhos de accionistas muito antes que alguém tivesse ouvido a palavra "Covid-19"…

O escândalo é enorme e a raiva cresce por todos os lados porque quem neste momento apenas vê o poder de Macron, mesmo olhado pela "esquerda" pelo vigarista político Xavier Bertrand, não sabe como justificar o enorme desperdício de dinheiro público que constituem estas "ajudas" ao grande patronato sem controle público ou "contrapartidas" em termos de emprego, meio ambiente e condições de trabalho. Todos vêem, pelo contrário, que se trata, do ponto de vista ético, de um grande desvio e que os cofres dos capitalistas parecem cada vez mais um novo "barril de Danaïdes" cuja particularidade seria de estar privado de fundo, à excepção de privatizar os fundos públicos!

Vemos, portanto, os mesmos economistas burgueses que protestam contra a "tributação confiscatória" (isto é, sobre os ricos, 
Le Point não tem nada contra o IVA pago pelos trabalhadores, mas muito contra o que é pago pelos capitalistas...) considerando funcionários públicos (bombeiros, funcionários de hospitais, professores, pesquisadores do CNRS, etc.) parasitas sugando o sangue da burguesia. Aceitam como é evidente que Estados e governos "liberais" paguem dezenas de milhares de milhões (e será ainda pior com o "empréstimo europeu") aos accionistas das empresas privadas que costumam "justificar" as suas enormes receitas pelos supostos "riscos" que correm. Mas quem tem mais "risco" de dormir debaixo de pontes, o accionista da Bridgestone ou o trabalhador químico?

Por trás do "neoliberalismo", as novas formas de capitalismo monopolista de Estado à escala (trans)continental

Simplesmente eis o "escândalo" que fingem denunciar Xavier Bertrand, dirigentes do PS, etc, que fizeram e que fariam como Macron se chegassem ao poder, e que não se deve à "ingenuidade" de Macron que teria, enfim, sido enganado pelos capitalistas ... dos quais ele próprio é uma emanação, como antes dele, Pompidou foi uma espécie de procurador de Rothschild antes de se tornar ministro e depois presidente).

Em suma, não se trata de um "erro" ou então seria diabólico, já que o PCF, então marxista, o denunciava nos anos 1970 ao publicar o livro Le Capitalisme Monopoliste d'État, demonstrando, na continuação dos estudos avançados por Marx, depois por Lenin, que na nossa época, o capitalismo competitivo e liberal mais ou menos "puro" do século XIX há muito tinha dado lugar:
a) ao imperialismo, onde dominam os monopólios capitalistas, onde domina o capital financeiro e onde a exportação massiva de capitais sobre-acumulados é a causa permanente de guerras pela partilha do mundo (tese clássica do leninismo);
b) e que, especialmente após a terrível crise de 1929 e da resposta keynesiana, colocou em seu lugar por toda a parte um "mecanismo único Estado burguês/monopólios capitalistas" no seio do qual predomina em última análise o grande capital privado.

Já sob De Gaulle e Pompidou, o Estado se desviou das nacionalizações democráticas levadas a cabo em 1945 pelos comunistas Marcel Paul, Billoux e Thorez, e alocou milhares de milhões de dinheiro público, direta ou indiretamente, ao grande capital privado que então procedia a fusões especialmente à escala nacional (base do gaulismo histórico para a alta burguesia).

Na época, o Capitalismo Monopolista de Estado (CME) era mais apelativo que hoje porque se escondia atrás do patriotismo nacional (como se os capitalistas tivessem uma pátria diferente daquela onde obtêm o máximo lucro!) e porque, a força do PCF e da CGT ajudando, o financiamento dos serviços públicos e o dinheiro destinado aos salários eram em proporção mais elevados que hoje.

Os livros de história e economia explicam-nos como o atual "liberalismo" destruiu o estado Providência: na realidade, serviram-se do fim do campo socialista mundial e do (auto-)enfraquecimento dos partidos e sindicatos comunistas (confundindo "modernidade" com abandono da luta de classes) para liquidar os serviços públicos destinados a todos e vampirizar o dinheiro dos cidadãos como nunca antes, colocando-o ao serviço dos grandes capitalistas em escala cada vez menos nacionais e cada vez mais transnacionais.

Em suma – e até o economista "liberal" mais estúpido é forçado a vê-lo hoje – o "neoliberalismo" atual é antes de mais a liquidação do "Estado Providência" para os assalariados ("providência", mas em resultado de grandes lutas como as da Frente Popular, da Libertação ou de maio de 68) enquanto desenvolvia como nunca o Estado providência para os capitalistas; o que nós, militantes francamente comunistas, sempre chamamos de Capitalismo Monopolista de Estado, em particular essa subvenção sistémica e potencialmente mortal do grande capital que é a corrida aos armamentos fautora de incessantes guerras imperialistas e enormes desperdícios em termos de recursos naturais, dinheiro subtraído a produções úteis e desvio para pesquisas científicas mortíferas.

Dialética da forma e da essência

O CME não "desapareceu", "desloca-se" e continentaliza-se de maneira ainda mais perigosa! Mas as aparências iludem apenas aqueles que são incapazes de distinguir as formas desatualizadas de CME, que na década de 1960 eram principalmente internas aos Estados nacionais e as formas atuais, cada vez mais euro-regionalizadas, continenalizadas e transcontinentalizadas; "Estado" não é sinónimo de "Estado-nação", e do império continental germano-europeu, se possível aninhado numa futura "União Transatlântica" (é o vocabulário do 
MEDEF que fala de "precisar de ar" - no passado já se disse, em alemão, "Lebensraum" ) que mostra a sua vontade de poder. Tanto Dominique Stauss-Kahn, do PS, como Bruno Le Maire, exaltam um e outro aberta e publicamente o "Império Europeu" em construção (tendo por base jurídico-económica presente ou futura, a CETA , o TAFTA , etc, coroado pela OMC e protegido por uma NATO globalizada).

Mas o que seria a "Europa federal" desejada por Macron e flanqueada por um "exército europeu" encostado à NATO e uma "diplomacia europeia", senão um novo estado supranacional expansivo (depois da Ucrânia e se possível da Bielorrússia, o que se passará?). Que abaixamento do QI político médio significa encontrar ainda no nosso tempo "marxistas internacionalistas" que sufocam de raiva contra qualquer ideia de patriotismo francês, como se Robespierre, Jaurès ou Politzer não tivessem escrito nada sobre isso, mas quem, como 
Arlette Laguiller , que tolamente gaba-se de ser "mais europeia do que francesa": como se o supranacionalismo euro-atlântico não fosse ainda mais perigoso que o nacionalismo burguês do avô! Como se a frase devastadora de Mitterrand exclamando "França é nossa pátria, Europa é nosso futuro" (quase um elogio fúnebre da República Francesa!) não parecia estar a mil milhas desta reconfiguração europeia e "transatlântica" do imperialismo que o filósofo ultra-reacionário (pelo menos na política) Nietzsche já clamava no final do século XIX, sob o nome de "grande política" devolvida à elite mundial.

Como Losurdo estabeleceu, este filósofo da hiperpredação feliz opondo-se ao nacionalismo abertamente "plebeu", "cristão", "nacional" e "socializante" de um Bismarck! Lembremos a estes falsos marxistas as palavras de Lenine criticando as reflexões pseudo-internacionalistas europeias de Kautsky ou Trotsky: "em regime capitalista, os Estados Unidos da Europa não podem ser senão utópicos ou reacionários"…

Quem poderia dizer fria, empírica, pragmaticamente, olhando de perto o que a "Europa" trouxe aos trabalhadores em termos de destruição social e degradação massiva, que Lenine estava errado no seu diagnóstico? Em todo caso, os trabalhadores não se enganam: em 1992, quase 60% votaram NÃO na bacia mineira de Lens e, em 2005, quase 80% dos trabalhadores franceses disseram NÃO à constituição europeia. Vamos lá então, senhores burgueses e pequeno-burgueses com a vossa propaganda euro-adocicada, nunca convencerão alguém que é cuspido a exclamar: "eis o orvalho da manhã"!

O Estado não desaparece, redimensiona-se à escala continental

O CME "moderno", não é "menos Estado", mas mais Estado burguês, polícia, exército, deduções fiscais (de preferência através de impostos indiretos que atingem principalmente os "pequenos"), indo dialeticamente a par com menos serviços públicos e proteção social, para poder financiar a acumulação de capital. De facto, vivemos numa época em que a inevitável tendência da queda da taxa média de lucro exige que à exploração clássica seja adicionada uma pilhagem excessiva dos países pobres e um subsídio massivo ao capital, vindo de todos os escalões territoriais do poder público: Estado-nação ainda e sempre, enquanto permanecer nas mãos da grande burguesia, mas também "Europa" - o que é o "grande empréstimo europeu" senão CME praticado à escala continental?

"Grandes regiões", "Metrópoles" e outras "comunidades aglomeradas" sufocando as comunas e os departamentos republicanos. Mais uma vez, o poder do Estado não desaparece: move-se, transforma-se da escala nacional para as escalas infra e supranacionais. E é triste que ainda haja tantos "marxistas" para aplaudir com as duas mãos o estabelecimento desses monstros político-militares que carregam a guerra mundial dentro de si como a nuvem carrega o raio!

Conclusão

Para acabar com o escândalo permanente que são as ininterruptas subvenções ao capital privado por parte do poder público, não basta protestar contra Macron, nem mesmo exigir a sua demissão, por muito necessário que seja, porque todos os partidos ligados à UE e à "economia de mercado aberta ao mundo", o dito neoliberalismo, fazem, fizeram ou farão o que Macron está a fazer, seja o LAREM, o LR, o RN (que pretende ser "patriota", mas aceita oficialmente o capitalismo, o euro, a NATO e a UE) ou o PS ladeado pelos seus eternos satélites "euro-ecológicos", "euro-comunistas", "euro-trotskistas" e outros vendedores ambulantes da "Europa Social".

Para se livrar do escândalo permanente que a construção europeia constitui em termos de milhões de operários, empregados e engenheiros postos na rua, de camponeses levados ao suicídio, mas também de funcionários públicos precários, pressionados em serviços públicos exangues, é necessário uma saída pela via revolucionária, a das nacionalizações-expropriações, da democracia popular, da saída da UE e do euro, essa austeridade continental feita dinheiro. Sair do perigoso império capitalista em gestação, a NATO – máquina de globalizar as guerras americanas e da corrida armamentista – e do próprio capitalismo, de que o neoliberalismo e a "construção euro-atlântica" são apenas as máscaras atuais.

Porque, por muito que desagrade aos soberanistas de direita, aos nostálgicos de um bom e velho liberalismo idealizado e aos "eurocomunistas" malabaristas da Europa social, a evolução do modo de produção capitalista é irreversível: não é possível voltar duradouramente ao capitalismo de Estado "nacional" da era gaulista, nem restabelecer o "capitalismo competitivo e liberal" do século XIX, nem reconstituir suavemente ganhos sociais, poupando-se a dura tarefa da revolução.

Uma nação verdadeiramente emancipada, igualitária e fraternal só pode ter um conteúdo socialista, a marcha para o socialismo precisa de uma emancipação completa das nações europeias da camisa de força da UE, e não de 100 mil sofismas pseudomarxistas contra um "Frexit" progressista. O "soberanismo" burguês e a "euro-esquerda plural" são dois impasses simétricos: há que sair pela esquerda, rumo à democracia popular, rumo ao socialismo, sem hesitar em expropriar pura e simplesmente o grande capital, o euro mortífero da UE pré-totalitária, da NATO belicista e do capitalismo monopolista e imperialista!

 

A guerra de classe às crianças da Grã-Bretanha

 

Por: John Pilger

 

Na minha primeira reportagem sobre a pobreza infantil na Grã-Bretanha [1] fiquei impressionado pelas faces das crianças com quem falei, especialmente os olhos. Eles eram diferentes: precavidos, temerosos.

Em Hackney, em 1975, filmei a família de Irene Brunsden. Irene contou-me que deu ao seu filho de dois anos um prato de flocos de milho. "Ela não me disse que tinha fome, ela só gemia. Quando ela geme, sei que algo está errado".

"Quanto dinheiro tem você na casa?", perguntei.

"Cinco centavos", respondeu ela.

Irene disse que podia ter de ir para a prostituição, "para o bem do bebé". Seu marido, Jim, um condutor de camiões que não conseguia trabalho devido a doença, estava junto a ela. Era como se partilhassem uma aflição privada.

Isto é o que faz a pobreza. Na minha experiência, seu dano é como o dano de guerra; pode perdurar uma vida inteira, propagar-se aos seres amados e contaminar a geração seguinte. Ela atrofia crianças, provoca um conjunto de doenças e, como o desempregado Harry Hopwood me disse em Liverpool, "é como estar na prisão".

Esta prisão tem paredes invisíveis. Quando perguntei à jovem filha de Harry se pensava que algum dia viveria uma vida como crianças em melhor situação, ela disse sem hesitação: "Não".

O que é que mudou 45 anos depois? Pelo menos um membro de uma família empobrecida é provável ter um emprego – um emprego que lhes nega um salário digno. Incrivelmente, embora a pobreza esteja mais disfarçada, incontáveis crianças britânicas ainda vão para a cama com fome e brutalmente lhes são negadas oportunidades.

O que não mudou é que pobreza é o resultado de uma doença que ainda é virulenta mas de que raramente se fala – classe.

Estudo após estudo mostra que as pessoas que sofrem e morrem prematuramente das doenças da pobreza provocadas por uma dieta pobre, habitação degradada e pelas prioridades da elite política e dos seus responsáveis hostis pelo "bem-estar social" – são trabalhadores. Em 2020, uma em cada três crianças pré-escolares britânicas sofrem com isto.

Ao fazer o meu filme recente, The Dirty War on the NHS (A guerra suja ao SNS), ficou claro para mim que os cortes selvagens no SNS e sua privatização pelos governos Blair, Cameron, May e Johnson devastaram os vulneráveis, incluindo muitos trabalhadores do SNS e suas famílias. Entrevistei um trabalhador do SNS de baixa remuneração que não podia pagar a sua renda e foi forçado a dormir em igrejas ou nas ruas.

Num banco alimentar no centro de Londres, observei jovens mães a olharem em torno nervosamente quando corriam para longe com velhos sacos da Tesco 
[2] com comida, sabão em pó e tampões que não podiam pagar, com os seus filhos pequenos agarrando-se a elas. Não é exagero que por vezes sentia estar a caminhar nas pegadas de Dickens.

Boris Johnson afirmou que há menos 400 mil crianças a viver na pobreza desde 2010, quando os Conservadores chegaram ao poder. Isto é uma mentira, como confirmou o Comissário para as Crianças. De facto, mais de 600 mil crianças caíram dentro da pobreza desde 2012; espera-se que o total exceda os 5 milhões. Isto, poucos ousam dizer, é uma guerra de classe contra as crianças.

Johnson, um velho Etoniano 
[3] , é talvez uma caricatura da classe nascida para governar; mas a sua "elite" não é a única. Todos os partidos no Parlamento, notavelmente se não especialmente os Trabalhistas – como grande parte da burocracia e a maior parte dos media – têm pouca ou nenhuma ligação com as "ruas": com o mundo dos pobres, da "gig economia" [4] , da luta contra um sistema de Crédito Universal que pode deixá-lo sem um cêntimo e em desespero.

Na semana passada, o primeiro-ministro e a sua "elite" mostraram onde estavam as suas prioridades. Perante a maior crise sanitária de que há memória, quando a Grã-Bretanha tem o maior número de mortes de Covid-19 na Europa e a pobreza está a acelerar como resultado de uma política de "austeridade" punitiva, anunciou 16,5 mil milhões de libras para "defesa". Isto torna a Grã-Bretanha, cujas bases militares cobrem o mundo, o maior gastador militar da Europa.
E o inimigo? O verdadeiro é a pobreza e aqueles que a impõem e a perpetuam.

 

 [1] O filme Smashing Kids, de 1975, pode ser visionado em johnpilger.com/videos/smashing-kids
[2] Tesco: cadeia de supermercados na Grã-Bretanha.
[3] Etoniano: proveniente de Eton, uma escola da elite britânica.
[4] 
Gig economy : nela se incluem os que trabalham como fornecedores independentes em plataformas online; empresas de aluguer de mão-de-obra; trabalhadores que se comprometem a estar disponíveis para quando for necessário (on call) e trabalhadores temporários. Os Gig trabalhadores entram em acordos formais com companhias que atendem pedidos (on demand) a fim de fornecer serviços aos clientes das mesmas.


O ressurgimento rentista e a tomada de controle: Capitalismo financeiro vs. capitalismo industrial

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